Escutem,

é o alarido mudo das palavras!
coração.
aberto, inflamado, escuro, solitário.
oração
infiel, pecadora, alva, esparramada.

é o grito que ninguém ouve
a palavra escrita

é o tiro que não respira
a dor inscrita

é a mão que se recolhe
a lágrima aflita

poesia

algazarra sombria

poesia

morte em vida.

Banksy

Pra quem quiser conhecer mais: http://www.banksy.co.uk/
Fechar os olhos. Respirar. Abre os olhos agora, vês tudo?

.....Acredito que o mundo inteiro poderia estar pisando nas areais de fim de ano, entretanto eram poucos os que se entretinham com o solo. O céu sugava olhares diversos, milhares de bolinhas cheias e vazias que rutilavam na madrugada. Como a exceção nunca deixa de aparecer para bagunçar deliberadamente todos os rumos e certezas do universo, alguns olhos não se deixaram seduzir pelos sons chamejantes do novíssimo ano. Alguns olhares rodavam sorrindo de sua embriaguez, outros umedeciam-se e se emudeciam, porém o mais interessante de todos permanecia focado no mar, contando ondas, catando sal.

Tudo que vai
volta
e revolta,

dizia-lhe Poseidon num dialeto indecifrável por humanos. "Estais correto grande mar", pensou. A volta da revolta de sua insignificância lhe fez espumar como um cão raivoso, os humanos já não eram mais suficientes para sua sede de vida. Despiu-se. Quase ninguém viu e quem viu no máximo riu, a maioria sem entender, apenas com a vontade de rimar com o "viu" primário.
.....Amou o mar.
.....Inicialmente desajeitado, empurrado pelas ondas, emburrado pelas luzes excessivas, aos poucos ganhando território na antiga prostituta, uma mãe prostituta, aberta a tudo e a todos. .....Amou-o, amou-a, amou-se. Aos poucos foi virando peixe e respirando sal. Afundava e já não ouvia mais os macacos rosados sem galhos e sem bananas.
.....O mar tinha aceito todo o lixo que vinha, estava na hora da volta e da revolta.
.....O peixe-homem sentou numa poltrona de algas para o maior espetáculo dos últimos milênios. Agora seus olhos também brilhavam. Sem piscar. Via a água que crescia como um muro, um buraco negro espumante, a fúria em expansão. Os gritos, porém, chegaram muito atrasados, não houve qualquer emoção como nos cinemas e a pipoca do peixe e do homem nem saiu do microondas. Estava na hora de voltar, basta de revolta.
.....As ondas, espumantes como champanhe, continuavam verbosas, mas agora o peixe já era novamente homem e podia ignorá-las. Estava morta a estirpe de infelizes. Alguns ainda estavam por morrer, a estes assistíamos aos risos; outros pelejavam contra a morte, estes maquiávamos de chumbo, ou de pedra, ou de aço, ou de qualquer coisa que combinasse com vermelho.
.....-- Feliz ano novo! -- gritou a água que caía do céu (totalmente fora de ritmo com o blues do mar azulado, diga-se de passagem...).
.....-- Feliz ano novo! -- respondi com um sorriso e um aceno enquanto tirava as escamas de um Papai Noel que seria frito logo mais. Enquanto isso Peixe se afogava com o ar ao meu lado.
.....Os olhos continuavam ali, agora não eram mais bobos ou robôs, todos estavam encharcados de adrenalina e medo e passavam paz ao homem. O mundo estava tranquilo e o câncer havia regredido muito, apesar de ser incurável, a não ser com o suicídio. Mas um dia o mundo cansa e aí o homem vai-se todo também. Este pensamento foi um orgasmo para o peixe-homem-peixe que fritava gente na areia enquanto o céu continuava a chorar. De forma pirraça não contou numericamente o ano e fez o tempo se encher de cólera e querer vingança. Então tudo foi ficando lento e estagnando, quando percebemos estávamos loucos e letrando-nos, palavrando-nos, fraseando-nos, texteando-nos, e logo eramos apenas o imaginário de olhos que liam uma tela qualquer de um lugar qualquer em meio a uma rede mundial que não dava peixe.

Fechar os olhos. Todos. Sempre. Vês tudo, agora abre os olhos.

Cerro os olhos e nada vejo,
Em nada estou além dos batimentos
Do meu coração sobejo.

A ternura de meus pensamentos
Dança com meus frívolos gestos
Impassíveis e impossíveis
de demonstrar o amor.

Dor

Ferida incerta e desperta
De um monstro engolidor de lágrimas,
Ferida aberta e esperta
Que preenche de sentimentos páginas.

O amanhecer é melancólico entre as nuvens
Onde tudo se renova, menos o eu que observa
E se mistura ao orvalho e aos galos jovens
Petrificado pelo vácuo do existir.

