Pequena síntese do agora


O que me desagrada é sólido. Maldito descalabro construir-me tão idílico: foi tudo imposto. E se sou, assim, tão grande impostor, só há uma resposta: foi tudo imposto. Nasci ao relento, mas em poucas rotações já estava como você: preso: bicho. Homem? Bicho. E em meio a récua da infância obtive desde cedo a verdade: não serás que mais um. De pequeno me criaram crenças para camuflar o sofrimento incomensurável de viver a não-vida; anos e anos de respostas e mais respostas, mesmo que ao menos tenha eu formulado uma - sequer uma - pergunta; não: eu não queria aprender a morrer tão cedo. Desde menino conheci em mim uma morte sem hematomas, a qual reconhecia claramente nos olhos joviais dos meus colegas de escola. Foram me lapidando, lapidando, lapidando, e agora aos vinte anos ao exigir minha lápide exaltam-se: "é um absuuuuurdo" - mas me desculpe: você que está surdo. Sempre esteve. E sempre estaremos enquanto o que mantiver nossa sociedade for o canibalismo de almas (e por favor, leitor, não rebaixe ainda mais meu texto adotando espiritualismos).

Nem tudo é linguagem num mundo de algaravia. É menos teórico tudo que estudo. É mais fome, medo, pobreza, sujeira, ódio, incompreensão. Muito mais incompreensão, e mais quando se fazem próprios meus os significados subjetivos de cada signo: não apenas os da oração anterior, mas de todo o texto - que no todo é nada / e no nada me é todo. Desse modo faz-se fácil a relativização de qualquer esforço, dar as costas e sentar numa mesa de bar: e lá se vão horas, dias, meses, anos: vida: é uma mesa de bar que apelidei "buraco negro". Do fundo da fossa (buraco negro) procurei compreender os porquês, mas em cada bocejo só recebi ''veja-bens''. Meu crânio é eterno, mas meu coração é fungível, de forma poética. Espero a cada novo ano seis novas utopias, dez grandes histórias, treze abraços ao pôr-do-sol, que nunca existem. Há apenas erro. O que, de qualquer forma, não deixa de inflamar meu coração-poético [mais que mísero órgão animal, meu tambor infalível, companheiro, camarada socialista vermelho-sangue]. Lassidão, solidão, contramão? Não é a toa que se fazem rimas ao meu tambor rouge. E seria de tudo isso que tiraria eu a simplória síntese esperada no primeiro parágrafo?

Foi tudo imposto. Hoje desconheço; e a partir disto firmo meus passos no incerto conhecimento futuro: não há garantias, porém dúvidas. Agora, enfim, após a intempérie exaustiva da vida de gado, garanto-me o básico: dúvidas. Nem por isso posso eu estufar meu peito e bradar-me despojado de verdades: também sou humano: nascido, criado, vivido a vida duns outros que me juram (e acredito) apenas me querer o bem. Eis que não existe o bem; do mesmo modo que não existe meu coração-poético, nem qualquer vômito literário desse rotineiro ambulante. Tentarei ser mais simples: exprimo aqui um recorte desorganizado da minha incompreensão do que é infelicidade. É o não-ser que me sinto, ou melhor, o não-me-sinto que sou. É o complexo vórtex dum egocentrismo enraizado na coletividade torturadora, que engole as crianças por dentro e defeca em suas cabeças um significado: adulto. É a grande miserabilidade de viver o aqui e o agora sem encontrar a imediatidade do resultado ao qual possivelmente fui programado; e até mesmo o anti-resultado não é imediato, o que nos faz vítimas do marasmo - mesmo que o marasmo seja guerra.

Conto-lhe um segredo agora: não há o que fazer: além de lutar. E a luta é enfaro aos fracos, estúrdio aos nobres, esbórnia aos preconceituosos. Contudo os que lutam sabem: é vida. É hoje com gosto de amanhã, é amor muito além do romantismo e da utopia, é força de mil braços: é tanto mais que se possa expressar em palavra escrita. E é também o que não me foi imposto. Meu grande projeto de materializar sonhos, de construir sorrisos, de socializar o mundo, de amar simplesmente, de



desculpem-me: pro que é novo ainda faltam palavras.


