o velho rotineiro.

OBS:
rotineiro: adj. 1. Que tem o carácter de rotina. 2. Que segue a rotina. 3. Consuetudinário. s. m. 4. Indivíduo rotineiro
rotina s. f. 1. Caminho já trilhado ou sabido. 2. Fig. Prática constante, em geral. 3. Hábito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo. 4. Índole conservadora ou oposta ao progresso. (V. rutina.)

(site priberam.com – dicionário virtual)



Um senhor atravessa sempre um caminho. Ninguém sabia sua idade. Sua face aparentava ter uns 80 anos de existência, mas naquelas terras rugas não eram medidas de idade, visto que o sol castigava as faces e as fazia parecerem muito mais velhas. Entretanto, quanto à disposição, aparentava ter apenas 20.
Esse caminho era de barro, cortava dois vilarejos. Todos os dias o velho o percorria, mas ninguém sabia se o velho vinha ou ia. Ninguém o conhecia, muitos diziam que vivera pela redondeza desde a infância, outros o chamavam de ermitão, pois nunca foi visto entre as pessoas do vilarejo.
O velho seguia sempre o mesmo caminho, calado, sereno, de chapéu e bengala.
Certo dia uma criança – porque são sempre as crianças que tomam as iniciativas – decidiu ir falar com o senhor, desconsiderando todas as estórias e lendas assustadoras que lhe eram contadas sobre aquele homem.
“Por que o senhor sempre faz esse caminho?”
“Porque dele me agrado.”
“Para onde o senhor vai?”
“Para qualquer lugar.”
“E de onde vem?”
“De qualquer parte.”
“Nunca pensou em buscar um atalho, em tentar algo diferente, em comprar um cavalo e ir cavalgando pela mata? É muito bonito lá.”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque esse mesmo caminho sempre me apresenta surpresas. Há anos que o faço e sempre o
encontro de outra forma, ou o percebo de forma diferente. As pessoas mudam e sua visão de mundo também se transforma.”
“Pois para mim esse caminho é sempre igual. Longo e barrento.”
“Se enganas criança. Pela manhã ele é de uma brisa suave e de um céu claro, com um sol ainda preguiçoso a despertar. Pássaros a cantar dos galhos das árvores. Gosto sempre de sentar-me em
uma das pedras do caminho para ouvir suas cantorias. À tarde sob um sol vibrante, sua terra torna-se vermelha e quente. O céu de um intenso azul. Nessas horas sento-me à sombra das árvores. Quando é época de frutas saboreio os mais diversos frutos que caem maduros à margem do caminho. A tarde chega com as cigarras a cantar e anunciam um luar sem igual, num céu estrelado que só na calmaria do campo pode-se admirar. Esse caminho nunca é igual, ao longo de minha vida a rotina de atravessá-lo tem me ensinado belas coisas, e às vezes também terríveis.”
Nesse momento a criança senta-se maravilhada ao lado do senhor sob a copa de uma árvore.
“Já vi caçadas, animais mortos, filhotes sem mães. Já defendi muitos dos caçadores, afugentando os animais pela mata adentro.”
“E nunca se feriu? Nunca teve medo?”
“Sempre fiz o que julgo certo, independente das conseqüências...” – e então o olhou para a casca da árvore sob a qual estava sentado como se recordasse de algo – “Em outros momentos, apaixonado por alguma bela moça, entoei canções sob as àrvores floridas. Fiz buquets das mais variadas cores e aromas. Também já vi raios atingirem o caminho, derrubarem árvores e impedir a passagem das pessoas e animais. Já salvei vidas. E já satisfiz a curiosidade de muitas crianças curiosas.”
“Nossa. Eu achava que o senhor era somente um louco que vivia vagando por esse caminho. Andando sem saber de nada.”
O velho sorriu e respondeu:
“Louco, minha criança, é aquele que vive sem ver o seu redor, que se deixa na mesmice, que não procura aprender nada com o que viveu. A rotina do meu caminho me transformou a vida e com isso muito aprendi, mas ninguém nunca aprendeu o bastante, por isso serei sempre um eterno rotineiro.”
E dizendo isso, o velho levantou-se e seguiu seu caminho.