Cerro os olhos para me enxergar
Fora dos espelhos comprados
E dos preconceitos impregnados,
Livre dos olhos e dos olhares

Abraço a escuridão solidária.
Sou ao mundo e o mundo
Gelo que ninguém agasalha,
Amor que nasce infecundo.

Esmigalhado pelo todo
Navego nas letras e nas canções
Embriagado de paixões
E ressaqueado de tudo.



Estar vivo


Má sorte tem a vida em me desafiar.
Escapo a largos passos, pulando no teto
Dos céus das estrelas e das luzes a amar
E sem medo me perco do tempo abjeto
Colorindo as estradas,
Ignorando as espadas,
Esmagando os espinhos,
Embriagando os caminhos.

Impávido destruo os espelhos
Cago para as aparências
que desaparecem (nos que crescem)
E sujo de alegrias as mentes sem tendências
.........................................................................que não mentem
......................................................................................apenas sentem.

Má sorte tem essa vida alinhada em me desafiar,
Se já cortei a linha da hipocrisia
Fica muito mais fácil ziguezaguear
E ainda dirão que era louco quem ria
Pois vos digo: louco é quem chora!


Fogos de artificialidade



É impossível não relar os olhos num céu iluminado por fogos de artifício, ainda mais quando se é criança, ainda mais quando se é miserável. Abá sabia muito bem o significado de ver o céu em chamas. Era negro como o carvão, os olhos amarelos com forte tom de vermelho por todas as drogas que um corpo de 13 anos pudesse comportar aliadas a todas as lágrimas da vida que não se podia suportar. A favela o engolira quando bebê e as correntes do preconceito não lhe cediam a alforria, mesmo assim observava o Rio como um deus, apontando sua arma às cabeças imaginárias que procurava nas ruas, nos prédios e na praia.

Ah, como eram bons os dias que precediam a morte do ano! Toda a merda em que naufragava diariamente coloria-se de luzes diversas nos barracos e nas mansões, ledo piscar. O mundo dos pobres era abraçado pelos endinheirados e pelos wanna be endinheirados, que realizavam seus fetiches filantrópicos. Abá crescera muito nos últimos meses, isso amedrontou a dondoca que lhe entregou seu presente do Papai Noel, além do nojo expresso em seu botox imóvel. Aprendera a ignorar o rosto das pessoas que nunca passaram fome, "assim é mais fácil de matar" lhe ensinara um amigo da escola certa vez. Ele ganhou uma bola nova, que, em poucos minutos, se transformaria em pó. Não. Queria relaxar enquanto o céu pegava fogo, preferiu os baseados de seu tio.

Sentou em seu trono de dor e esquecimento e começou a imaginar cada rosto que se aglomerava na orla, como cada um deles ficaria bem maquiado de sangue e miolos. Apontou a velha arma para as estrelas. Para as nuvens. Para as árvores. Para as casas. Para tudo, a única coisa que continuou se movendo eram as figuras vestidas de negro -- mais negro que o carvão -- que faziam seus amigos deitarem em poças de sangue. Descobriu que não ouvira nada pois o céu já começava a explodir, levando consigo todo o ano que havia passado e todas as pessoas que eram caçadas pelo governo.

Morriam homens, mulheres, crianças, idosos... mas ah! o céu estava tão lindo! As pessoas se abraçavam nas televisões, o renascer estava acontecendo, todos os brancos de branco. Abá terminava de fumar enquanto via crianças brincando de polícia e ladrão com as criaturas sombrias. Seu corpo e seu coração permaneciam rijos, frios, plateia soturna do espetáculo da morte. Os outros corpos continuavam a cair, não possuíam nem mais o direito de gritar em frente ao estrondoso arrebentar do céu e do mar. Mas tudo era tão lindo!

Abá entregou a pistola aos homens de negro, mas seus olhos enraizados nas luzes acima o deixavam imóvel. Sentiu o cheiro de álcool nas palavras gritadas junto aos pontapés e também no líquido que o banhava junto ao sangue de seu nariz quebrado. Mas o céu estava tão lindo! Deu uma última piscadela à estátua do Cristo e gritou. Gritou tão forte que sua explosão se juntou ao céu despedaçado, além das risadas dos homens de preto, além das pessoas de branco encardido, além de todo o mundo.

Esfarelou-se em brilho junto a toda a munição de fogos que trazia dentro de suas roupas pobres e embaixo de seus pés, estourando os rostos dos homens de preto, que morriam assustados com a gargalhada do menino que se explodia. Todos maquiados de miolos tostados. O fogo do chão acariciava os fogos das estrelas, amaram-se então. E do voluptuoso incêndio do universo nasceu o ano novo. Ano novo sem Abá.


Abá é um nome de origem afro-brasileira, significa "esperança".