Pausa

algumas mudanças na minha vida. falta tempo e força nesse fim de ano. vou ficar um tempo sem postar. hoje uma música me resume:

rotina III


meus dedos navegam tuas curvas
enquanto meu coração se aquece
no esquecimento,

encaro-te.
e no mais fundo grau de tuas lentes
enxergo-me
esparramado
noutra noite que minha mãe chora

teus olhos, os dela e os dele
todos me perguntam
afirmativas retóricas,
por que há de existir amor?

por saber da irrealidade romântica
transvisto-me poeta
e engulo tua baba
na simples esperança
de ter o intangível

sorvo seis mil poesias
com teu vinho barato
e ao alvorecer
vomito mais de
seis mil lágrimas

me pergunto por onde andarão
elas e eles
que algum dia
ao meu lado estiveram

me pergunto tanto...

e enquanto meu rosto se lava no espelho
só há uma verdade a ser dita:
la solitude n'est que moi au miroir


piso em minha sombra
enquanto me esforço em te esquecer
dois minutos após
teu beijo de despedida

"onde estavas", perguntam-me olhos cansados
de mentiras,
olhos que negam a verdade.
"fui ao parque, maria"
e assim borras tua face-maquiagem
tão magistralmente quanto quando
te borrava de porra.

sigo a escalar minha sombra
cada vez mais longa
ao aproximar do fim
do dia

procuro em minha agenda um número
qualquer,
mesmo que seja repetido

pois não há alimento maior à solidão
que dormir com um corpo
esquecido.


-



desgosto crescente
é quase como um câncer
merda só
merda,
sorrisos amarelos.

- preciso de mais um trago.

hálito poético



tanto em minha vida é pressuposto
oposto do conto, a postos o canto
decifra-me o manto do
tédio
sóbrio, soberano
vício do monótono


há linhas
há lito
...............poético,
como é patético
acreditar em liberdade...


miro todo o impossível
refletido em seus olhos
e na certeza inacessível
luto por mais

sonhos
por mais.


e é no espelho o desencanto
- no medíocre a aptidão -,
a crença é o manto
e o espanto da dissolução

mas
ainda

te procuro à bruma dos meus conceitos
(e me amarguro por não ser perfeito)
solidificando-me só, com meu hálito poético
- arquétipo escravo de um não-ser patético.


fênix



ergo em fúria o crânio malogrado
cansado depósito de desditas mil
funil transparente de prisco desapego
ergo em escombros a sorriso febril

da espiral manca da História
injeto inglória
engulo a escória
e afogo no incômito vômito dos meus sonhos

tacanhos, porém de faustas lentes
- e falsos dentes -
munido
espero.

e
no mais puro desespero
golpeio o ventre da cegueira
que cavei em meus olhos
com minhas próprias
unhas

não há sangue, nem dúvida
nem porra
nenhuma

ou alguma
chance que me canse
numa nova
dialética de esperar:
sentar, levantar, militar
ar,ar,ar...
onde
fui parar?

é por tanto
- ou por tão pouco -
que rouco me afogo
no empírico
etílico?

é por pranto
- ou pelo gozo -
que irrompo
noutro morbo
corpo?

são as dúvidas
que me afogam no
foda-se

são as crenças
que me rogam o
luta-se

e (todos) me enganam com escolhas.

ouço o sol apagar outra vez
à tez petrificada, recém arruinada
de fênix em espiral
que já nasce pra morrer.

Crítica a John Gray

Olá pessoas! Devido a um trabalho de sociologia fiz uma crítica ao professor John Gray (mais especificamente à obra Falso Amanhecer) que compartilho aqui com vocês. Sintam-se livres para comentar, discutir, etc.


