Solo Norteado


O Norte se cansava e caía ao chão
Empoeirado e suado de risos amantes
Cantados em lépido tálamo de adoração
De corpos que se fundiam em pernas vibrantes.
O lençol vário se retorcia e gemia invejoso
Pela carne que se amava embebida de nudez
A pêlos e com
apelo mui fogoso
Que encinerava e curava qualquer embriaguez
(ou talvez a piorasse com a discreta armadilha
da paixão retorcida que exalava a virilha).
As gotas formavam rios pela tez amaciada
Que se uniam e jorravam odores inculpados,
Mas tão queridos e sabiamente pecados
Que até Deus perdoava os gritos da amada.
Ah, como era doce a vida em um pólo,
Onde nos ouvidos se sussurava amour
E sem medo o Norte tocava o solo
E o solo dos amantes se transformava em duo.


Hoje visitei pela primeira vez a comunidade Caçador, meio perto de Curitiba, pelo projeto de extensão SAJUP. Mais uma vez a realidade na minha frente: a ignorância, as insuficiências do Estado, a pobreza, a alienação inculpada. Mais uma vez a tristeza. Foi um dia bom com amigos, mas voltando pra casa, ao ver as pessoas, ao ver não só com meus olhos o que são essas pessoas -- principalmente da cidade grande --, foi-se desenvolvendo um asco, um nojo profundo por tudo a minha volta. Todas aquelas pessoas que preferem a sombra fresca e alienada da permissividade e passividade. Esse mundo é muito podre. Assim escrevi um poema, que é muito mais um grito do que um poema. Ele não é bonito, mas é sincero e escrito por meu coração:

CAÇA-DOR

Rostos marcados pela mais triste verdade:
Viver no além-prédios esgota a felicidade.

Rostos de linhas duras e olhos apagados,
Toda um existência sugada pelo buraco negro chamado humanidade
Cheio de cobiça e aceitação de gados (ou homens) despedaçados.
ou monstrualizados?

Eram tantas vozes caladas em um oceano de morros
onde morro e morre qualquer esperança de verdades
ditas por bocas que só falam. Esporros,
o que mereciam as vaidades.

É impressionante continuar a sorrir encima desses rostos
de Caçador, da esquina, da rua, do próximo, do distante, do desfigurado, dos figurantes, do beco, da calçada, do chão cuspido, do corpo varrido, das mortes prescritas -- as mortes em vida.
É impressionante -- e repugnante -- as vendas das pessoas que se vendem,
As crenças dos ignorantes que não entendem,
A passividade e cumplicidade do que finge não ver,
o rato de merda que se esconde nas desimportantes
futilidades da sociedade do aparecer
(que desaparece)

Pessoas também. ? Que pessoas!?
Eram mais bichos chutados por demonios
de concreto e cimento. Desprendidos e escondidos
ao lado da paisagem -- eram árvores chamadas Antônios --,
tão tacanhos perto de ternos e sapatos reluzidos
que suas sombras eram mais notadas que seus corpos

Magros. Caveiras sem pátria e sem razão
perante a decisão acolhida por darwinistas
em que o forte engole o sem condição,
roendo seus ossos e não deixando pistas

Da imundice humana
Da imundice humana subdesenvolvida
Da imundice de um mundo mísero de homens subdesenvolvidos

Seres de teorias e utopias
de nefelibatas sem realidade ou fatalidade

Que trazem esses rostos que caçam dor
Em um oceano de morros e mortes
Onde a penosa peleja do amor
É vencida pelos furacões estrondosos da sorte.



Descrença

balbuciávamos e embebíamo-nos de alienação
escolhida e aceita na luta anti-depressiva
da estirpe impávida -- raça de confusão --,
de torpor e desmazelo, porém viva.

meu tembetá era novo e causava ciúme
na massa -- meus amigos -- que se drogava em telas
e canudos brancos de mesas e celas,
confundindo o prazer com o estrume.

agredir era fim, não efeito
éramos rebanho esfuziante do direito
engolidores de leis, defecadores de injustiças
hipócritas calados, calvos de missas.

o alarido popular é o tédio da pseudo-burguesia
que rola como cão em Armaniosa fantasia.

Os atroadores são assassinados
(junto aos amotinadores, aos poetas e aos pensadores)
e seus corpos enfileirados,
atração mais saborosa que gladiadores.

balbuciávamos e embebíamo-nos de alienação
em prol de um talvez (quem sabe) afogar
na procela matadora da nova geração
que quer congelar o mundo, apesar do imparável girar.


Geração Coca e Cola (e bala, e doce, e loló, e bola...)

