Fiel


Inda
te desejo
Em cada olhar desajeitado
Em cada gesto tão sobejo
Em cada texto inacabado
Te desejo agora e nunca
Revoltado e mal-amado
Destroçando a espelunca
Que é ser inacabado.
Remendado esse varunca
Carregado em tua coleira
Não tens dó nem de ser funca
E me seduzes p'la rabeira
Mulher dulcíssimamente vil
Cujo corno tem cegueira
Vá pra puta que pariu
E me deixa à ribanceira.

Ah, mas inda te desejo
E tremo à tua boca
Quando o verso é pago em beijo
E esse beijo tira a roupa
Ah, sim, como te desejo
Paisagem dos meus sonhos
Utopia com molejo
Fuga dos rebanhos
Dos tristonhos lá largados
Que nunca cheiraram teu cheiro
Só o cheiro dos cagados
E por isso são cordeiros
Como teu corno desgraçado
(A quem parece algemada)
Esse porco mal assado
Que te entope de almofadas
Que agora têm meu sêmen
Junto ao teu prazer gritado
Qual meus poros todos sentem
E me sinto todo amado.

Como te desejo
E espero todo umbroso
Por mais um dia que seja
Que eu possa te beijar o rosto
Por mais uma noite que seja
Que eu possa te dar meu gozo...
Mas como seria bom
Se não houvesse intermediário
E eu alcançasse teu colchão
Ao invés do teu armário
E se me desses tua mão
Ao invés daquele otário
Te doaria meu coração
Junto ao meu corpo vigário.

Inda te desejo
A cada dia desditoso
Que engulo teu desprezo
E me conformo em ser morboso
Inda te espero
Te procuro e tanto te quero
Pois não morre esse desejo
Em cada olhar desajeitado
Em cada gesto tão sobejo
Em cada texto acabado.


caixa de pandora.


“É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido.
É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu – só tenho o que sou.
E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi.”

Clarice Lispector


Ao fim do dia em que completei 21 anos não há nada que traduza melhor meu sentimento como o trecho acima da grande Clarice. Os últimos meses e principalmente nos últimos dias tenho me colocado em choque com lados de mim, que não pensei existir...
Não me sinto borboleta em meramorfose de lagarta, me sinto mais como uma “caixa de Pandora”, movida pela curiosidade do desconhecido.
Me deparar com o espelho e não me reconhecer, não era pra mim um clichê a certo tempo atrás. Eu acreditava que conhecia todas as esquinas dos meus sentimentos. Numa postura orgulhosa, tinha plena certeza de meu controle sobre meus sentimentos e desejos, apesar de certos deslizes depressivos...
Mas somos reunião de sonhos, desejos, complexos, amores, dores, morais – de Estado e de pais - e responsabilidades. Seres expostos a constante explosão pelo encontro de eu’s tão conflitantes.
A cada ano que passa, descubro uma nova parte de mim mesma, como um andarilho em terra vasta e desconhecida, por vezes me surpreendo com o que encontro. E quando acho que estou dominando o terreno, me pego em uma situação completamente imprevisível, que me mostra que como ser humano, não sou meticulosamente programada. As variáveis a me moldar são tão complexas como as partes que me fazem ser o que sou.
Quem saberá com o que mais me depararei ao longo de próximos 21 anos...

A ficção que crio são as cores do mundo

[trilha sonora pro poema:
]

.

Escuto um bom samba de olhos fechados
Sinto sua gota de suor deslizar em meu corpo
Um carro vendendo sonhos estupra a música
Mas logo se desfaz em nuvens de mel
Estamos tão bem vestidos de investidas
Que posso rir sem sequer me ver no espelho
E até posso rimar sem rimas
E poetizar com sentidos
Mesmo que não faça sentido
Mais nada no mundo que não tenha seu cheiro
De mulher pugnaz
De mulher cansada
De dias sem batuque ou sem fantasia
Escorremos nossas vidas na pista
Sem darmos pista do desamor
Crescente no intelecto relativizado
Das mortes dos nossos ideais
E de nossas ideias de aposentadoria
E dos nossos impossíveis 11 filhos
Ah, sim. Sinto seu abraço mais forte agora
Meu corpo já não te conduz
Minha mente já não me conduz
"Você não me ama", diz enfim
"Você não me conhece", respondo
E arranco suas amarras
E sua roupa
E seus sonhos
Para então por sua nudez pura
Criar minha nova religião
Rezar por tua impureza
Compartilhar minha insuficiência
Caçando hereges
E finalmente poder enxergar teus olhos
Ao fim do som
Perceber que o sonho podia ter sido comprado
Que o carro dos sonhos se vende por capital
E estupra as mais sonhadas músicas
Abortando 11 filhos
Do que nunca serei.


Mãe

Estremeço apenas em começar este poema
Já que minimamente será verdadeiro
E não apenas mais um personagem da pena
Dissimulada pelo fictício tinteiro.

Te vejo chorar uma vez mais
Encarando meus frívolos olhos
Que mal encaram o chão.
Te vejo estremecer a paz
Libertando verdades que pensávamos ter jazido há muito
-- E é tão pouco o que nos resta --
Mas que degustamos em qualquer atrito
Ou em qualquer festa.

Tremo. No entanto não choro
Mas vejo minhas lágrimas escorrerem em teu rosto
Assim como compartilho a tua frustração de obliterar sonhos.
Falta-me tanto, mãe
Falta-me tudo.
Sim, é aqui que choro
E é com um lápis que o faço.
Falta-me um mundo.

"Larga tudo, meu filho!", dizes por fim
Mas que certeza terei eu que a felicidade encontrarei assim?
Estás certa no entanto.
Agora que me prendo forçosamente a um personagem
Tenho que aturar -- e atuar -- a dor no peito da infelicidade.

Estou me escondendo em bares
Me deprimindo em leis
Falta-me tudo, mãe.

Todos os dias estão iguais
E as noites deixaram de ser tão rutilantes
Atuo com copos, com cigarros, com mulheres, com sorrisos,
Mas no fundo ninguém e nada me importam
Só estou tramando mais uma fuga.

Não, mãe. Não vou mais me assustar com teu choro
Pois agora sei que tuas lágrimas também são minhas,
Que minha vida também se torna um "poderia ter sido",
Que minhas noites viram dias.

E agora, minha amada mãe?
Largarei tudo ou aceitarei ser vivido?
Não sei e nem o sabe meu personagem imediato
-- Será mesmo que sou artista? --
Só sei que a noite me chama para outra fuga fingida
Pois me falta tanto, mãe,
Falta-me tudo.