segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Amálio abraça o relativo


Em questão de segundo, o mundo e as cores que iluminavam os milímetros de seu quarto avermelhado pareceram desbotar e sangrar de miudinho, como geleira que escorre para acabar. Amálio se via sem crença, sem ideologia, sem ideias, sem qualquer concreto para suas mão suadas agarrarem.

Beijou loucamente a pós-modernidade.

Aflito degustava cada mordida da liberdade, surgiam lágrimas no quarto desbotado, que de vermelho quedava à benevolência da neutralidade branca. Sentia a rotação da Terra e a aflição de respirar o ar carregado dos milênios de estagnação. O sol já não lhe dizia nada -- nem dia, nem noite, nem nada -- tudo se relativizava ao seu olhar incrédulo, mas crédulo em tudo e no porvir dos dias melhores que não construiria e agarraria mesmo assim com garra de leoa faminta.

Amálio andava sorrindo para a ingenuidade dos adultos e a sabedoria das crianças, brincava de roda no meio da avenida e levava businada. Queimou seus livros, sua casa, sua mãe, seu pai, sua irmã. Queimou a biblioteca central em seus sonhos -- dádivas inquestionáveis -- e não mais a via, como não via o que não queria.

Relativizou-se o todo.

Tudo ficou pequeno e pouco, uma mente suficientemente centimetral construía petas tão reais e misteriosas que os olhos umedeciam. Inefável. Ao redor de Amálio as borboletas mediam como elefantes e contornavam os prédios como anjos. Rugas no rosto. Os pés cansavam e também não acreditavam no cansaço, pisavam mais e mais, até os ossos apodrecerem e quebrarem, porém os pés continuavam pisando. E pisados também eram todos os escolhidos para o martírio de viver no mundo que Amálio havia deixado no quarto vermelho, pisados e grelhados, comidos vagarosamente pelo tic-tac infinito e pelos olhares míseros dos viventes.

Retesou seu corpo, imaginou-se borracha assim mesmo e vivia a se contorcer em circos de beira de estrada. Dormia em almofadas encardidas com cabeças de palhaços, via ali um espelho e pasmava ao perceber que sua construção também poderia ser atacada por kamikazes assassinos. Rugas nas mãos. Continuava a caminhada da inutilidade, crendo na descrença, o que por si só, apesar da irracionalidade do ato, gastava todo seu poder cognitivo e fazia dela religião fundamental para poder haver qualquer racionalidade no inimaginável imaginar. Não havia negações em Amálio, nem para Amálio, tudo fazia sentido ao perder o sentido, tudo fazia sentido ao esmigalhar-se nos ventos matutinos.

O desmazelo fazia da totalidade uma piada, uma pilhéria.

Caiu no tédio, no desespero de procurar o improcurável achou uma parede vermelha. Amálio já não sabia o que era vermelho, não sabia o que era cor, o que era isso ou aquilo, ou aquilo ou isso. Caiu na parede, e foi despencando aos poucos, as rugas foram explodindo em sua derme, marcas duma vida que foi sonhada na realidade e acabava nela. Foi escorregando na parede vermelha que agora não mais desbotava, mas brotava rosas adubadas com sangue. Apodrecia ali mesmo, engolido pela parede vermelha, a comedora de ossos de pés apodrecidos, a engolidora da ignorância e da falsa crença na incredulidade. Jaziam Amálios, caindo a-gravitacionalmente e sem relatividade, apenas resultados de suas falsidades, loucos que acreditavam na liberdade, estando na mais desgostosa prisão.

Prisão branca e sem rosto da falsa ingenuidade.


sábado, 31 de outubro de 2009

E se a felicidade fosse...


...tão fácil como receita de copo d’agua?
...tão barata quanto banana em promoção?
...tão comum como derramar a torrada com o lado da manteiga no chão?
...tão simples como dar “bom dia” ao vizinho?
...tão normal como se molhar na chuva?
...tão verdadeira como preocupação de mãe?
...tão natural como sorriso de criança?
...tão corriqueira como engarrafamento no trânsito?
...tão certa como as contas no fim do mês?
...tão ordinária como piscar o olho?
...tão singela como um abraço?
...tão inabalável como amor de mãe?


E se ela é isso tudo, e simplesmente não queremos perceber? Porque no fundo um complexo de culpa diz “eu não mereço ser feliz”, ou bate aquele pensamento “é bom de mais pra ser verdade”... Mas se as coisas mais simples nos trouxesse a felicidade...não haveria motivos para chorar, a não ser de alegria!

domingo, 25 de outubro de 2009

Psique suicida

(ou Dinâmica masoquista)


A mente tem caminhos surpreendentes,
Quando menos se espera, lança-se ao campo ou ao mar,
Esquece da razão e das consequências ao coração
E lança-se enlouquecida, desvairada a imaginar

A mente tem caminhos que se desconhece
Entrelaçamentos confusos,
Amarras em um subconsciente golpista
Lança "caramiolas" na cabeça
Ou bota fogo em instantes
A sentimentos que precisaram de anos para se estabelecer

Ela sabota a consciência
Confunde a razão
Perde o juízo

E quando as consequências "pedem licença"
É ela a primeira a agarrar o remorso
Por ter imaginado o que não existia
Sonhado com o que não devia

E promete mudar
E jura amadurecer

Mas basta uma novidade
Para ela agarrá-la e fantasiá-la
E o ciclo prossegue

Sem fim
Sem propósito
Uma corrida desvairada de uma psique suicida

*

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Complexo de Ícaro



Mais uma tarde em que o céu é tingido pelos mais distintos matizes e a cidade não pára para admirar.
As cabeças permanecem voltadas para o chão, modificado, esburacado e sujo.
Enquanto que o céu "ainda" um tanto quanto preservado passa despercebido.
A cidade no caos. Buzinas ensurdecedoras, pessoas disputando m², desordem, corrupção. Selva de concreto..
Mas basta levantar os olhos que a vista se alivia.
A suavidade do vento no bailar das nuvens, as cores do céu e de noite suas estrelas. Tudo tão perto e tão longe.
E a inveja da tranquilidade desfrutada pelos pássaros. Voando alheios a todas as confusões que ocorre metros abaixo.
Pode parecer muito poético, mas quão maravilhoso seria tocar as estrelas e lá do alto admirar o que ao invés de um ambiente inquiéto e caótico parece somente como mais um espetáculo da natureza!

domingo, 18 de outubro de 2009

Insônia

Ja é lei devorar sonhos acordado
sem sequer um copo d'água
pra diluir todo o açúcar tostado
pelo sol colorido que nem mais brilha
no mundo dos vampiros.

É um nó que permanece,
,
enforcando toda a leveza inexistente do fim do dia,
que pesa mais que chumbo pr'um travesseiro,
mas é agravitacionado pros sorrisos amarelos
de areia, sem praia.
Dois olhos que nem mais piscam,
pessoas que não arriscam
e riscam
o risco de viver,
pessoas rasgadas

Cada noite acordado
me faz refletir se morrer
é mesmo, afinal, um fardo.

A cada noite acordado
eu bebo o brilho das estrelas
num literário caldo.