Moto perpétuo, alquimia, Haiti e... lucro.

Estive viajando por uns tempos e vejo que a Pripa continuou alimentando o fogo do rotineiro excelentemente, como sempre. Faz tempo que não escrevo falando diretamente com você leitor, mas faz mais tempo ainda que não conversamos -- talvez unilateralmente -- sobre os acontecimentos do mundo. A minha antiga certeza de querer ser jornalista me fazia comentar sobre tudo, ainda que me faltasse muito conhecimento. Ainda hoje tenho muito a aprender, mas já vejo o mundo de uma forma diferente. Apesar disso ainda direciono minha vida para a mudança.

Haiti. Caos que brota da terra, gritos que produzem lágrimas pelas telas ao redor do mundo. Os carniceiros pintados de repórteres e de máscaras de dor estavam lá, suando suas valiosas lágrimas enquanto os cofres do mundo riam, gargalhavam.

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O moto perpétuo é uma máquina fictícia que utiliza a energia gerada pelo seu movimento para criar mais energia, criando um ciclo eterno, auto-suficiente, e, se aplicado ao capitalismo, altamente lucrativo. Apesar de ser impossível, não deixa de ser um objetivo dos grandes fabricantes de dinheiro. Não estão errados se pensarmos que em nossa era o dinheiro é ar e que uma boca do outro lado do mundo pode causar um tufão devastador aqui. E essa máquina tá engolindo a ilha dos escravos que ousaram se rebelar.
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E porque gargalhavam tanto esses dentes de ouro? Pois o caos está novamente nas vitrines. Vejam quantas pessoas já compraram seu produto, quantas marcas já são heroínas por doarem aos miseráveis mais fodidos da última semana. Quantas marcas já são heroínas: viciantes, desintegrantes, forjando prazer nos junkies do capital. Queria introduzir aqui o conceito de Capitalismo de Desastre de Naomi Klien através de um texto escrito por meu amigo Yuri Campagnaro:

"É muito famoso aquele trecho do livro de Michel Foucault Vigiar e Punir em que se descreve um suplício da idade média. A cena relata o desmembramento de um criminoso, cena horrível que parece ter sido tirada de filmes como O Albergue, Jogos Mortais e outros do gênero. Porém, a Idade Média não foi a última vez na história em que a tortura foi utilizada institucionalmente. Embora não seja mais a Igreja, à partir da década de 1950, foi o Estado que se apropriou de uma nova tecnologia da tortura. Vejamos como isso se desenvolveu.

Um dos maiores, senão o maior, expoente da psiquiatria mundial da década de 1950 foi o Dr. Ewan Cameron. Ele percebeu que a indução de fortes cargas elétricas em pacientes, adicionada à confusão de tempo, ausência de luz, som e sensações táteis, causava um processo de regressão na pessoa, ou seja, esta tinha sua personalidade anulada e regredia ao estado psicológico de uma criança, com sintomas como automática posição fetal, comportamento infantil e incontinência. Behaviorista, acreditava que poderia curar um paciente regredindo-o e logo em seguida reeducando-o, por meio de um sono induzido (de meses) com a constante reprodução de frases (do mesmo modo como no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley).

O Dr. começou a aplicar sua revolucionária técnica em vários pacientes (sem a ciência destes). Seu experimento começou a chamar a atenção da CIA, interessada nessas técnicas drásticas, que começou a financiar os experimentos de Cameron. Apesar de todo esse esforço, o projeto falhou miseravelmente para curar os pacientes. Porém, isso não tirou o interesse da CIA, visto que como técnica de destruir pessoas psicologicamente a experiência obteve total êxito.

Com base nesse trabalho, a CIA fez um manual que ensinava como realizar essas técnicas de destruir personalidades, para serem usadas contra prisioneiros, para extrair informações. Era o manual Kubark. Foi a primeira tortura científica, a dor exata na intensidade exata. O manual trazia técnicas como o afogamento, eletrochoques, privar a pessoa do contato de outros seres humanos, de sons, de luz, confundir os prisioneiros ao misturar aleatoriamente o horário das refeições, e muitas outras.

O manual Kubark serviu como guia de tortura em vários regimes ditatoriais, mas a primeira vez que teve papel principal foi nas ditaduras da América Latina. Principalmente no Chile, Argentina e Brasil1. Curiosamente (ou não) também nesses países outra coisa de suma importância para o mundo ocorreu simultaneamente às torturas.

