Meu cigarro tá apagado em cima da mesa

Chama
que eu vou pro samba te ver derreter.
Ah, minha dama
te escravizo na cama até o amanhecer.

Chama
que eu não apago com água.
Apago minha mágoa
em tua saliva.

Livra
meu corpo de mim,
me perca em seus pêlos
há pêlos!, apelos

Nem sei quem tu és
-- que tu és --,
só sei que esse beijo suado
e o álcool secado
vão me deixando facinho
facinho...

Chama
Cama
Chama



AMANHÃS

Os amanhãs são palavras tão bonitas
que enchem meus dias de esperança,
mas na dança cruel da realidade
são apenas hojes
inacabáveis.
Torturante e congeladamente sempres,
são futuros com saudade.

Rei deposto


Oh meu reizinho!
Oh minha rainhazinha!

Pisam de pés descalços ao chão
sorrindo. Sorriem infantilmente
na terra batida, na cara batida, na fome sem pão!
meu reizinho...

brinca na rua, mora na rua, chora na rua

arrancado de casa, vendido ao mundo
-- ao terceiro mundo --
pela cobiça cega e surda
(que até hoje não muda)
empodrecedora de corações.

Ah meu reizinho, julgam-te por sua bela tez
-- inveja da ignorante palidez --
e por tua garra e alegria,
coisa que nenhum gelo propicia.

Oh meu rei, minha rainha.
brincam na rua, vivem na rua, morrem na rua,
fomos todos vendidos
somos todos vendidos
milhares de cores escravas
da monarquia!
da economia!
da hipocrisia!
meu reizinho de pés descalços
de coração que batuca ao chão
e treme o chão
e a mão da apatia.

meu pequeno reizinho de viva alegria.

Uma pausa para o suicídio.


Monótono.

Luz do cubículo branco artificialmente clara como a neve. Porém ele nunca havia visto a neve, o que nos traz a conclusão de que sua comparação fora mera paráfrase barata d'um outrem qualquer. Era fria a luz e a vida do trabalhador do cubículo 314, uma rotina movida a engrenagens imparáveis e sistemáticas. Tinha uma vida longe de qualquer extremo, permanecia no centro, centrado. Imóvel seria a palavra certa se não fosse o universo uma eterna expansão, pedra seria a descrição perfeita se não fosse o sangue bombado pelo coração. Rimei, mas ali não havia rimas.

Café. Obra do passado que permanecia no nosso futuro a apagar sonhos, a apagar.

Aquele fogo não havia desaparecido na primeira entrada do cubículo, na verdade nunca queimou, como vários outros. A escola, a faculdade, a vida: foram apenas passos e etapas vencidas, apenas fases que ficaram escritas em fotos de sorrisos forjados e lembranças desmerecidas. Seguiu religiosamente todos os passos ditados pelo senso comum, adorou o status quo e as opiniões oficiais: era um bom cidadão.

Carro bom, gostava de pensar que as outras pessoas sentiam inveja de seu bem. Chegava em casa pontualmente após as piadas no mesmo bar e a dose de whisy no mesmo banquinho que já possuía as formas tristes de suas nádegas. Um beijo gelado de sua mulher robotizada, um abraço com olhos de vidro de seu filho computadorizado, era a vida que pedira a deus. Ah sim, desculpe-me: que pedira a Deus. Não é necessário dizer que chorava pelos males que surgiam na TV, vindo de países longínquos de alguns quilômetros de sua casa, nem que orava antes de dormir e passeava nas melhores vestimentas na missa aos domingos. Gostava de pensar que as pessoas sentiam inveja de seus bens.

O cubículo tornou-se maior pelos anos que passavam, 314 progredia em retrocesso ao 123, seu objetivo. A trilha ortodoxa foi, então, incomodada. Um poema gritava mais alto que os diabos do inferno em sua tela de computador. Era de um colega que não chegara ao quarto ano. Um falido que nunca quisera riqueza, um falido que não se importava com correntes hipócritas, um falido que não criara raízes em cidade alguma, um falido que implodira cubos e cubículos, um falido que se fez amorfo no mundo e vinculou-se às mais nobres causas, um falido que sorria em várias imagens que não passara do imaginário de 314, um falido que vencera as regras. Era um colega que ria das normas e rasgava gravatas com o olhar, despia-se de qualquer imundice da fútil vida conformista e que rasgava pulsos em cubículos congelados.