Meu cigarro tá apagado em cima da mesa

Chama
que eu vou pro samba te ver derreter.
Ah, minha dama
te escravizo na cama até o amanhecer.

Chama
que eu não apago com água.
Apago minha mágoa
em tua saliva.

Livra
meu corpo de mim,
me perca em seus pêlos
há pêlos!, apelos

Nem sei quem tu és
-- que tu és --,
só sei que esse beijo suado
e o álcool secado
vão me deixando facinho
facinho...

Chama
Cama
Chama



AMANHÃS

Os amanhãs são palavras tão bonitas
que enchem meus dias de esperança,
mas na dança cruel da realidade
são apenas hojes
inacabáveis.
Torturante e congeladamente sempres,
são futuros com saudade.

Rei deposto


Oh meu reizinho!
Oh minha rainhazinha!

Pisam de pés descalços ao chão
sorrindo. Sorriem infantilmente
na terra batida, na cara batida, na fome sem pão!
meu reizinho...

brinca na rua, mora na rua, chora na rua

arrancado de casa, vendido ao mundo
-- ao terceiro mundo --
pela cobiça cega e surda
(que até hoje não muda)
empodrecedora de corações.

Ah meu reizinho, julgam-te por sua bela tez
-- inveja da ignorante palidez --
e por tua garra e alegria,
coisa que nenhum gelo propicia.

Oh meu rei, minha rainha.
brincam na rua, vivem na rua, morrem na rua,
fomos todos vendidos
somos todos vendidos
milhares de cores escravas
da monarquia!
da economia!
da hipocrisia!
meu reizinho de pés descalços
de coração que batuca ao chão
e treme o chão
e a mão da apatia.

meu pequeno reizinho de viva alegria.

Uma pausa para o suicídio.


Monótono.

Luz do cubículo branco artificialmente clara como a neve. Porém ele nunca havia visto a neve, o que nos traz a conclusão de que sua comparação fora mera paráfrase barata d'um outrem qualquer. Era fria a luz e a vida do trabalhador do cubículo 314, uma rotina movida a engrenagens imparáveis e sistemáticas. Tinha uma vida longe de qualquer extremo, permanecia no centro, centrado. Imóvel seria a palavra certa se não fosse o universo uma eterna expansão, pedra seria a descrição perfeita se não fosse o sangue bombado pelo coração. Rimei, mas ali não havia rimas.

Café. Obra do passado que permanecia no nosso futuro a apagar sonhos, a apagar.

Aquele fogo não havia desaparecido na primeira entrada do cubículo, na verdade nunca queimou, como vários outros. A escola, a faculdade, a vida: foram apenas passos e etapas vencidas, apenas fases que ficaram escritas em fotos de sorrisos forjados e lembranças desmerecidas. Seguiu religiosamente todos os passos ditados pelo senso comum, adorou o status quo e as opiniões oficiais: era um bom cidadão.

Carro bom, gostava de pensar que as outras pessoas sentiam inveja de seu bem. Chegava em casa pontualmente após as piadas no mesmo bar e a dose de whisy no mesmo banquinho que já possuía as formas tristes de suas nádegas. Um beijo gelado de sua mulher robotizada, um abraço com olhos de vidro de seu filho computadorizado, era a vida que pedira a deus. Ah sim, desculpe-me: que pedira a Deus. Não é necessário dizer que chorava pelos males que surgiam na TV, vindo de países longínquos de alguns quilômetros de sua casa, nem que orava antes de dormir e passeava nas melhores vestimentas na missa aos domingos. Gostava de pensar que as pessoas sentiam inveja de seus bens.

O cubículo tornou-se maior pelos anos que passavam, 314 progredia em retrocesso ao 123, seu objetivo. A trilha ortodoxa foi, então, incomodada. Um poema gritava mais alto que os diabos do inferno em sua tela de computador. Era de um colega que não chegara ao quarto ano. Um falido que nunca quisera riqueza, um falido que não se importava com correntes hipócritas, um falido que não criara raízes em cidade alguma, um falido que implodira cubos e cubículos, um falido que se fez amorfo no mundo e vinculou-se às mais nobres causas, um falido que sorria em várias imagens que não passara do imaginário de 314, um falido que vencera as regras. Era um colega que ria das normas e rasgava gravatas com o olhar, despia-se de qualquer imundice da fútil vida conformista e que rasgava pulsos em cubículos congelados.

Pausa para o café. 499 cubículos reabasteciam suas faltas de sonhos com alienação e olhos vidrados. 499 cubículos andavam em fila pro matadouro de almas. 499 corpos não sentiam a falta de um. Um nada. Que permanecia sentado, com as nádegas quadradas e cataratas vermelhas jorrando dos pulsos, enquanto as lágrimas aqueciam a chama que acendia pela primeira vez. Ascendeu à humanidade.


