O poeta triste

Sentia-se gelo,
Pedra rígida e fria que caía da montanha.
Suas palavras esquecidas,
Sua fumaça escurecida,
Sua palidez embranquecida.

Poetizava em um mundo de cegos
E cantava em terra de vácuo absoluto

Não compreendia
Como o sangue dos homens perdia a cor
E então se via
Com ferimento profundo e indolor.

Hibernava em uma crua angústia
De boca calada, seca e inanimada
Apelando por uma simples faísca
De uma outrora viva alvorada

E o duro gelado poeta
Da rua escura e estreita chamada Eu
Fez baixinho uma pergunta discreta
Que sem respostas nos anos envelheceu

Pois respostas não havia para sua dor
Inconcebível até para o mais cruel infrator
Que lhe queimava num eterno ardor
E lhe cegava feito aperto de amor.

Mas mesmo assim se afundava nesse mundo mundano
Que não lhe ouvia, posto que é surdo
Mas o sentia
Em inflamados batimentos de um coração humano.


- Poema dedicado à todos os poetas dormentes que calados estão dentro de nós. Hugo.

21


Sou o maior erro de um Deus furioso
Sou o prefácio da morte encarnada
Sou a paz conquistada pela guerra
Sou o resto de uma vida errada
Sou o canto que o show encerra
Sou a ultima tragada de um cigarro apagado
Um pensamento, um batimento
Um pulsar, um amar
Um vôo sem guia e sem destino
Uma aventura à qual não posso escapar
Sou a fúria dos deuses nas ondas do mar
Sou o trovão da tempestade invernal
Sou o calor frio do mundo anormal
Sou a pergunta sem resposta
O resultado dos séculos passados
O medo dos anos futuros
Sou o vazio absoluto
De um todo irresoluto
Sou um batimento, um pulsar
Sou amor à amar.

Sou o infinito que morre
A história inacabada
O crepúsculo eterno das súplicas de paixão
A chuva que cai banhada de distração
Sou o ser que é
O rompimento da sensação
A razão em sí
Controlada pelo coração.

Sou seu egoísmo
O trunfo de Alá
O filho das bombas
O pai do fim
O avô do recomeço.

Sou a gota que cai na curva do espaço
Sou os pés que percorrem o caminho que traço
Sou a peça estragada dos mundos
Sou a imperfeição de pedaços de maçã
Sou o hoje que foge do amanhã.

Sou o álcool,
O sexo,
A violência,
O cigarro,
A droga,
A revolta de um prazer renegado.

Sou a liberdade
A conquista
A esperança
A desinfância

Sou a pergunta sem resposta
E a resposta de todas as perguntas
Sou a criação do vigésimo primeiro
A destruição em um segundo.