"Mas, o que é viver?", pergunta Alain Badiou.
O menino surge das sombras. Há alguns minutos pisa firme no Marechal Deodoro e sua furiosa ideologia nacionalista-patriarcal. Percorre a madrugada a busca de sua essência vulcânica: auto-destruição. Foge deliberadamente das luzes e encontra na escuridão um refúgio emancipador. Dribla mendigos, travestis e os chamados "marginais". Compartilha alguns cigarros no caminho e estipula a si mesmo a redenção por tal caridade. Anuncia sua chegada a São Francisco. Não baixa os olhos molhados um segundo sequer, quer notar a notoriedade nula duma sobra na madrugada. É frio no verão. À sua direita Jokers e conhecidos, despista com um "vou encontrar o pessoal no Largo" e ruma fingissorridente. Acelera o passo por demasiada multidão sábado-noturna. Álcool, conversas, fumo, gente. Pó qu'inda não conheceu sua origem-nada e futuro-mesmo. Ao lado do Alemão poderia reconhecer alguns rostos - ou talvez todos - aquele bando de Mesmo inconfundível afundado no Nada-invida. Sobe mais e encontra-se. É pago com álcool e sorrisos, caminhos, amor e sorrisos. Sente-se Ali. Sente-se. À sua mente sua mãe e um diálogo infindável que lhe corroía imensamente:
– Por que você faz isto com você? Por que gosta de se auto-destruir?
– Eu sou assim.
– Por quê?
"Mas, o que é viver?", pergunta-se.
Ao caminho regresso, mesmo-sempre, derrete-se frívolo em lágrimas. Espanta o álcool com lamúrias e gente com desgraça. Escolhe os "piores" caminhos e torce. Alguém, alguém haveria de puxar o freio naquela noite, não aguenta mais. Dói-lhe a desnecessidade de resposta, o supremo conhecimento final perante a morte. Sabia demais e sabia que esse saber só lhe significava o fim. Cambaleia em marechais, generais, salvadores, santos e curitibanos ilustres. Homens e mulheromens-aceitas desnudos em ruas saturadas. É num beco solitário que avista sete homens cambaleando também em uníssono desespero. Não mais esquiva.
– Passa a grana!
– Não.
Abre a carteira e mete fogo em suas notas e documentos. Não precisava de nome ou bens, a iluminação é Nada-tudo, aceitava-a. Rasga as roupas e ri mais alto que um porco no matadouro. Estraçalha o celular no chão e provoca com a felicidade final. O último ato de um Ser. Cospem-lhe socos e pontapés, pintam-no de sangue e mascaram-no de osso. Rosto fundo no chão, come poeira e se torce em pó. Correm satisfeitos sete discípulos do Todo sistemático. Na manhã, poucos minutos além, fotografias e a percepção da brancura da pele e do não-estigma morto. Preocupação e manchete.
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A mãe acorda num domingo ensolarado. Beija sua amada filha e ama o filho a distância. Procura o celular para conferir as horas passadas. Uma mensagem resta. Abre-a.
"Porque não há mais nada. Nada é estar vivo. Não me enganarei mais consumindo o Nada", responde-lhe o filho.