Amálio abraça o relativo


Em questão de segundo, o mundo e as cores que iluminavam os milímetros de seu quarto avermelhado pareceram desbotar e sangrar de miudinho, como geleira que escorre para acabar. Amálio se via sem crença, sem ideologia, sem ideias, sem qualquer concreto para suas mão suadas agarrarem.

Beijou loucamente a pós-modernidade.

Aflito degustava cada mordida da liberdade, surgiam lágrimas no quarto desbotado, que de vermelho quedava à benevolência da neutralidade branca. Sentia a rotação da Terra e a aflição de respirar o ar carregado dos milênios de estagnação. O sol já não lhe dizia nada -- nem dia, nem noite, nem nada -- tudo se relativizava ao seu olhar incrédulo, mas crédulo em tudo e no porvir dos dias melhores que não construiria e agarraria mesmo assim com garra de leoa faminta.

Amálio andava sorrindo para a ingenuidade dos adultos e a sabedoria das crianças, brincava de roda no meio da avenida e levava businada. Queimou seus livros, sua casa, sua mãe, seu pai, sua irmã. Queimou a biblioteca central em seus sonhos -- dádivas inquestionáveis -- e não mais a via, como não via o que não queria.

Relativizou-se o todo.

Tudo ficou pequeno e pouco, uma mente suficientemente centimetral construía petas tão reais e misteriosas que os olhos umedeciam. Inefável. Ao redor de Amálio as borboletas mediam como elefantes e contornavam os prédios como anjos. Rugas no rosto. Os pés cansavam e também não acreditavam no cansaço, pisavam mais e mais, até os ossos apodrecerem e quebrarem, porém os pés continuavam pisando. E pisados também eram todos os escolhidos para o martírio de viver no mundo que Amálio havia deixado no quarto vermelho, pisados e grelhados, comidos vagarosamente pelo tic-tac infinito e pelos olhares míseros dos viventes.

Retesou seu corpo, imaginou-se borracha assim mesmo e vivia a se contorcer em circos de beira de estrada. Dormia em almofadas encardidas com cabeças de palhaços, via ali um espelho e pasmava ao perceber que sua construção também poderia ser atacada por kamikazes assassinos. Rugas nas mãos. Continuava a caminhada da inutilidade, crendo na descrença, o que por si só, apesar da irracionalidade do ato, gastava todo seu poder cognitivo e fazia dela religião fundamental para poder haver qualquer racionalidade no inimaginável imaginar. Não havia negações em Amálio, nem para Amálio, tudo fazia sentido ao perder o sentido, tudo fazia sentido ao esmigalhar-se nos ventos matutinos.

O desmazelo fazia da totalidade uma piada, uma pilhéria.

Caiu no tédio, no desespero de procurar o improcurável achou uma parede vermelha. Amálio já não sabia o que era vermelho, não sabia o que era cor, o que era isso ou aquilo, ou aquilo ou isso. Caiu na parede, e foi despencando aos poucos, as rugas foram explodindo em sua derme, marcas duma vida que foi sonhada na realidade e acabava nela. Foi escorregando na parede vermelha que agora não mais desbotava, mas brotava rosas adubadas com sangue. Apodrecia ali mesmo, engolido pela parede vermelha, a comedora de ossos de pés apodrecidos, a engolidora da ignorância e da falsa crença na incredulidade. Jaziam Amálios, caindo a-gravitacionalmente e sem relatividade, apenas resultados de suas falsidades, loucos que acreditavam na liberdade, estando na mais desgostosa prisão.

Prisão branca e sem rosto da falsa ingenuidade.


E se a felicidade fosse...


...tão fácil como receita de copo d’agua?
...tão barata quanto banana em promoção?
...tão comum como derramar a torrada com o lado da manteiga no chão?
...tão simples como dar “bom dia” ao vizinho?
...tão normal como se molhar na chuva?
...tão verdadeira como preocupação de mãe?
...tão natural como sorriso de criança?
...tão corriqueira como engarrafamento no trânsito?
...tão certa como as contas no fim do mês?
...tão ordinária como piscar o olho?
...tão singela como um abraço?
...tão inabalável como amor de mãe?


E se ela é isso tudo, e simplesmente não queremos perceber? Porque no fundo um complexo de culpa diz “eu não mereço ser feliz”, ou bate aquele pensamento “é bom de mais pra ser verdade”... Mas se as coisas mais simples nos trouxesse a felicidade...não haveria motivos para chorar, a não ser de alegria!