"O fim do laissez-faire"

A insustentabilidade do modelo econômico atual é compreendida por John Gray em sua obra Falso amanhecer, sendo sua devida mudança estrutural necessária. Governos baseados no neo-liberalismo, entendido por Gray como uma frustrada repetição do laissez-faire Europeu anterior às grandes guerras mundiais, submeteram o mundo globalizado à anarquia dos mercados desregulamentados. A falsa crença nos ideais liberais, como o progresso, fez do discurso da tragédia neoliberal o passo adiante do liberalismo. Porém, em vez de aumentar a liberdade do homem, a submissão aos mercados globais desregulados com a total liberdade destes a partir das políticas de Estado mínimo nos transforma uma vez mais em escravos do sistema. A emancipação do homem se daria, segundo o autor, pela maior regulamentação do Mercado, a qual devia ser puxada pela maior potência contemporânea: os EUA. Tanto o liberalismo quanto o socialismo são vistos como modelos universais incapazes de dar conta do mundo plural e multicultural do século XXI. É impossível e improvável para Gray que o mundo se submeta em totalidade à algum modelo econômico de forma ideal: haverá sempre a deformação deste pela cultura e pelas particularidades de cada ponto que se desenvolva.

Entretanto acreditamos que a teoria de Gray é limitada. O fim do laissez-faire com a subsequente implementação de uma reforma capitalista não libertará o homem ou transformará radicalmente o mundo – entendendo por radical o que vai à raíz. Ao mesmo tempo que Gray critica o Fim da História de Francis Fukuyama por tentar impor ao mundo um modelo político-econômico ele não vê a contradição inerente a sua teoria quando conforma o mundo ao capitalismo. A dialética de sua teoria se acaba ao defender que “não há alternativa para o capitalismo, somente suas variações em constante mutação”. Ao mesmo tempo a materialidade do autor é finda ao se defender ideais abstratos – como por o antropocentrismo atual como real culpado dos problemas do mundo e não o sistema econômico em Cachorros de Palha. A incapacidade do autor de se aprofundar em pontos centrais do problema atual da sociedade não o permite refletir sobre uma verdadeira mudança estrutural desta. A crença de que o neoliberalismo desvirtuou o capitalismo não passa de mero obscurecimento do real problema: a existência do capitalismo. Este sistema é baseado na luta de classes, competição, lucro, etc. e não possui razão de existência ou coerência sem isso. A aposta do autor em que uma potência ex-colônia européia, portanto com defeitos ocidentalizantes, irá controlar e democratizar o mundo é uma tentativa mascarada de manutenção do status quo. Acreditar que o período social-democrata foi um avanço na história da humanidade é extremamente eurocentrista, um pensamento tendencioso e cego: os países que estavam fora do primeiro mundo apenas continuaram seu caminho pedregoso de miséria, desigualdade e exclusão. O avanço do mundo em sentido da liberdade não se dará enquanto a lente hegemônica européia burguesa nos for imposta para a compreensão do mundo.

A longa crítica de Gray está devidamente ligada às condições materiais existentes na atualidade. A obviedade da necessidade da mudança é tão clara quanto a miséria que encontramos do lado de fora de nossa faculdade. Entretanto o que não é claro é que teorias como a do Falso Amanhecer não contemplam uma verdadeira mudança, mas apenas reformas do que já existe. O capitalismo não será parte da cultura dos diferentes povos, a adaptação daquele a estas se deu por necessidades políticas e não pela vontade de criar novos tipos de capitalismo. É óbvio que a conformação em modelos uniformizados não é desejada por populações que experimentam a falsa liberdade (salvo os burgueses) do capitalismo, porém o socialismo nunca combateu a individualidade, pelo contrario, só vê esta possível com o fim da luta de classes e da sociedade de opressão. O individualismo propagado pelo capitalismo não leva necessariamente à individualidade, mas sim ao egoísmo generalizado refletido em grande escala pela ambição alucinógena de lucro do Mercado global. Gray está certo ao afirmar que vivemos em um novo modelo de escravidão, mesmo fora de um modelo escravista, porém ele não se dá pela escravização apenas dos homens pelo mercado, mas sim dos homens pela ideologia dominante, bem como pelas condições materiais. Tiradas todas as superficialidades, vemos que a necessidade humana máxima, a sobrevivência, não é satisfeita por toda a população mundial mesmo tendo meios para tal, como, então, haver liberdade e igualdade?