Em Chicago, a partir da década de 1950 funcionava a escola de Economia, que ficou muito famosa por seu líder, Milton Friedman. Friedman e seus adeptos eram defensores radicais do mercado. Acreditavam que o mercado livre se regularia automaticamente através de leis básicas como oferta e procura, e para sanar qualquer problema econômico era necessário se livrar da influência do Estado e deixar o mercado agir sozinho.

A escola de economia era chamada de Escola de Chicago. Porém, não podia ser época pior para essa visão econômica, já que esses anos foram marcados por governos desenvolvimentistas e intervencionistas no mundo inteiro. Mesmo assim, os EUA perceberam que essa doutrina intervencionista era muito perigosa, pois podia levar ao socialismo e sistemas econômicos que iam contra o interesse ianque. Sendo assim, acharam necessário mudar a concepção ideológica das lideranças dos países da América Latina. Patrocinaram, então, a escola mais anti-”vermelha” do mundo para recrutar jovens estudantes chilenos.

Esses estudantes eram chamados de Chicago Boys. Porém, mesmo após formados e atuando na Universidade Católica do Chile, não conseguiam respaldo algum. Havia um forte sentimento nacional de apoio ao governo social democrata de Salvador Allende, que tinha medidas radicalmente contrárias às do Chicago Boys.

Vendo o fracasso da disputa ideológica e sentindo o perigo do socialismo no Chile, os EUA resolveram intervir fisicamente no país. Em 11 de Setembro de 1973, auxiliaram militarmente Pinochet e seus aliados e fizeram um golpe de Estado violento, inclusive bombardeando a casa presidencial, La Moneda.

Com a ascensão de Pinochet, pela primeira vez as medidas neoliberais puderam ser testadas na economia de um país inteiro. Os Chicago Boys se tornaram membros do governo e como um choque, de uma só vez, introduziram as políticas que aprenderam em Chicago. Privatização intensa, afastamento do Estado, etc.

Porém, como a oposição de Allende em sua época (grandes corporações e a direita) tentaram boicotar o governo, afundando propositalmente a economia, quando Pinochet chegou ao poder encontrou um país indo à bancarrota. As medidas neoliberais apenas agravaram os problemas. Para tentar resolver essa situação, em 1975, o próprio Friedman realizou uma profética viajem ao Chile, e seu conselho foi direto: mais cortes, mais privatizações, mais velocidade.

Nesse ritmo, o Chile chegou ao seu milagre econômico: os 10% mais ricos aumentaram sua renda em 83% e, do outro lado da moeda, o Chile se tornou o 8° país mais desigual do mundo. Difícil segurar uma grande população pobre enquanto há pouquíssimos milionários e uma classe média inexistente, que fora empurrada para a miséria. Para fazer isso, o manual Kubark foi providencial. De um lado, Friedman assessorava a economia, de outro, a CIA dava aulas de torturas aos militares. Mas essa história tem um terceiro lado também – o lado das grandes companhias internacionais.

A Ford é um bom e notório exemplo. No Chile, financiava Pinochet (existia até uma prisão dentro de uma fábrica da empresa), na Argentina, dava os carros aos militares (o famoso Falcon Ford verde) e no Brasil, junto com a General Mortors, fundou um esquadrão da morte privado, a Operação Bandeirantes. Esse apoio não foi à toa, empresas como a pertencida pelo empresário chileno Martínez de Hoz chegou a lucrar mais de 700% durante o regime.

Mas com a denúncia das bárbaras torturas cometidas no Chile, a imagem da Ford começou a ficar feia no cenário internacional. Para sanar esse desconforto, a empresa passou a financiar grupos de direitos humanos no Cone-Sul. Esses grupos eram coletivos que, impossibilitados de fazer debates políticos devido à perseguição, tinham que fazer silenciosos protestos (como as Madres de Mayo na Argentina) ou então só criticar o aspecto dos ataques à direitos humanos sem atacar a política ou economia ou ideologia.

Agora sim, os dois lados da moeda foram separados. De um lado, Friedman dizia que ajudava a economia do Chile e isso não tinha nada a ver com os atentados à direitos humanos; de outro lado, as entidades de direitos humanos diziam que sua luta nada tinha que ver com as políticas econômicas das ditaduras.