Pausa para o café. 499 cubículos reabasteciam suas faltas de sonhos com alienação e olhos vidrados. 499 cubículos andavam em fila pro matadouro de almas. 499 corpos não sentiam a falta de um. Um nada. Que permanecia sentado, com as nádegas quadradas e cataratas vermelhas jorrando dos pulsos, enquanto as lágrimas aqueciam a chama que acendia pela primeira vez. Ascendeu à humanidade.


Amálio abraça o relativo


Em questão de segundo, o mundo e as cores que iluminavam os milímetros de seu quarto avermelhado pareceram desbotar e sangrar de miudinho, como geleira que escorre para acabar. Amálio se via sem crença, sem ideologia, sem ideias, sem qualquer concreto para suas mão suadas agarrarem.

Beijou loucamente a pós-modernidade.

Aflito degustava cada mordida da liberdade, surgiam lágrimas no quarto desbotado, que de vermelho quedava à benevolência da neutralidade branca. Sentia a rotação da Terra e a aflição de respirar o ar carregado dos milênios de estagnação. O sol já não lhe dizia nada -- nem dia, nem noite, nem nada -- tudo se relativizava ao seu olhar incrédulo, mas crédulo em tudo e no porvir dos dias melhores que não construiria e agarraria mesmo assim com garra de leoa faminta.

Amálio andava sorrindo para a ingenuidade dos adultos e a sabedoria das crianças, brincava de roda no meio da avenida e levava businada. Queimou seus livros, sua casa, sua mãe, seu pai, sua irmã. Queimou a biblioteca central em seus sonhos -- dádivas inquestionáveis -- e não mais a via, como não via o que não queria.

Relativizou-se o todo.

Tudo ficou pequeno e pouco, uma mente suficientemente centimetral construía petas tão reais e misteriosas que os olhos umedeciam. Inefável. Ao redor de Amálio as borboletas mediam como elefantes e contornavam os prédios como anjos. Rugas no rosto. Os pés cansavam e também não acreditavam no cansaço, pisavam mais e mais, até os ossos apodrecerem e quebrarem, porém os pés continuavam pisando. E pisados também eram todos os escolhidos para o martírio de viver no mundo que Amálio havia deixado no quarto vermelho, pisados e grelhados, comidos vagarosamente pelo tic-tac infinito e pelos olhares míseros dos viventes.

Retesou seu corpo, imaginou-se borracha assim mesmo e vivia a se contorcer em circos de beira de estrada. Dormia em almofadas encardidas com cabeças de palhaços, via ali um espelho e pasmava ao perceber que sua construção também poderia ser atacada por kamikazes assassinos. Rugas nas mãos. Continuava a caminhada da inutilidade, crendo na descrença, o que por si só, apesar da irracionalidade do ato, gastava todo seu poder cognitivo e fazia dela religião fundamental para poder haver qualquer racionalidade no inimaginável imaginar. Não havia negações em Amálio, nem para Amálio, tudo fazia sentido ao perder o sentido, tudo fazia sentido ao esmigalhar-se nos ventos matutinos.

O desmazelo fazia da totalidade uma piada, uma pilhéria.

Caiu no tédio, no desespero de procurar o improcurável achou uma parede vermelha. Amálio já não sabia o que era vermelho, não sabia o que era cor, o que era isso ou aquilo, ou aquilo ou isso. Caiu na parede, e foi despencando aos poucos, as rugas foram explodindo em sua derme, marcas duma vida que foi sonhada na realidade e acabava nela. Foi escorregando na parede vermelha que agora não mais desbotava, mas brotava rosas adubadas com sangue. Apodrecia ali mesmo, engolido pela parede vermelha, a comedora de ossos de pés apodrecidos, a engolidora da ignorância e da falsa crença na incredulidade. Jaziam Amálios, caindo a-gravitacionalmente e sem relatividade, apenas resultados de suas falsidades, loucos que acreditavam na liberdade, estando na mais desgostosa prisão.

Prisão branca e sem rosto da falsa ingenuidade.