A apropriação pelo capitalismo de ideais nobres para seu convertimento em abstrações ou idealismos românticos nos impede de lutar por uma concretização daqueles. Rompimentos e desconstruções são necessárias em reais processos revolucionários, os únicos possíveis de mudanças radicais. O fim da utilidade de necessidades materiais do sistema vigente, como a família (um dos pontos centrais da critica de Gray é o desaparecimento das famílias tradicionais) ou a propriedade, fazem parte da construção efetiva do novo. Entender o mundo de forma materialista histórica-dialética é compreender que nada vem do nada ou de instâncias metafísicas e que nada permanece como está. Através da dialética compreendemos que o capitalismo já traz em si o germe de sua destruição, suas contradições inerentes aflorariam de qualquer forma com o avanço histórico e científico, assim como a sua necessidade de superação. Ele foi importante para o avanço da humanidade, para o desenvolvimento das ciências, bem como para a desmitificação e desmistificação do mundo ou para a exposição da luta de classes (que antes era maquiada em crenças idealistas), porém pensar nele como fim da história é negar a dialética e a história. Supervalorizar culturas é um modo de reconstruir os fatores históricos que tornaram plausíveis o advento dos fascismos no período pós-crise europeu. O que vemos na Europa atual é um conservadorismo e um fechamento extremo pautado em xenofobias construtoras de identidades. O intercambio cultural não deve ser entendido como prejudicial, as tradições, assim como tudo o mais que existe, são passíveis de transformações e possíveis finalizações. Manter o sistema só legitimará a forma de vida imposta a maioria da população mundial. A falta de compreensão da situação periférica do capitalismo, bem como o não comprometimento com a verdadeira igualdade ou a verdadeira liberdade, fazem possível a interpretação de reformas como a proposta por Gray como um avanço, um progresso (que o autor, inclusive, diz ser uma ilusão liberal), sendo que no máximo “mudam o grau” das nossas lentes para enxergar o mundo, as quais foram há muito tempo receitadas pelos nossos médicos burgueses, resolvedores de todas as anomias. Obviamente devemos sempre buscar um mundo melhor. As condições materiais atuais tornam possíveis teorizações como a de Gray, que realmente tornariam mais suportável a vida em nosso mundo (ou no mundo europeu que costumamos assimilar como sendo nosso), porém a real libertação do homem não se dará enquanto não rompermos o marasmo da estagnação histórica adialética e pós-moderna do mundo fragmentado, mas de consenso universal opressor.


DOS BATIMENTOS

encômio abjeto
do canto carente
contristado feto
do rubor latente
incontestável sopro
inexplicável escopo
pra rima quente
indecente-mente
o objeto quieto
o pensamento reto
e o rubor latente
auspicioso augúrio
fim de lamurio
pele incandescente
vórtice prisco
d'estrambótica esbórnia
luxo do risco
queima de córnea
desvelo à memória
jactância eloquente
imoral e indecente
de toda paixão: glória.


Soir


talvez a razão da minha mediocridade
seja a verdade não aceita que vejo no espelho

não há chance
ao comum domado, adestrado,
guri frustrado,
bom advogado

eis que sou um gado
e mato meus sonhos por um copo de cerveja
ou uma mentira bem contada.

inerme me vejo
- o pouco que ensejo -
sem qu'eu ao menos seja

poucas rimas me sobram
na pesada angústia jurisprudencial
poucas rimas me restam

e nem mesmo a prosa
(ou você que me amava)
suporta mais um dia
ao lado desta árvore morta

e o que sobra de mim
é uma noite vazia
uma calçada fria
e um corpo ao chão
(que espero e rogo a deus
que seja o meu e já
esteja morto)
.