Do Chile, a política de Friedman se ampliou no mundo inteiro. O próprio Friedman fez o projeto de liberalização econômico do Partido Comunista Chinês. Do outro lado do mar, na década de 1980, a Inglaterra era governada pelos conservadores, na figura de Tatcher, admiradora das políticas de Friedman e amiga pessoal de Pinochet. No fim de seu primeiro mandato, a primeira ministra tinha uma forte reprovação, pois devido à uma intervenção neoliberal no mercado imobiliário a inflação e o desemprego dobraram. Parecia que a aplicação do neoliberalismo num país central seria impossível, pois não teria como haver um governo ditatorial para possibilitá-lo (devido à inevitável revolta da população e dos fortes sindicatos, acostumados ao Estado de Bem Estar).

Porém, pouco antes das eleições, um fato mudou tudo. A Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, ou Falklands. Foi um choque em toda a nação, e Tatcher soube usar esse choque a seu favor. Cultivando um sentimento nacionalista, promoveu uma guerra. Sua popularidade cresceu e ela foi reeleita; logo em seguida, como se fosse uma continuação da guerra, reprimiu a greve do maior sindicato do país (o dos trabalhadores do carvão) de forma brutal e demitiu quase mil funcionários de uma só vez. Depois disso, o campo ficou limpo para a privatização em massa. Foi a implementação do neoliberalismo num país do centro.

O neoliberalismo foi se moldando em torno das crises, dos choques. Os marxistas se aproveitam das crises para hegemonizar uma ideia na população e chegar ao poder, agora, a direita também se aproveita dessas mesmas crises para chegar ao poder e ampliar vertiginosamente seus lucros em detrimento de grande miséria. A diferença é que enquanto os marxistas se apoiam na necessidade das pessoas (pão, terra, trabalho), os neoliberais se apoiam na força das armas, nas ditaduras, e, como no caso de Tatcher, no choque que permite a barbárie, na repressão travestida de democracia.

O caso emblemático dessa ditadura velada se deu na Bolívia, após a redemocratização (como ocorreu em vários países da América Latina, quando nos anos 1980 as ditaduras militares foram desmontadas). A América Latina havia adquirido nas ditaduras uma dívida exorbitante com o FMI e o Banco Mundial (entidades encabeçadas por grandes nomes da Escola de Chicago). Tal dívida foi aumentada em várias vezes devido à chamada crise de Volcker (a súbita elevação na taxa de juros dos EUA). Essa crise afetou diretamente as economias latino-americanas, que sofreram inflações gigantescas.

Para combater essas exorbitantes inflações na Bolívia, foi chamado um novo nome da economia americana – Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Harvard. Para combater a hiperinflação ele adotou uma medida à lá Friedman. Usou o choque da hiperinflação para conseguir adotar uma política neoliberal sem uma ditadura militar. Mesmo com medo das inevitáveis revoltas populares, não foi feito um golpe militar.

A operação foi um sucesso, a inflação foi controlada, os lucros foram exorbitantes, a miséria e o desemprego cresceram. Foi a louvação do primeiro governo neoliberal democrático. Porém, a história é escrita pelos vencedores, e às vezes eles mentem. Para garantir essa política, foi decretado Estado de Sítio durante três meses, quando se reprimiu com tanques de guerra uma greve geral, a oposição foi banida para prisões no meio da floresta amazônica e 1500 manifestantes foram presos.

Essa experiência mostrou que não era mais necessário militares brutais no poder para garantir as políticas econômicas altamente lucrativas, era preciso apenas haver eleições e uma espécie de golpe de estado civil, “conduzidos por políticos e economistas vestidos de terno (…) – todos disfarçados por uma capa oficial de regime democrático”.

Projetos parecidos ocorreram na Argentina e Brasil, inclusive sob a consultoria de Sachs. Começava a moldar-se o “capitalismo de desastre”, um capitalismo que se apoia em grandes crises, grandes choques, para implementar medidas absurdas, impensáveis em tempos amenos, medidas que multiplicam os lucros das grandes corporações. Porém, essas crises perderam força, mas outros acontecimentos passaram a ter mesmo efeito: tsunamis, furacões, guerras e ataques terroristas.

As torturas da idade média empalideceram diante das torturas científicas da CIA, uma tortura não mística, mas racional. Agora, além de choques elétricos individuais, outro tipo de choque é moldado, um choque psicológico coletivo, uma regressão repentina produzida numa nação inteira – as imagens do 11 de setembro de 2001 repetidas infinitamente na TV e, em seguida, o Patrioct Act (a tortura positivada). A tortura do kubark continua aos “terroristas” em Guantánamo, mas a tortura da crise é a grande novidade do século XXI. Mais horrenda do que uma tortura religiosa e redentora, e do que uma tortura científica, agora é o tempo da tortura do impacto no coletivo. É a sociedade do controle, do medo, da confusão, e também, das maiores taxas de lucros e de concentração do capital. É o “capitalismo de desastre”, a “doutrina do choque”.

