Escutem,

é o alarido mudo das palavras!
coração.
aberto, inflamado, escuro, solitário.
oração
infiel, pecadora, alva, esparramada.

é o grito que ninguém ouve
a palavra escrita

é o tiro que não respira
a dor inscrita

é a mão que se recolhe
a lágrima aflita

poesia

algazarra sombria

poesia

morte em vida.

Banksy

Pra quem quiser conhecer mais: http://www.banksy.co.uk/
Fechar os olhos. Respirar. Abre os olhos agora, vês tudo?

.....Acredito que o mundo inteiro poderia estar pisando nas areais de fim de ano, entretanto eram poucos os que se entretinham com o solo. O céu sugava olhares diversos, milhares de bolinhas cheias e vazias que rutilavam na madrugada. Como a exceção nunca deixa de aparecer para bagunçar deliberadamente todos os rumos e certezas do universo, alguns olhos não se deixaram seduzir pelos sons chamejantes do novíssimo ano. Alguns olhares rodavam sorrindo de sua embriaguez, outros umedeciam-se e se emudeciam, porém o mais interessante de todos permanecia focado no mar, contando ondas, catando sal.

Tudo que vai
volta
e revolta,

dizia-lhe Poseidon num dialeto indecifrável por humanos. "Estais correto grande mar", pensou. A volta da revolta de sua insignificância lhe fez espumar como um cão raivoso, os humanos já não eram mais suficientes para sua sede de vida. Despiu-se. Quase ninguém viu e quem viu no máximo riu, a maioria sem entender, apenas com a vontade de rimar com o "viu" primário.
.....Amou o mar.
.....Inicialmente desajeitado, empurrado pelas ondas, emburrado pelas luzes excessivas, aos poucos ganhando território na antiga prostituta, uma mãe prostituta, aberta a tudo e a todos. .....Amou-o, amou-a, amou-se. Aos poucos foi virando peixe e respirando sal. Afundava e já não ouvia mais os macacos rosados sem galhos e sem bananas.
.....O mar tinha aceito todo o lixo que vinha, estava na hora da volta e da revolta.
.....O peixe-homem sentou numa poltrona de algas para o maior espetáculo dos últimos milênios. Agora seus olhos também brilhavam. Sem piscar. Via a água que crescia como um muro, um buraco negro espumante, a fúria em expansão. Os gritos, porém, chegaram muito atrasados, não houve qualquer emoção como nos cinemas e a pipoca do peixe e do homem nem saiu do microondas. Estava na hora de voltar, basta de revolta.
.....As ondas, espumantes como champanhe, continuavam verbosas, mas agora o peixe já era novamente homem e podia ignorá-las. Estava morta a estirpe de infelizes. Alguns ainda estavam por morrer, a estes assistíamos aos risos; outros pelejavam contra a morte, estes maquiávamos de chumbo, ou de pedra, ou de aço, ou de qualquer coisa que combinasse com vermelho.
.....-- Feliz ano novo! -- gritou a água que caía do céu (totalmente fora de ritmo com o blues do mar azulado, diga-se de passagem...).
.....-- Feliz ano novo! -- respondi com um sorriso e um aceno enquanto tirava as escamas de um Papai Noel que seria frito logo mais. Enquanto isso Peixe se afogava com o ar ao meu lado.
.....Os olhos continuavam ali, agora não eram mais bobos ou robôs, todos estavam encharcados de adrenalina e medo e passavam paz ao homem. O mundo estava tranquilo e o câncer havia regredido muito, apesar de ser incurável, a não ser com o suicídio. Mas um dia o mundo cansa e aí o homem vai-se todo também. Este pensamento foi um orgasmo para o peixe-homem-peixe que fritava gente na areia enquanto o céu continuava a chorar. De forma pirraça não contou numericamente o ano e fez o tempo se encher de cólera e querer vingança. Então tudo foi ficando lento e estagnando, quando percebemos estávamos loucos e letrando-nos, palavrando-nos, fraseando-nos, texteando-nos, e logo eramos apenas o imaginário de olhos que liam uma tela qualquer de um lugar qualquer em meio a uma rede mundial que não dava peixe.

Fechar os olhos. Todos. Sempre. Vês tudo, agora abre os olhos.

Cerro os olhos e nada vejo,
Em nada estou além dos batimentos
Do meu coração sobejo.

A ternura de meus pensamentos
Dança com meus frívolos gestos
Impassíveis e impossíveis
de demonstrar o amor.

Dor

Ferida incerta e desperta
De um monstro engolidor de lágrimas,
Ferida aberta e esperta
Que preenche de sentimentos páginas.

O amanhecer é melancólico entre as nuvens
Onde tudo se renova, menos o eu que observa
E se mistura ao orvalho e aos galos jovens
Petrificado pelo vácuo do existir.

