
Em questão de segundo, o mundo e as cores que iluminavam os milímetros de seu quarto avermelhado pareceram desbotar e sangrar de miudinho, como geleira que escorre para acabar. Amálio se via sem crença, sem ideologia, sem ideias, sem qualquer concreto para suas mão suadas agarrarem.
Beijou loucamente a pós-modernidade.
Aflito degustava cada mordida da liberdade, surgiam lágrimas no quarto desbotado, que de vermelho quedava à benevolência da neutralidade branca. Sentia a rotação da Terra e a aflição de respirar o ar carregado dos milênios de estagnação. O sol já não lhe dizia nada -- nem dia, nem noite, nem nada -- tudo se relativizava ao seu olhar incrédulo, mas crédulo em tudo e no porvir dos dias melhores que não construiria e agarraria mesmo assim com garra de leoa faminta.
Amálio andava sorrindo para a ingenuidade dos adultos e a sabedoria das crianças, brincava de roda no meio da avenida e levava businada. Queimou seus livros, sua casa, sua mãe, seu pai, sua irmã. Queimou a biblioteca central em seus sonhos -- dádivas inquestionáveis -- e não mais a via, como não via o que não queria.
Relativizou-se o todo.
Tudo ficou pequeno e pouco, uma mente suficientemente centimetral construía petas tão reais e misteriosas que os olhos umedeciam. Inefável. Ao redor de Amálio as borboletas mediam como elefantes e contornavam os prédios como anjos. Rugas no rosto. Os pés cansavam e também não acreditavam no cansaço, pisavam mais e mais, até os ossos apodrecerem e quebrarem, porém os pés continuavam pisando. E pisados também eram todos os escolhidos para o martírio de viver no mundo que Amálio havia deixado no quarto vermelho, pisados e grelhados, comidos vagarosamente pelo tic-tac infinito e pelos olhares míseros dos viventes.
Retesou seu corpo, imaginou-se borracha assim mesmo e vivia a se contorcer em circos de beira de estrada. Dormia em almofadas encardidas com cabeças de palhaços, via ali um espelho e pasmava ao perceber que sua construção também poderia ser atacada por kamikazes assassinos. Rugas nas mãos. Continuava a caminhada da inutilidade, crendo na descrença, o que por si só, apesar da irracionalidade do ato, gastava todo seu poder cognitivo e fazia dela religião fundamental para poder haver qualquer racionalidade no inimaginável imaginar. Não havia negações em Amálio, nem para Amálio, tudo fazia sentido ao perder o sentido, tudo fazia sentido ao esmigalhar-se nos ventos matutinos.
O desmazelo fazia da totalidade uma piada, uma pilhéria.
Caiu no tédio, no desespero de procurar o improcurável achou uma parede vermelha. Amálio já não sabia o que era vermelho, não sabia o que era cor, o que era isso ou aquilo, ou aquilo ou isso. Caiu na parede, e foi despencando aos poucos, as rugas foram explodindo em sua derme, marcas duma vida que foi sonhada na realidade e acabava nela. Foi escorregando na parede vermelha que agora não mais desbotava, mas brotava rosas adubadas com sangue. Apodrecia ali mesmo, engolido pela parede vermelha, a comedora de ossos de pés apodrecidos, a engolidora da ignorância e da falsa crença na incredulidade. Jaziam Amálios, caindo a-gravitacionalmente e sem relatividade, apenas resultados de suas falsidades, loucos que acreditavam na liberdade, estando na mais desgostosa prisão.
Prisão branca e sem rosto da falsa ingenuidade.



