Nefelibata

Eis-me aqui, sonâmbulo acordado
De uma janela de plumas ressecadas.
Ao sol arrepio-me, escamado
Sem penas, sem asas. Nefelibata.
Pombo famígero, faminto, sujo,
Que a migalhas de mãos peladas
Recorre e engole. Repúdio.
Eis-me aqui, pombo difamado.
Chutado, imundo, odiado, invejado!
Por voar e deturpar o céu casto,
Virgem antes de meu sáfio rastro.
Nefelibata. Sem ventos, vôo em azul,
Sem vida, caio em blue.
Pingado em sonhos, pingado ao mar.
Pranto de pomba escorrido pela praça.
Eis-me aqui!
Salvo-me da presúria dos homens,
Esses pombos depenados sem raça,
Esses ratos voadores.
"Somos pombos, somos imundos, somos bando."
Sou um pombo sem asas que vê a massa deslocar.
Sou pombo sem asas, que mesmo parado
Está muito mais alto a voar. Nefelibata.

Mancha do mundo

filtra-me de novo descrença,
mostra-me um mundo comprado
venda-me a este desgosto amargo
de ser filho do capital rasgado;
vista-me de novo sangue do homem
que cai à terra,
que vai à guerra,
que luta e morre por comida;
possua-me fetiche do sofrimento,
causa do fútil gozo do lamento
do ser homem jogado ao chão,
do ser homem entupido de merda;
[nós] ser sem coração
numa(s) bolha(s) de solidão.
cerca-me individualismo, lembra-me que o mundo não é do todo, mas da mão poderosa com mais anéis de diamantes. corrompa-me neoliberalismo, compra a minha alma, como compraste por tantas vezes os corpos de crianças. molda-me e manipula-me grande vendedor, cria, pois, mais um manequim de sua loja, chamada Terr(or)a.
destrua-me logo, pois se não o fizer
declaro guerra! e pulverizo-o logo
com o grito abafado de nossas palavras
e o amor sincero, nossas espadas.