Psique suicida

(ou Dinâmica masoquista)


A mente tem caminhos surpreendentes,
Quando menos se espera, lança-se ao campo ou ao mar,
Esquece da razão e das consequências ao coração
E lança-se enlouquecida, desvairada a imaginar

A mente tem caminhos que se desconhece
Entrelaçamentos confusos,
Amarras em um subconsciente golpista
Lança "caramiolas" na cabeça
Ou bota fogo em instantes
A sentimentos que precisaram de anos para se estabelecer

Ela sabota a consciência
Confunde a razão
Perde o juízo

E quando as consequências "pedem licença"
É ela a primeira a agarrar o remorso
Por ter imaginado o que não existia
Sonhado com o que não devia

E promete mudar
E jura amadurecer

Mas basta uma novidade
Para ela agarrá-la e fantasiá-la
E o ciclo prossegue

Sem fim
Sem propósito
Uma corrida desvairada de uma psique suicida

*

Complexo de Ícaro



Mais uma tarde em que o céu é tingido pelos mais distintos matizes e a cidade não pára para admirar.
As cabeças permanecem voltadas para o chão, modificado, esburacado e sujo.
Enquanto que o céu "ainda" um tanto quanto preservado passa despercebido.
A cidade no caos. Buzinas ensurdecedoras, pessoas disputando m², desordem, corrupção. Selva de concreto..
Mas basta levantar os olhos que a vista se alivia.
A suavidade do vento no bailar das nuvens, as cores do céu e de noite suas estrelas. Tudo tão perto e tão longe.
E a inveja da tranquilidade desfrutada pelos pássaros. Voando alheios a todas as confusões que ocorre metros abaixo.
Pode parecer muito poético, mas quão maravilhoso seria tocar as estrelas e lá do alto admirar o que ao invés de um ambiente inquiéto e caótico parece somente como mais um espetáculo da natureza!

Insônia

Ja é lei devorar sonhos acordado
sem sequer um copo d'água
pra diluir todo o açúcar tostado
pelo sol colorido que nem mais brilha
no mundo dos vampiros.

É um nó que permanece,
,
enforcando toda a leveza inexistente do fim do dia,
que pesa mais que chumbo pr'um travesseiro,
mas é agravitacionado pros sorrisos amarelos
de areia, sem praia.
Dois olhos que nem mais piscam,
pessoas que não arriscam
e riscam
o risco de viver,
pessoas rasgadas

Cada noite acordado
me faz refletir se morrer
é mesmo, afinal, um fardo.

A cada noite acordado
eu bebo o brilho das estrelas
num literário caldo.

Ao Outubo

Achava-se graça em desgraçar.
Rebanho de nuvens a voar com sonhos
Líquidos despencando, ar ao mar -- ara o mar --,
Sonhos (sonhamos) sem medir tamanhos.

Primavera afogada por sáfio clima sem
Clímax ou pulsar de seiva das amoreiras
Sem amor(as). Nem lúgubre, nem
Sorridente: primaveras brasileiras.

O enfaro reflete as tormentas e as inconstâncias
Da pilhéria da vida que chove -- que vive a chover.
Os velhos e o Outubro se encontram nas ambulâncias
E nos esquifes oblongos das cinzas nuvens a engrandecer.

O Outubro chove. Lava e leva mais sonhos
Entre os trovões da procela primavril e cobre
De ouro as estátuas e as hienas -- tradição e insulto --,
Retesa-se o viver, permanece o culto.

A desgraça vira graça, engraçadamente,
O diabo vira santo, religiosamente,
A piada vira lei, normativamente,
E o Outubro esconde a cara, mente.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Muito obrigado pelos comentários, ando meio sem tempo pra postar um texto em prosa hehehe... vou deixar uma música maravilhosa de uma das minhas bandas preferidas: Beirut - In The Mausoleum.

Solo Norteado


O Norte se cansava e caía ao chão
Empoeirado e suado de risos amantes
Cantados em lépido tálamo de adoração
De corpos que se fundiam em pernas vibrantes.
O lençol vário se retorcia e gemia invejoso
Pela carne que se amava embebida de nudez
A pêlos e com
apelo mui fogoso
Que encinerava e curava qualquer embriaguez
(ou talvez a piorasse com a discreta armadilha
da paixão retorcida que exalava a virilha).
As gotas formavam rios pela tez amaciada
Que se uniam e jorravam odores inculpados,
Mas tão queridos e sabiamente pecados
Que até Deus perdoava os gritos da amada.
Ah, como era doce a vida em um pólo,
Onde nos ouvidos se sussurava amour
E sem medo o Norte tocava o solo
E o solo dos amantes se transformava em duo.


Hoje visitei pela primeira vez a comunidade Caçador, meio perto de Curitiba, pelo projeto de extensão SAJUP. Mais uma vez a realidade na minha frente: a ignorância, as insuficiências do Estado, a pobreza, a alienação inculpada. Mais uma vez a tristeza. Foi um dia bom com amigos, mas voltando pra casa, ao ver as pessoas, ao ver não só com meus olhos o que são essas pessoas -- principalmente da cidade grande --, foi-se desenvolvendo um asco, um nojo profundo por tudo a minha volta. Todas aquelas pessoas que preferem a sombra fresca e alienada da permissividade e passividade. Esse mundo é muito podre. Assim escrevi um poema, que é muito mais um grito do que um poema. Ele não é bonito, mas é sincero e escrito por meu coração:

CAÇA-DOR

Rostos marcados pela mais triste verdade:
Viver no além-prédios esgota a felicidade.

