o Domingo de todos os dias


Minha vida hipotética reinicia amanhã
Com todas as escolhas que supostamente fiz,
Com os erros que cometi
E os acertos que acometi.
Amanhã ressuscito.
Crio novas promessas para destruir as antigas
E acordo escutando cantigas
Enquanto revivo sonhos mal-interpretados.
Todas as hipóteses de outras vidas morrem
Ao me conformar ao disforme,
Ao me encerrar nos que sofrem
Não encontro resposta que me console.
O fim se tornou o começo
E terminar deixou de ter fim
Já que em tudo que desprezo renasço,
Destino mordaz me quis assim.
Meu mundo torvo, torto
Meu mundo curto, corpo
Meu mundo preso, morto.
Minha morte (vagarosa) hipotética reinicia amanhã.

. . .

Sentado em um banco qualquer


Nem as lembranças se comovem
Com o velho corpo umbroso
Que corrói-se desditoso
E rói-se homem
.

Insuficiência

Não há mais um Deus
Nem um amor
Capaz de salvar o mundo
O meu mundo

Não há mais um alguém
Nem ninguém
Disposto a acordar
De sua ressaca de noites inférteis

Todos inertes
Vivendo nossas pequenas mortes diárias
Colhendo medalhas
Hipócritas de benevolência

Perdemos o todo
Mas mesmo assim não somos dignos do nada
De nada
Adiantam mais pílulas

Não há mais um Deus
Nem há um amor
Nem suficientes ateus
Nem suficiente dor