Cerro os olhos para me enxergar
Fora dos espelhos comprados
E dos preconceitos impregnados,
Livre dos olhos e dos olhares

Abraço a escuridão solidária.
Sou ao mundo e o mundo
Gelo que ninguém agasalha,
Amor que nasce infecundo.

Esmigalhado pelo todo
Navego nas letras e nas canções
Embriagado de paixões
E ressaqueado de tudo.



Estar vivo


Má sorte tem a vida em me desafiar.
Escapo a largos passos, pulando no teto
Dos céus das estrelas e das luzes a amar
E sem medo me perco do tempo abjeto
Colorindo as estradas,
Ignorando as espadas,
Esmagando os espinhos,
Embriagando os caminhos.

Impávido destruo os espelhos
Cago para as aparências
que desaparecem (nos que crescem)
E sujo de alegrias as mentes sem tendências
.........................................................................que não mentem
......................................................................................apenas sentem.

Má sorte tem essa vida alinhada em me desafiar,
Se já cortei a linha da hipocrisia
Fica muito mais fácil ziguezaguear
E ainda dirão que era louco quem ria
Pois vos digo: louco é quem chora!


Fogos de artificialidade



É impossível não relar os olhos num céu iluminado por fogos de artifício, ainda mais quando se é criança, ainda mais quando se é miserável. Abá sabia muito bem o significado de ver o céu em chamas. Era negro como o carvão, os olhos amarelos com forte tom de vermelho por todas as drogas que um corpo de 13 anos pudesse comportar aliadas a todas as lágrimas da vida que não se podia suportar. A favela o engolira quando bebê e as correntes do preconceito não lhe cediam a alforria, mesmo assim observava o Rio como um deus, apontando sua arma às cabeças imaginárias que procurava nas ruas, nos prédios e na praia.

Ah, como eram bons os dias que precediam a morte do ano! Toda a merda em que naufragava diariamente coloria-se de luzes diversas nos barracos e nas mansões, ledo piscar. O mundo dos pobres era abraçado pelos endinheirados e pelos wanna be endinheirados, que realizavam seus fetiches filantrópicos. Abá crescera muito nos últimos meses, isso amedrontou a dondoca que lhe entregou seu presente do Papai Noel, além do nojo expresso em seu botox imóvel. Aprendera a ignorar o rosto das pessoas que nunca passaram fome, "assim é mais fácil de matar" lhe ensinara um amigo da escola certa vez. Ele ganhou uma bola nova, que, em poucos minutos, se transformaria em pó. Não. Queria relaxar enquanto o céu pegava fogo, preferiu os baseados de seu tio.

Sentou em seu trono de dor e esquecimento e começou a imaginar cada rosto que se aglomerava na orla, como cada um deles ficaria bem maquiado de sangue e miolos. Apontou a velha arma para as estrelas. Para as nuvens. Para as árvores. Para as casas. Para tudo, a única coisa que continuou se movendo eram as figuras vestidas de negro -- mais negro que o carvão -- que faziam seus amigos deitarem em poças de sangue. Descobriu que não ouvira nada pois o céu já começava a explodir, levando consigo todo o ano que havia passado e todas as pessoas que eram caçadas pelo governo.

Morriam homens, mulheres, crianças, idosos... mas ah! o céu estava tão lindo! As pessoas se abraçavam nas televisões, o renascer estava acontecendo, todos os brancos de branco. Abá terminava de fumar enquanto via crianças brincando de polícia e ladrão com as criaturas sombrias. Seu corpo e seu coração permaneciam rijos, frios, plateia soturna do espetáculo da morte. Os outros corpos continuavam a cair, não possuíam nem mais o direito de gritar em frente ao estrondoso arrebentar do céu e do mar. Mas tudo era tão lindo!

Abá entregou a pistola aos homens de negro, mas seus olhos enraizados nas luzes acima o deixavam imóvel. Sentiu o cheiro de álcool nas palavras gritadas junto aos pontapés e também no líquido que o banhava junto ao sangue de seu nariz quebrado. Mas o céu estava tão lindo! Deu uma última piscadela à estátua do Cristo e gritou. Gritou tão forte que sua explosão se juntou ao céu despedaçado, além das risadas dos homens de preto, além das pessoas de branco encardido, além de todo o mundo.

Esfarelou-se em brilho junto a toda a munição de fogos que trazia dentro de suas roupas pobres e embaixo de seus pés, estourando os rostos dos homens de preto, que morriam assustados com a gargalhada do menino que se explodia. Todos maquiados de miolos tostados. O fogo do chão acariciava os fogos das estrelas, amaram-se então. E do voluptuoso incêndio do universo nasceu o ano novo. Ano novo sem Abá.


Abá é um nome de origem afro-brasileira, significa "esperança".