1Um fato brutal, mas interessante: Os agentes da CIA raptavam mendigos das ruas do Brasil e davam “aulas” de tortura aos militares brasileiros utilizando esses indigentes, que muitas vezes morriam"

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O que, então, está acontecendo nesse pedaço de terra do Caribe chamado Haiti? Uma propaganda. Uma enorme propaganda regada a sangue e a choques (não elétricos). O "bem", o capitalismo, a ONU, os EUA e seus capachos devolvem a dignidade à nação necessitada, trazendo a bíblia pós-moderna: o Evangelho da Democracia. Nele encontramos o deus Democrata que pretende libertar o mundo, ao menos nas grandes telas, enquanto o céu continua para poucos. A destruição do Haiti continua, uma destruição muito anterior aos terremotos. Eis a nova colonização, ovacionada pelo povo que se entope do lixo da grande mídia, a nova igreja.


Os alquimistas um dia quiseram encontrar a fórmula para transformar chumbo em ouro. Hoje os novos alquimistas transformam dor em ouro. Aliás em algo muito maior do que ouro: em ações. Através de sua alquimia e sua religião democrática pretendem criar o maior moto perpétuo jamais imaginado: seres desumanos engolindo e defecando capital, num ciclo infindável enriquecendo os insaciáveis super-homens de pés grandes que um dia esqueceram todos os profetas e os anti-profetas, não esquecendo apenas de si mesmos.

Querem nos esvaziar. Conseguem com muitos. Mas não com todos. Ainda estamos aqui.



Verdades

“Sim, o mundo é cruel.
Mas eu te pergunto, com que roupas

Vais contracenar o teu papel?” 1





Sua mente é o Império do remorso - fraca, influenciável, infiel
Lembranças corrosivas arrancam de sua alma lágrimas de dor
A falta de perdão, o desamor, o ódio para consigo mesmo
Como uma bomba ambulante prestes a explodir

Pões em risco não só a ti,
Como também àqueles que encorajam-se a romper as barreiras de sua auto-flagelação
Num ciclo de auto-comiseração segues o caminho que ao vento convir
Sem muitas escolhas, expectativas mortas
Alimentando-se do brilho do olhar da felicidade alheia
Vegetas numa vida-zumbi

Carregando todos os problemas da vida
Que mesmo que não percebas têm suas razões de existir
E hão de um dia despertar a vida em ti como um grito de dor,
Chacoalhando as paredes de seu subconsciente e levantando as grades
Para que te lances de cabeça erguida na batalha da vida



1. Zizi Possi - Mundo Cruel


Impassible (?)



Sinto que perdi um pedaço de mim
Não sei quem me olha no espelho
Até onde segui e quando me perdi
São completos mistérios



É como se o caminho para os sonhos
Tivesse sido desviado
Mudou-se o curso
Mas nada me foi avisado



E me pergunto se as escolhas foram realmente escolhas
Ou imposição social
Me pergunto se mais na frente esse atalho - se é que é um atalho - terá valido a pena
Se essa foi a porta certa, ou se não forcei a chave onde não devia



Não sei se grito ou se choro

Não sei se me revolto ou se me conformo

Encontro-me apática comigo mesmo..

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Não entendo o que quero dizer com minha boca.

Ela se mexe, sem dúvida,
Mas é o tambor no meu peito que grita.

Agonia

Acordei no dia primeiro como acordaria em qualquer dia 31. O relógio tá ali, o calendário novo também, todos os fogos de artifício e lágrimas não conseguiram parar o tempo. Que pena. Continuo me sentindo vazio e talvez seja isso que me faça escrever e andar.

Eu me sinto preso. Eu, Hugo, não os personagens de minha esquizofrenia.

Desde que criei o blog tenho vontade de ir embora, de começar a viver sem limites ou barreiras algo que poderia chamar de real. Talvez meu grande problema seja viver em nuvens. Ou talvez seja só meu egocentrismo e minha eterna certeza de não ser um qualquer. Ser um número me assusta, deprime, apaga, envenena.

E além de tudo eu me sinto só no meio de tanta gente. Vejo tudo aqui e fora da tela, as vezes é difícil achar um encaixe. As máscaras exigem todo o auto-controle que não sei domar.

Queria poder ser feliz de verdade. Queria trilhar o infinito.

Queria poder ser minhas palavras, ou ao menos vivê-las.