O eco da democracia



Democracia … ia

.................… ia …

........................… ia …

...................................… mas não foi.



na falta de sonhos


o tempo engessa minha carne

já faz algum tempo que não ouvi teu adeus
nem vi teu vazio
ou notei a solidão

.............tão
...................vão
fui ficando
...............cansando
..............................calando
memórias que menos que minha sombra
menos que minha ausência
menos que

o que

foi tanto que perdi?
fui eu ?
eu.
eu?
eu...
me perdi?

ou simplesmente a minha carne engessou
constrangida por minha razão
à concepção
da norma lidade

sau-da-de
dum eu
dum teu
dum quem
fui ou serei

.

- j'ai mon cœur à marée basse -

.

vejo tanto, tanto, tanto
porém meu foco ainda são meus passos
firmes no chão
concentro minhas forças em pisar o futuro
passo, passo, passo
e no passado fica tudo que não arrisquei desafiar
todos os passos que não se pisam ao chão,

que ser?
quem ser?
quem sou?
que sou?

despojado de sorrisos
carecido de amigos
,
calejado por abrigos
compensado a castigos:

humano.

o tempo corrói minha carne

Palavras

Sempre preso à literatura, à poesia, às artes em geral, para fugir de um mundo que não aceitava como realidade, Aldo sorvia o doce caldo da harmonia em meio ao caos cotidiano. Passou correndo, porém não desatento, pelos anos áureos da academia, engolindo indômito todos os escritos da História. Assistiu a ascensões e quedas, romances e tragédias, amizades e rivalidades, tudo pelo filtro de seus preciosos signos, os quais também passara a produzir e depois a publicar num blog e também nuns livros que ninguém comprou. Na solidão lia, relia, escrevia, rescrevia. Acreditou, assim, que havia encontrado a felicidade.

O que acabou com sua belle époque foi o cotidiano movimento dialético, o que lhe expôs o peso das correntes que as belas artes antes lhe impediam de sentir. O tato, assim como os outros sentidos de Aldo, eram moldados historica e materialmente, mesmo que ele não aceitasse essa verdade durante muito tempo. Ao se dar conta do real e olhar além de si mesmo, degustou lentamente o sabor pútrido da agonia. Viu o mundo, sofreu o mundo, sentiu-se só. A solitude agora lhe era uma farsa, via um futuro taciturno, silencioso e morbo.

Engajou-se em mil lutas sociais a fim de garantir o mínimo de estabilidade psíquica. Engajou-se também num projeto de morte, sendo achado pelos colegas do último ano de faculdade nas ruas imundas da desigualdade. Embriagava-se e acordava em camas de mulheres, de homens e também de seres solitários, aos quais apelidava de "espelhos". Costumava às vezes ingerir qualquer coisa que lhe fizesse acreditar em deuses. Encontrava-os no Olimpo, no Paraíso e nas nuvens insólidas de sua mente cansada. Perdeu toda sua honra. Vil, fez-se invisível na bruma das relações humanas, tão incertas e hipócritas quanto seu antigo sorriso.

Viu Maria casar com José, João com Célia, André com Lurdes. Viu Pablo ganhar seu primeiro milhão, Sueli engravidar de gêmeos, Marcos montar um escritório de advocacia, Carla se mudar para o litoral. Viu toda a previsibilidade, o agir intenso do status quo. Aumentou sua dose diária de descrença e vendeu a alma aos demônios mais mal intencionados para não acabar como um personagem de novela, ou melhor, para logo acabar - tudo acabar. Aldo se tornou um opróbrio e, nos delírios ilógicos de seus ideais, ao mesmo tempo um símbolo. Era a antítese, o mal-exemplo que seus antigos colegas davam aos seus filhos vazios.