Rostos de linhas duras e olhos apagados,
Toda um existência sugada pelo buraco negro chamado humanidade
Cheio de cobiça e aceitação de gados (ou homens) despedaçados.
ou monstrualizados?

Eram tantas vozes caladas em um oceano de morros
onde morro e morre qualquer esperança de verdades
ditas por bocas que só falam. Esporros,
o que mereciam as vaidades.

É impressionante continuar a sorrir encima desses rostos
de Caçador, da esquina, da rua, do próximo, do distante, do desfigurado, dos figurantes, do beco, da calçada, do chão cuspido, do corpo varrido, das mortes prescritas -- as mortes em vida.
É impressionante -- e repugnante -- as vendas das pessoas que se vendem,
As crenças dos ignorantes que não entendem,
A passividade e cumplicidade do que finge não ver,
o rato de merda que se esconde nas desimportantes
futilidades da sociedade do aparecer
(que desaparece)

Pessoas também. ? Que pessoas!?
Eram mais bichos chutados por demonios
de concreto e cimento. Desprendidos e escondidos
ao lado da paisagem -- eram árvores chamadas Antônios --,
tão tacanhos perto de ternos e sapatos reluzidos
que suas sombras eram mais notadas que seus corpos

Magros. Caveiras sem pátria e sem razão
perante a decisão acolhida por darwinistas
em que o forte engole o sem condição,
roendo seus ossos e não deixando pistas

Da imundice humana
Da imundice humana subdesenvolvida
Da imundice de um mundo mísero de homens subdesenvolvidos

Seres de teorias e utopias
de nefelibatas sem realidade ou fatalidade

Que trazem esses rostos que caçam dor
Em um oceano de morros e mortes
Onde a penosa peleja do amor
É vencida pelos furacões estrondosos da sorte.



Descrença

balbuciávamos e embebíamo-nos de alienação
escolhida e aceita na luta anti-depressiva
da estirpe impávida -- raça de confusão --,
de torpor e desmazelo, porém viva.

meu tembetá era novo e causava ciúme
na massa -- meus amigos -- que se drogava em telas
e canudos brancos de mesas e celas,
confundindo o prazer com o estrume.

agredir era fim, não efeito
éramos rebanho esfuziante do direito
engolidores de leis, defecadores de injustiças
hipócritas calados, calvos de missas.

o alarido popular é o tédio da pseudo-burguesia
que rola como cão em Armaniosa fantasia.

Os atroadores são assassinados
(junto aos amotinadores, aos poetas e aos pensadores)
e seus corpos enfileirados,
atração mais saborosa que gladiadores.

balbuciávamos e embebíamo-nos de alienação
em prol de um talvez (quem sabe) afogar
na procela matadora da nova geração
que quer congelar o mundo, apesar do imparável girar.


Geração Coca e Cola (e bala, e doce, e loló, e bola...)

A vida escorrega por minhas mãos engorduradas
de indiferença co-assassina escolhida e colhida racional-
mente, pois também minto por palavras caladas
e sorrisos vendidos a olhos de desanimado animal.
Nossa surda hipocrisia resplandece ao amanhecer
sangrento de eternos dilúvios de secas insuperáveis.
Ouça, é o galo do novo dia, do nascer e crescer,
que precede a morte aos pés das noites inconsoláveis.
.
Noites de olhos acesos
e risos obesos.
Noites de corpos acesos
e mentes v - a - z - i - a - s

Ou seriam esvaziadas?

Pelo gratuito (e talvez quase eterno) desprazer do prazer
sem fim e sem motivo -- um viver sem morrer --
mendigado em cada faísca de uma pressuposta alegria
bebida e cheirada na rua, vomitada e cagada na pia.

Somos a consequência da inconsequência,
ou a inconsequência da consequência.

Dez mil anos se passaram para que
o ser homem descobrisse (e curtisse)
que a pira é segundos -- e dos mortos, somos primeiros.

Sobre modernidade, solidão imposta e aquietamento.


Queria começar o texto de forma impactante, mas não tinha palavras suficientemente sangrentas como essa imagem. Hoje vou tentar falar um pouco sobre a solidão imposta pelo mundo moderno, como as nossas mãos se distanciam cada vez mais das mãos de outrém, como as ilhas ilusórias que criamos a nós mesmos nos parecem algo natural.