A vida escorrega por minhas mãos engorduradas
de indiferença co-assassina escolhida e colhida racional-
mente, pois também minto por palavras caladas
e sorrisos vendidos a olhos de desanimado animal.
Nossa surda hipocrisia resplandece ao amanhecer
sangrento de eternos dilúvios de secas insuperáveis.
Ouça, é o galo do novo dia, do nascer e crescer,
que precede a morte aos pés das noites inconsoláveis.
.
Noites de olhos acesos
e risos obesos.
Noites de corpos acesos
e mentes v - a - z - i - a - s

Ou seriam esvaziadas?

Pelo gratuito (e talvez quase eterno) desprazer do prazer
sem fim e sem motivo -- um viver sem morrer --
mendigado em cada faísca de uma pressuposta alegria
bebida e cheirada na rua, vomitada e cagada na pia.

Somos a consequência da inconsequência,
ou a inconsequência da consequência.

Dez mil anos se passaram para que
o ser homem descobrisse (e curtisse)
que a pira é segundos -- e dos mortos, somos primeiros.

Sobre modernidade, solidão imposta e aquietamento.


Queria começar o texto de forma impactante, mas não tinha palavras suficientemente sangrentas como essa imagem. Hoje vou tentar falar um pouco sobre a solidão imposta pelo mundo moderno, como as nossas mãos se distanciam cada vez mais das mãos de outrém, como as ilhas ilusórias que criamos a nós mesmos nos parecem algo natural.

A abstração que o modernismo trouxe para o mundo contemporâneo é assombrosa. Ao estudar isso em sala de aula pude perceber o quanto o direito é fora da realidade, um indiscutível fóssil das ambições burguesas (acalme-se leitor, não virá um manifesto comunista em seguida). Entretanto, ao analisar o mundo de hoje, sua dolorosa solidão -- não solitude, como muitos afirmam --, pude refletir sobre quão abstrata está a vida humana. Realmente acreditamos em raças, em povos desenvolvidos, em diferenças entre nós mesmo, no triunfo do capitalismo, na felicidade e na liberdade. Ah, a liberdade. Cecília Meireles estava errada ao dizer que todos entendem o significado desse signo, eu não entendo. O que é a liberdade por que tanto lutamos? A ambição de grandes empresários em podermos comprar? A permissão de usar todas as "drogas" possíveis e nos escondermos como ratos do mundo real? Poder matar, estuprar, mutilar, sem qualquer receio? Não sei.

Todo o processo foi pensado. Hoje valorizamos lixo. LIXO. Estamos todos presos a uma selva, a uma selvageria sem precedentes, em que homens não são mortos apenas fisicamente, mas sobretudo mentalmente. Eu, você, nós, somos todos seres mascarados, todos fingindo uma felicidade incomum, todos embriagados pelo supremo "ter". E estamos sozinhos.

Toda essa abstração em que vivemos acarretou na solidão. Uma solidão vantajosa para um mínimo de "pessoas" que sabem se aproveitar disso. Olhamos o outro com desdém, clasificamos uns aos outros: somos pobres, ricos, gordos, magros, feios, bonitos, pretos, brancos, amarelos, gays, heteros, esquerdistas, direitistas... E nem ao menos reconhecemos que a pessoa a nossa frente é muito mais "eu" que qualquer imagem dos meios de comunicação (ou manipulação). O mundo está dividido. O mundo é mundos.

Garanto que a menina do início deve ter-lhe causado algum sentimento -- tristeza, revolta, felicidade, não sei --, porém também posso garantir que os mendigos na praça mais próxima já lhe são como árvores. Nós não somos mais humanidade. Somos indivíduos, e digo com todo o asco possível: indivíduos. Tão individuais, tão maravilhosamente únicos! tão iludidos. Absolutamente vendidos.

O capitalismo criou um mundo de pseudo-estrelas, de pseudo-burgueses, de pseudo-oitava-maravilhas-do-mundo. Não, nós não somos isso. Nem somos brasileiros, ou chineses, ou americanos, ou europeus, ou africanos, ou russos, ou índios. Somos seres humanos e só. É triste ver como acreditamo-nos detentores do poder, como vivemos os sonhos (impossíveis) da constituição, como continuamos rindo do pobre sujo na rua e lambendo o pé dos ricos. Somos segregados, somos solitários. E temos medo de mudar. Acreditamos em nossas bocas quando parafraseamos textos das grandes mídias, adoramos (falsos) deuses e Deuses, vivemos uma vida de miséria acreditando no absurdo que uma vida feliz é TER um carro,casa,som,dvd,bar,barco. A ostentação é o ópio do povo, a separação é o triunfo do neoliberalismo.

Vivemos uma ilusão, a utopia do capitalismo (como diria minha amiga Alice), a falsa solitude. O conformismo é a nova ordem. E quem sou eu para falar tudo isso? Alguém que está indignado, alguém que, como você, se tornou desumano.

Bom, foi um desabafo. Pra finalizar vou deixar o trailer de um filme excelente e em seguida o link para assisti-lo na íntegra, eu recomendo! Muito obrigado pelos comentários, beijos e abraços!




filme completo