Viveu mais 10 incertos anos. Largou os ideais mais nobres para cair noutra espécie de conformismo: a desistência. Impávido desafiava a vida, tencionando seus extremos todos os dias. Sua pequena revolução substituíra os livros, os sonhos e as paixões invernais, enquanto a falta de sentido ficou no lugar do imenso vazio que o preenchia. Perdeu o brilho dos olhos e também o calor do tato. Perdeu o contato com os amigos e com a família e também o emprego e toda sua enorme poupança. O que restava ao fim de 10 anos que havia largado a faculdade era um ser anódino, preso na casamata inventada em seu interior destruído.

Aldo tropeçava em sua sombra e não suportava o espelho. Encontrou Lurdes um dia no semáforo, ela num carro europeu, ele na janela pedindo dinheiro. Apesar da barba e das rugas lapidadas pelas dores da vida, ela o reconheceu de imediato e junto a algumas notas lhe doou um livro e algumas palavras:

-- Você poderia ter se amado um pouco, Aldo.

Foi o bastante para causar-lhe o ódio e o desespero, um soco no capo e algumas lágrimas no caminho para seu canto de mendigo voluntário. Rasgou algumas páginas do livro, fez um baseado e tomou um gole de pinga. Sem querer leu um pedaço do romance, o qual já havia lido muito tempo atrás em seu castelo irreal de nefelibata. Não conseguiu conter novamente a agonia. Encontrou um computador numa sala qualquer, escreveu por três dias seguidos. Não dormia mais, nem comia ou bebia, apenas amava novamente seus signos. O álacre alarido mudo das palavras lhe contagiava e mais uma vez lhe tirava do mundo numa fuga filosófica e social.

Ao fim de uma semana havia terminado um livro que desvendava todos os mistérios do universo interior humano. Leu junto ao tambor incessante de seu coração cada palavra escrita. No entanto, ao invés de explodir de felicidade por sua maior conquista, foi perdendo a cor e acumulando mágoa. Perdeu a conexão com suas palavras, já não sentia que elas lhe pudessem expressar ou mover - ou ainda comover. Releu cada letra que escrevera por toda sua vida. Nada mais lhe fazia mexer um músculo sequer. A extrema tristeza foi lhe possuindo aos poucos e a fome imposta lhe surgiu como desculpa para morrer. Sentou-se, então, num dia qualquer na biblioteca central de sua cidade, leu algumas linhas que não mais lhe completavam, assistiu um pouco mais ao mundo que nunca quisera e deitou a cabeça pesada sob a mesa antiga, deixando que o vazio eterno lhe acalmasse a alma - sem qualquer signo, símbolo ou arrependimento.


Análise I

Fricção
Ficção
Fixação
Ficção
Fix-action
Can i?

Ficção

Et mourir
Et mourir

Can i?

Caixa de entrada

Havia mais de sessenta mensagens. Umas muito velhas, outras de horas atrás, porém todas de um tempo que agonizava. Fixou os olhos e a mente no botão do celular, sabia que era a última lembrança.
- Apagar Tudo?
- Ok.
Salta-lhe aos olhos uma última palavra, que ele sabia ser muito maior do que o seu contexto: 'vazia'.

Vazio ficou, sentado, numa mesa solitária, numa tarde solitária, numa decisão solitária, compartilhando com seu silêncio uma dúvida eterna e a certeza da saudade.

SANGRE

Me pego em meio a esta fotossíntese
Gritante, enraizada, póstumamente desgastada
Lobriga da fome d'um mundo sem tese
Mas síntese da foice-martelada
Raça medíocre do desmundo desnudo
Rosa e(n)rosado canteiro agudo
Sem lógica do canibalismo financeiro
Asno ingrato negador parteiro
Do inerme vivo-morto alpercatandante
Cancioneiro poetético invivido furo
Da razão cirúrgica d'implante
Nebuloso d'ótica errante d'um furo
Deontológica sem lógica ou beira
Pro suicídio planejado nefastonrado
Pela horda da horta plenamente rasteira
Da grande queda do ínfimo achado
Ouro de toda rogada rouca modernidade
De fios extensos e tensos da desigualdade
Planejada em acordes sem sinceridade
E acordos de saco-coçada hombridade
Por poucos, muito poucos, tortos
Nada loucos, granabsortos
Idealistas endeusados mancos
Tortos andarilhos de meu enfrentamento
Sem freios ou fugas em flancos
Imberbes discursos do curso de intento
Errante, falante, castrador de nuvens
Que desmancham no ar pesado
- vermelho, forte, armado -
Qualquer sólido,
Até a vitória.