A abstração que o modernismo trouxe para o mundo contemporâneo é assombrosa. Ao estudar isso em sala de aula pude perceber o quanto o direito é fora da realidade, um indiscutível fóssil das ambições burguesas (acalme-se leitor, não virá um manifesto comunista em seguida). Entretanto, ao analisar o mundo de hoje, sua dolorosa solidão -- não solitude, como muitos afirmam --, pude refletir sobre quão abstrata está a vida humana. Realmente acreditamos em raças, em povos desenvolvidos, em diferenças entre nós mesmo, no triunfo do capitalismo, na felicidade e na liberdade. Ah, a liberdade. Cecília Meireles estava errada ao dizer que todos entendem o significado desse signo, eu não entendo. O que é a liberdade por que tanto lutamos? A ambição de grandes empresários em podermos comprar? A permissão de usar todas as "drogas" possíveis e nos escondermos como ratos do mundo real? Poder matar, estuprar, mutilar, sem qualquer receio? Não sei.

Todo o processo foi pensado. Hoje valorizamos lixo. LIXO. Estamos todos presos a uma selva, a uma selvageria sem precedentes, em que homens não são mortos apenas fisicamente, mas sobretudo mentalmente. Eu, você, nós, somos todos seres mascarados, todos fingindo uma felicidade incomum, todos embriagados pelo supremo "ter". E estamos sozinhos.

Toda essa abstração em que vivemos acarretou na solidão. Uma solidão vantajosa para um mínimo de "pessoas" que sabem se aproveitar disso. Olhamos o outro com desdém, clasificamos uns aos outros: somos pobres, ricos, gordos, magros, feios, bonitos, pretos, brancos, amarelos, gays, heteros, esquerdistas, direitistas... E nem ao menos reconhecemos que a pessoa a nossa frente é muito mais "eu" que qualquer imagem dos meios de comunicação (ou manipulação). O mundo está dividido. O mundo é mundos.

Garanto que a menina do início deve ter-lhe causado algum sentimento -- tristeza, revolta, felicidade, não sei --, porém também posso garantir que os mendigos na praça mais próxima já lhe são como árvores. Nós não somos mais humanidade. Somos indivíduos, e digo com todo o asco possível: indivíduos. Tão individuais, tão maravilhosamente únicos! tão iludidos. Absolutamente vendidos.

O capitalismo criou um mundo de pseudo-estrelas, de pseudo-burgueses, de pseudo-oitava-maravilhas-do-mundo. Não, nós não somos isso. Nem somos brasileiros, ou chineses, ou americanos, ou europeus, ou africanos, ou russos, ou índios. Somos seres humanos e só. É triste ver como acreditamo-nos detentores do poder, como vivemos os sonhos (impossíveis) da constituição, como continuamos rindo do pobre sujo na rua e lambendo o pé dos ricos. Somos segregados, somos solitários. E temos medo de mudar. Acreditamos em nossas bocas quando parafraseamos textos das grandes mídias, adoramos (falsos) deuses e Deuses, vivemos uma vida de miséria acreditando no absurdo que uma vida feliz é TER um carro,casa,som,dvd,bar,barco. A ostentação é o ópio do povo, a separação é o triunfo do neoliberalismo.

Vivemos uma ilusão, a utopia do capitalismo (como diria minha amiga Alice), a falsa solitude. O conformismo é a nova ordem. E quem sou eu para falar tudo isso? Alguém que está indignado, alguém que, como você, se tornou desumano.

Bom, foi um desabafo. Pra finalizar vou deixar o trailer de um filme excelente e em seguida o link para assisti-lo na íntegra, eu recomendo! Muito obrigado pelos comentários, beijos e abraços!




filme completo

Musicalizado

A melodia é pura e me recria
a cada nota jorrada de uma bruma
mista de tristeza infinda e alegria
que apenas a solene solitude arruma
em rios espumantes de quedas oculares
que nada são pois minh'alma mutilada
inerme à vastidão universal desa(r)mada
núbil, gentil e sem pares.

Meu allegretto é corrosivo e úmido
por choros secos tocados
em sustenidos mortalmente arranhados
pelo doloroso penar túmido
de me saber um ser universal
que em extenso vácuo desproporcional
agoniza sem diligência ou lembrança
engolido por solidão em noite mansa.

Sem um rumo, em meio a Dós
tanto de mim por vós
quanto da música por nós,
desprendo-me e me esgoto em sinfonia
infinita de estrelas sem luar ou amar
recriado em pura (e dilacerada) melodia.

.............................................................................

Obrigado pelos comentários, enquanto estiverem lendo, recomendo que escutem (ou assistam) o vídeo abaixo, Freire é um ídolo meu. Beijos e abraços, próximo post vou tentar não escrever um poema! :)

ACEITO

se o inferno é meu castigo
por ser neste solo tão feliz
aceito a tortura do fogo amigo
ejaculado pela boca de um chafariz
de lava e pecado humanizado
de homem cego e manipulado

Palestra de Direito Penal

É a noite dos penalistas!
cheia de almas penadas
cheia de bocas caladas
É a noite dos altruístas.

