Musicalizado

A melodia é pura e me recria
a cada nota jorrada de uma bruma
mista de tristeza infinda e alegria
que apenas a solene solitude arruma
em rios espumantes de quedas oculares
que nada são pois minh'alma mutilada
inerme à vastidão universal desa(r)mada
núbil, gentil e sem pares.

Meu allegretto é corrosivo e úmido
por choros secos tocados
em sustenidos mortalmente arranhados
pelo doloroso penar túmido
de me saber um ser universal
que em extenso vácuo desproporcional
agoniza sem diligência ou lembrança
engolido por solidão em noite mansa.

Sem um rumo, em meio a Dós
tanto de mim por vós
quanto da música por nós,
desprendo-me e me esgoto em sinfonia
infinita de estrelas sem luar ou amar
recriado em pura (e dilacerada) melodia.

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Obrigado pelos comentários, enquanto estiverem lendo, recomendo que escutem (ou assistam) o vídeo abaixo, Freire é um ídolo meu. Beijos e abraços, próximo post vou tentar não escrever um poema! :)

ACEITO

se o inferno é meu castigo
por ser neste solo tão feliz
aceito a tortura do fogo amigo
ejaculado pela boca de um chafariz
de lava e pecado humanizado
de homem cego e manipulado

Palestra de Direito Penal

É a noite dos penalistas!
cheia de almas penadas
cheia de bocas caladas
É a noite dos altruístas.

Negrume congelado de vozes esquecidas
E ouvidos iludidos de Constituição
Ideologias decompostas, ensurdecidas
E cabeças iludidas de razão

(Que não existe em sentimento
Transbordado em céus intangíveis
De um eterno alagamento
Por memórias inesquecíveis)

Mas juristas vêm e vão
Reduzidos a fórmulas esquecidas,
Poder que corrompe o coração,
É a noite dos penalistas.

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Buenas queridos leitores! Hoje além do poema, deixo uma de minhas músicas preferidas, mas com o cantor original desta vez:

Sentimento de Falta

Quisera, meu amor, ter teu zelo,
Hoje tão terrivelmente faltoso e mumificado,
E poder viver-te sem apelo
Em laços, em braços, apaixonado.

O outono falece em rosa alvorada
De vida nova fundida por paixão,
Junho esgotado de gélida madrugada,
Sangue que implode meu coração.

Quisera o tempo não ser cruel carrasco
De minha primavera ao teu lado,
Criador de um inverno asco
E solitário, de amor esvaziado.

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Começando a postar alguns poemas de meu caderno. Esse eu fiz hoje, tá fresco ainda. Tenho noção que não sigo a gramática todo o tempo.
Federal está melhor do que eu esperava, :), beijos e abraços.

Mankind Is No Island

Hoje o post se resume a esse vídeo.

Ganhador do Tropfest 2008, totalmente filmado em celular. Não sei se há versão legendada, mas se você não lê em inglês vale a pena procurar!

Sombra

Fogo. Era o que brilhava agora à sua frente, aceso em um pequeno fósforo, que apesar de ser centímetros era mais luz que a mão que o segurava. Seus olhos eram negros, vazios, lembravam uma tempestade de verão e agora também estavam vermelhos. Eram seis horas da manhã e ele via o sol nascer da janela de um apartamento qualquer, em uma cidade qualquer que tinha muitos prédios.

Mais um porre, mais uma dor de cabeça.

Agora com o cigarro aceso tentava adivinhar onde dormira, sem dúvidas era um apartamento masculino, sujo e fedorento com cervejas pelo chão. Um gordo com uma cueca ridícula aparece e fala algo para ele, coça o saco e vai para o banheiro.

Vê sua mochila e seu tênis sujo, veste-os e coloca os fones de ouvido. Na mesa ainda restava um pouco de pó, na cama um pouco de mulher. Enquanto alguma música depressiva do Moby invadia sua mente ele saia do prédio para uma rua de prédios.

Havia muitas pessoas na rua, muitas mesmo, mas nenhuma o notava, nenhuma notava nada além delas mesmas e de suas imagens no espelho. Seu tênis sujo pisava pesadamente na rua de pedra branca, sua roupa amassada com uma camisa grande demais e uma calça de cor não convencional. As pessoas o achavam estiloso. Ele estava cagando para as pessoas.

Elis Regina berrava em seus ouvidos e ele estava parado em frente à sua faculdade, ela estava fechada por algum motivo que ele não notara, talvez greve, ou talvez o seu país tivesse aderido a mais alguma doença da moda.

Agora estava novamente em algum bar, ele tinha 18 anos e logo estaria com seu fígado e seu pulmão tão podres que talvez, por sorte, morreria. O copo a sua frente estava sujo, o whisky era vagabundo e ele estava de mau-humor. "Foda-se", pensa, esse pensamento sempre fazia sentido na sua vida. "Foda-se".

Era meio-dia e o álcool já fazia efeito, sua vida agora parecia ter significado e amigos. Os velhotes riam de suas piadas e uma puta cheirosa acariciava suas pernas. Divertia-se imaginando onde acordaria na próxima manhã. Mais copos vazios, mas ainda tinha grana.

Acende, então, um fósforo, vê a bela chama e se questiona se existe um deus, se havia um propósito em sua vida e se algum dia seria feliz de verdade. Quis chorar, era noite. O escuro do dia casava com o escuro de seu ser, as pessoas em volta cheiravam coca, sua mente já trabalhava em flashes que ele tentaria incansavelmente lembrar no outro dia. Estava em um lugar qualquer, com pessoas e música. Agora vomitava e gostava de vomitar, era como se merecesse aquilo, a revolta de seu corpo por sua mediocridade.

Um susto, acorda com um susto. Olha em volta: vazio. Mais um apartamento sujo com garrafas ao chão. Vai à janela admirar mais prédios, acende o fósforo. O fogo aos poucos apaga, deixando apenas lágrimas e fumaça.

"Foda-se", tenta pensar.

PELO MAR ELE IA



Segue corrente,
Sem se preocupar onde irá desembocar
O mar parece mais receptível
Maresia.

Foram-se as tempestades,
Casco refeito,
A calmaria não parece uma realidade tão entediante
Calmaria...

Ás vezes tempo é necessário para pensar, refletir...
A si mesmo encontrar!
Antes de aventurar-se a buscar tesouros perdidos
Ilhas desconhecidas, terras distantes
Antes de encontrar o valioso em outro
Deve-se reconhecer o que é precioso dentro de si
Maresia.



Velas içadas,
Navio em prumo,
Jornada se inicia
Mais uma
Mas jamais uma busca é igual à outra
As perdas são sempre diferentes
Em toda busca a perda faz parte do ganho
Perde-se paciência, esperança, fé
Horas sem conseguir dormir,
Juízo que começa a fugir
Entretanto no final
Não importa o quão distante no horizonte possa parecer essa realidade
Ela é alcançada, e então tudo é
Calmaria...




Tempo de checar os avaros sofridos
Rever estoque, levantar ânimos
Respirar, aproveitar
A brisa matutina descontraída
Antes que furacão furioso noturno
Porém a busca de momento somente interrompida
É contínua
Posto que é sempre mapa
Bússola e leme
Dessa existência que nada conhece a não ser
Tesouros camuflados no além mar
E o aroma instigante da Maresia...