(re)compor

de tanto juntar meus cacos
já decorei a sutileza do adeus
que inerme se forma em meus lábios ocos
e em meus passos sem os teus
- os quais devo apagar.
por tanto fingir poesias
vejo o lustre estrelar
com o rutilar de suas hematitas
que não mais estão
deixando-me hematomas
e a incerteza de um sertão.
perco minhas rimas em lembranças
e minhas lembranças na mimese
rotineira angústia da comum imundice
de quem insiste em viver a tese
de que a agonia há de ter fim.

Microcosmos

Alguns meses. Três, quatro ou seis
não importa, sendo o racional menos que existente
e o mundo fora de mim ainda mais distante
fronte galante: o assombro vive à frente

O amor sempre fora fungível
e sempre será uma farsa,
o que nos movia era a crença no incrível
caídos em estado de Graça

Mas agora me vejo como o resto comum
feita a fantasia um velho novo lixo
em meu aterro entupido até a boca
de fábulas queimadas por fumo e rum

Lá éramos uno, mas muito maior é minha cratera
exposta aos poucos estudiosos das geografias humanas,
acabei sobejo sem refúgio
desmascarado pelos trejeitos que abuso

Como sempre, encontrei o finito
e o adeus dos infinitos olhos
que miraram os meus com tanto mistério
obrigando-me a recriar meu ser - em outro parecer

Reconhecimento

"Há de ser bom um dia!"
dizem-me de pronto
alimentando o pranto
do dia que não vai chegar

lassidão que engole
o jantar da solidão

(vejo-me nu ao espelho:
nem os dentes se safarão)

"Tenham piedade de nós"
ó todos vós, deuses do mundo
mas mais ainda vós, burgueses
perdoai nossa pobreza, feiura e tristeza
perdoai nossa baixeza, imundice e falta de comida na mesa
"ora, as vacas andam magras"
e mais magras desfilam as vacas do absurdo,
anoréxicas das passarelas capital-estetisuicídas
que instigam minha bulimia diária

Tão fundas eram as covas dos nazistas
- tão fundas são nossas olheiras -
que "Esqueceram de enterrar os comunistas!"
- Mas que pena senhores...
vivem os ideais
e também os pobres nefelibatas
vis estupradores de anjos
(os tais homofóbicos de traseiros alargados)

"Todos hipócritas!"
mas todos (in)felizes
compradores de margarina

"Ne me quittes pas..."
- agora é tarde
sempre foi tarde
tarde demais
para nos deter

Maré vermelha de micro-algas pirrófitas
MATA! MATA! MATA!
pois sem morte não há Hollywood
nem motivo pra pranto
nem enterro pro whisky
nem aquela viúva safada pra me dar

Fico na espera
mesmo sem esperança
e se meu idílio plangente
recomeçar do avesso
ou do começo
- ou do cu da sua mãe -
conforte-me com seu apreço:
"Há de ser. um dia"

Mente pertubada de um humanista moderno



*

Abrigo vazio

Alma vagando desencontrada
Como pode o desespero ser mais palpável que a felicidade?
Por que acreditamos mais na dor que na esperança?
Porque nos ligamos mais à matéria, aprisionando a mente

A vida humana é clichê
Vivemos e cometemos os mesmos erros
Mesmos pecados, mesma desilusões
“à passos de formiga e sem vontade” como sentencia a canção

Na desenfreada busca dos desejos
O homo sapiens sapiens na cegueira da modernidade
Conhece o que é certo, mas persevera no erro
Na desculpa de que tudo é passageiro
Mas o erro não é
Este permanece manchando nossa alma
Denotando nosso atraso


Iludidos seguimos, angustiados, stressados, ansiosos,
Cansados, depressivos, em busca de algo que não sabemos
Talvez do pote de ouro no fim do arco-íris?
Da felicidade nos números da mega-sena?