Negrume congelado de vozes esquecidas
E ouvidos iludidos de Constituição
Ideologias decompostas, ensurdecidas
E cabeças iludidas de razão

(Que não existe em sentimento
Transbordado em céus intangíveis
De um eterno alagamento
Por memórias inesquecíveis)

Mas juristas vêm e vão
Reduzidos a fórmulas esquecidas,
Poder que corrompe o coração,
É a noite dos penalistas.

..............................................................

Buenas queridos leitores! Hoje além do poema, deixo uma de minhas músicas preferidas, mas com o cantor original desta vez:

Sentimento de Falta

Quisera, meu amor, ter teu zelo,
Hoje tão terrivelmente faltoso e mumificado,
E poder viver-te sem apelo
Em laços, em braços, apaixonado.

O outono falece em rosa alvorada
De vida nova fundida por paixão,
Junho esgotado de gélida madrugada,
Sangue que implode meu coração.

Quisera o tempo não ser cruel carrasco
De minha primavera ao teu lado,
Criador de um inverno asco
E solitário, de amor esvaziado.

.........................................................................

Começando a postar alguns poemas de meu caderno. Esse eu fiz hoje, tá fresco ainda. Tenho noção que não sigo a gramática todo o tempo.
Federal está melhor do que eu esperava, :), beijos e abraços.

Mankind Is No Island

Hoje o post se resume a esse vídeo.

Ganhador do Tropfest 2008, totalmente filmado em celular. Não sei se há versão legendada, mas se você não lê em inglês vale a pena procurar!

Sombra

Fogo. Era o que brilhava agora à sua frente, aceso em um pequeno fósforo, que apesar de ser centímetros era mais luz que a mão que o segurava. Seus olhos eram negros, vazios, lembravam uma tempestade de verão e agora também estavam vermelhos. Eram seis horas da manhã e ele via o sol nascer da janela de um apartamento qualquer, em uma cidade qualquer que tinha muitos prédios.

Mais um porre, mais uma dor de cabeça.

Agora com o cigarro aceso tentava adivinhar onde dormira, sem dúvidas era um apartamento masculino, sujo e fedorento com cervejas pelo chão. Um gordo com uma cueca ridícula aparece e fala algo para ele, coça o saco e vai para o banheiro.

Vê sua mochila e seu tênis sujo, veste-os e coloca os fones de ouvido. Na mesa ainda restava um pouco de pó, na cama um pouco de mulher. Enquanto alguma música depressiva do Moby invadia sua mente ele saia do prédio para uma rua de prédios.

Havia muitas pessoas na rua, muitas mesmo, mas nenhuma o notava, nenhuma notava nada além delas mesmas e de suas imagens no espelho. Seu tênis sujo pisava pesadamente na rua de pedra branca, sua roupa amassada com uma camisa grande demais e uma calça de cor não convencional. As pessoas o achavam estiloso. Ele estava cagando para as pessoas.

Elis Regina berrava em seus ouvidos e ele estava parado em frente à sua faculdade, ela estava fechada por algum motivo que ele não notara, talvez greve, ou talvez o seu país tivesse aderido a mais alguma doença da moda.

Agora estava novamente em algum bar, ele tinha 18 anos e logo estaria com seu fígado e seu pulmão tão podres que talvez, por sorte, morreria. O copo a sua frente estava sujo, o whisky era vagabundo e ele estava de mau-humor. "Foda-se", pensa, esse pensamento sempre fazia sentido na sua vida. "Foda-se".

Era meio-dia e o álcool já fazia efeito, sua vida agora parecia ter significado e amigos. Os velhotes riam de suas piadas e uma puta cheirosa acariciava suas pernas. Divertia-se imaginando onde acordaria na próxima manhã. Mais copos vazios, mas ainda tinha grana.

Acende, então, um fósforo, vê a bela chama e se questiona se existe um deus, se havia um propósito em sua vida e se algum dia seria feliz de verdade. Quis chorar, era noite. O escuro do dia casava com o escuro de seu ser, as pessoas em volta cheiravam coca, sua mente já trabalhava em flashes que ele tentaria incansavelmente lembrar no outro dia. Estava em um lugar qualquer, com pessoas e música. Agora vomitava e gostava de vomitar, era como se merecesse aquilo, a revolta de seu corpo por sua mediocridade.

Um susto, acorda com um susto. Olha em volta: vazio. Mais um apartamento sujo com garrafas ao chão. Vai à janela admirar mais prédios, acende o fósforo. O fogo aos poucos apaga, deixando apenas lágrimas e fumaça.

"Foda-se", tenta pensar.