Palhaço


Um palhaço geralmente é um bobo qualquer que faz os outros rirem. Odiado por muitos e temido por alguns miúdos, segue adiante com a maquiagem exagerada e a cara eternamente alegre. Sem um propósito maior, sem um trabalho complicado, sem mestrados e doutorados, mas mesmo assim consegue ser doutor em solucionar uma doença mortal que nem o mais renomado médico consegue curar: a tristeza. Não quer o papel sujo do ser humano, nem seus metais redondos que cegam até os mais puros, quer apenas o objeto de sua ambição, o qual vendemos aos ares de graça todos os dias, o verdadeiro sorriso da felicidade.

E ele não desiste de tentar,
Seja no circo ou no vale da última esperança
Provocando o velho que não vai sarar
E a gorda e mimada criança.
.
Não distingue mais cores nas pessoas
Talvez além de bobo seja daltônico
Pois não vê pretos, branco e amarelo
Enxerga apenas dentes

[e dentes sorridentes]

Casados com olhos brilhantes
Que mesmo com as cabeças carecas
Não desistem de ser sapecas
E roubarem da vida instantes.

Mas mesmo assim, o palhaço é só mais um bobo que não quer consumir. Tolo ignorante que não vê que felicidade está no carro do ano, na roupa da moda, na televisão de 80 polegadas, no novo shopping da cidade e não ali naqueles doentes ou naquele público carente dos picadeiros. Que pena que o palhaço não se modernizou e não tem botões brilhantes no peito, coitado dele, é apenas um bobo qualquer que faz os outros rirem.

- Obrigado por ler, ainda desenferrujando, Hugo. (veja o vídeo se puder)

Sendo breve, sendo homem.

O mundo me deslumbra. Carrega uma cruz tão grande e mesmo assim não desiste de girar.

O ser humano me fascina. Consegue ter todos os verbos em sí. Virou tudo e o todo virou de ponta-cabeça. O humano é racional e mesmo assim carrega um coração, o qual incha e seca dependendo da estação de sua vida, bate acelerado ao encontrar o amor e mata seu corpo ao dizer adeus. É o bicho das fotografias forjadas, dos momentos, da eterna cristalização, do parecer, mas ao mesmo tempo é o ser das mãos dadas, das lágrimas de alegria, da doação, das cores e das luzes. É a vida em sí, o sorriso sincero, a contradição, o câncer e a cura.

E mesmo sendo tudo, as vezes não somos nada.


Tenho ouvido tanta coisa boa por aí, pensado tanto no mundo, voado tanto com asas de palavras, observado tantas coisas erradas que resolvi dar vida novamente ao rotineiro. Tomara que o tempo não queira brigar de novo.

Bem vindo novamente.

'Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.'

- Drummond