Rumamos desengonçados ao infinito do vazio
Vazio este que nos conforta ao dormir
No fundo não queriamos casa, carro, ou um milhão...mas o sentimento de pertencimento a algo que faça sentido
Mais sentido que a força que nos obriga a deixar para trás o abrigo,
vazio.

*

ao poema que a alice escreveu aqui

'ai deus, como dói'
queixou-se a menina em meus braços
tanto, tanto
era seu amor
que escorria seus olhos

ela pensava em muitas coisas
em clarissas e alices
em bobagens e meninices
e pensava no sertão

sertão incerto
-peito aflito, humano, finito-
sertão incerto

deu-me um colar há tempos
com seus dentes de leite
enroscados nos seus cachos mortos

e também me deu vida
ao crer qu'eu creria
ao crer qu'eu queria

mas nesse
sertão incerto
como dói
deus
como dói

perguntamos de futuros
pensando em passados,
não aguentamos o mistério
e assumimos a culpa

'impossível'
'talvez', lamento
'não lamente'
'eu tento'

e ela volta ao fundo do mar
(que mar? queimar?)
cristalino, áurea sorridente
'menina num mente'

e hoje? hoje é também amanhã
todo o mais é menos,
menos nós

e a lembrança
ah, triste lembrança,

esse sertão incerto,

como dói, deus
como dói o adeus



"If you didnt care what happened to me and I didnt care for you, we would zig zag our way through the boredom and pain, occasionally glancing up through the rain, wondering which of the buggers to blame, and watching for pigs on the wing ... You know that I care what happens to you, and I know that you care for me too. So I dont feel alone or the weight of the stone, now that i've found somewhere safe to bury my bone. And any fool knows, a dog needs a home, a shelter from pigs on the wing."

o Gato e o Plano


Do planalto impunemente cerrado
Brasileiro torpe, famigerada farsa
Avista-se sorrindo Cheshire acuado
Pela verborragia que sua fome traça
Ao centro do verde-amarelado drama
De alpercatas e desempregos periféricos
Encontra-se um encontro-trama
Amaldiçoado de berço pelos lexméritos.
Cheshire gargalha lunarmente em frente
Aos atos e fatos de pretensa esbórnia
Pela pequenência (essência) pequeno-burguesa
Que de sobremesa engole vômito e queima córnea.
Contudo, o gato também se comove
E move-se à luta escondida entre sopros
-E move-se a luta forjada entre sopros!-
Pra uns: alvorada. Aos gorilas: engov.
Da luta se extraem vidas, dos olhos gritos
E mais gritos que constroem armas
E mais armas que constroem nós, aflitos
Nós e gritos, nós e o chão, nós e mais nós enroscados nas palmas
Nós, mas tão sós, consolidam-se flores
Vermelhas dores plantadas no peito
E regadas a injustiça, capital e horrores
Nós somos corpos que recusam o leito
Pútrido e benevolente da ação de aceitação
Corpos que consomem leis em deliberada bulimia
Corpos que atritam, tremem e se dão
Corpos que se enlaçam: nós. Não hierarquia.
Espanta-se Cheshire com o vermelho-sangue
Que banha o centro mórbido do mundo brasileiro
De seu sopor revive sorrindo ao mangue
E encenando o céu como inteiro.
Por entre sotaques, cores e beijos
Sopra a brisa do movimento estudantil
Direito que mata a direita:
Sonho de um novo Brasil.
E ao caos entregues vivemos
Seja lá em terras lexsagradas
Seja nos vários aquis desiguais de mentira
Vivemos. Entregues à luta
Vivemos.
O gato se assombra
E o plano traçado no planalto
Só faz sorrir bamba
E comunista que vence o asfalto.