domingo, 31 de maio de 2009

Nefelibata

Eis-me aqui, sonâmbulo acordado
De uma janela de plumas ressecadas.
Ao sol arrepio-me, escamado
Sem penas, sem asas. Nefelibata.
Pombo famígero, faminto, sujo,
Que a migalhas de mãos peladas
Recorre e engole. Repúdio.
Eis-me aqui, pombo difamado.
Chutado, imundo, odiado, invejado!
Por voar e deturpar o céu casto,
Virgem antes de meu sáfio rastro.
Nefelibata. Sem ventos, vôo em azul,
Sem vida, caio em blue.
Pingado em sonhos, pingado ao mar.
Pranto de pomba escorrido pela praça.
Eis-me aqui!
Salvo-me da presúria dos homens,
Esses pombos depenados sem raça,
Esses ratos voadores.
"Somos pombos, somos imundos, somos bando."
Sou um pombo sem asas que vê a massa deslocar.
Sou pombo sem asas, que mesmo parado
Está muito mais alto a voar. Nefelibata.

5 cabeças pensantes:

Victor disse...

Sensacional, huguinho. Seu estilo às vezes me lembra o do Guimarães Rosa. Muito bom

Luisa disse...

bravo!

Pripa Pontes disse...

E estamos mais aptos a voar, porque tentamos nos desvincular da imagem do rato de asas, em que muitos humanos acabaram por se tornar!

Belíssimo poema, Hugo. Devo comentar que você está se aprimorando cada vez mais na arte dos versos!

Admito que não fazia adia do que significava o termo "Nefelibata" mas após descobrir seu sentido, somente discordo que uma determinado significado do termo não bate com sua personalidade: você não é uma pessoa meramente idealista que busca fugir da realidade...você sempre busca percebê-la e mudá-la!por isso não é um rato de asas ^^


Xêro Hugo!
E como sempre é um imenso prazer ler seus textos.

Hugo Simões disse...

não sou eu, é o "eu-poético"! heheheheheh..

Pripa Pontes disse...

ah agora entendí! hasuahushaushas, adoro essa de usar o "eu lírico" ou o "eu poético", e nos permitir sermos totalmente diferentes do que somos ^^