Casca

Desde o tempo da Adega das Cebolas de Schmuh era necessário o descascar de algo externo para o pranto sincero corroer e correr o rosto. Por que , então, nos culparmos de forjarmos vidas nessas telas tão coloridas, mas ao mesmo tempo tão mortificadas? Descasquemos cebolas, já que a casca de nosso vigésimo primeiro século é mais forte que o pulsar milenar dos homens. A faca afiada arranca as peles da cebola condenada, mas arrancaria também a pele da pessoa amada? Descasquemos cebolas e choremos, não há mais lágrima que não seja vendida e dor que não seja comprada. Aqui estão a morrer de fome, ali de frio e graves intempéries, lá vemos doenças, desgraças, secas e inundações, mesmo assim a insuficiência é sempre confessa ao homem que rasteja atrás dos bem polidos sapatos de cristal da rainha capital. 'Não lute!', exclamam, e todos concordam que a desditosa vida do mundo atual é pura culpa da falta de vontade dos preguiçosos mal providos. Entretanto luto e esvazio meus pulmões e minhas forças pelos conceitos vazios da justiça e da felicidade. O mundo justo não está aqui, nem mesmo em sua reforma televisivamente controlada. Descasquem cebolas para que o pranto lhes surpreenda um pouco, seres de pedra, seres que não fervem o sangue ao ver a morte dos irmão terrenos, seres individuais e individualistas, vermes que escalam os ossos dos mortos em prol da farsa. As cebolas não nos deixam mentir e fazem rolar todas as lágrimas inconscientes da dor de viver o mundo desumano dos homens, descasquem-nas. E ao praticar tal ato, olhem-se ao espelho e vejam-se de verdade: não são maquiados, nem belos, nem deuses, nem possuem cores de filmes, pois não são filmes. Não é filme também o mundo a nossa volta, nem é passível de descrição subjetiva: morrer de fome não é escolha própria, tão pouco afundar na ignorância e na alienação. Aceitar a pós-modernidade é tatuar deliberadamente "cretino" na testa, é a falta de sentido do País das Maravilhas vendido nas grandes mídias. Vocês não são Alices, são meros servos da Rainha. Descasquemos cebolas, então, e que as cascas intransponíveis do homem cético e do homem niilista se vejam ao menos rachadas, que percebam que não há deuses e que não são deuses. As vidas fictícias das médias classes em tentativa de imitar as altas classes são no mínimo depressivas e risíveis. Não há ascensão, nem progresso por este sistema ultrapassado, não há verdade no sonho capitalista além do ter e do ter mais que o outro. Portanto, se quiser progredir assim, ao menos admita que é prostituído e prostituída, que tem medo, ou melhor, pavor de se mexer e ao menos tentar mudar e se mudar, que lhe é confortável passar os dias como observador falsamente neutro e bondoso. Ao menos descasque uma cebola, descasquemos todos uma cebola para que ao fim do dia não nos esqueçamos que ainda somos humanos. Não nos esqueçamos que o computador, a televisão, a revista, e todo o mais que possui valor para o mundo que se crê evoluído, não é de carne e osso, não passa fome, frio, sede, angústia, pavor, dor,

indiferença.

Que ao menos suas lágrimas forjadas, assim como suas vidas, esquentem um pouco o rosto e o coração frívolo daqueles que são passíveis de passar pela vida sem querer fazer diferença alguma. Suas fotos e vidas artificiais são iguais, exatamente iguais, a qualquer outra foto ou vida artificial.

A morte da indiferença será conquistada, assim como a morte do capitalismo. O mundo livre um dia nascerá em seu vermelho céu matinal. Enquanto ele não chega, que fiquem a descascar cebolas aqueles que não honram a sua humanidade.

AMOR
DAÇADO
NÃOÉJA
MAIS
DANÇA
DO

A existência é controlada

Respire, respire
Não ouse suspeitar
Não ouse suspirar
- respire, respire -
A existência é controlada
E inexiste a desistência
Pois optar é passado
Em um mundo cooptado
- respire, respire -
Mantenha o olhar no fixo
ponto ideal de nossas regras
Mantenha seu corpo movente
e nosso corpo docente
caminhando ao lado dos mártires
- respire, respire -
A existência é controlada
Seja aqui, acolá, ou muito além
Nossos deuses lhe observam
Siga nossos passos
- respire, respire -
Tudo que passa por seus passos
Foi passado no papel
É um roteiro da mesmice
Confortável do conforme
- respire, respire -
Não ouse amar, apenas tenha uma mulher,
uma casa e alguns filhos
Tire retratos e mostre aos outros
seus atos e suas credenciais
- respire, respire -
A existência é controlada
A desistência é negada
Mas surge como um sonho,
Um desejo que se finge inerente,
Mas você não vai morrer
- respire, respire -
Lhe damos apoio, suporte
Só precisa ajoelhar
E assistir nosso mundo viver
Nosso belo mundo televisivo
- respire, respire -
Além de respirar, aspire
Acredite nos ideais que inventamos
Que realmente há liberdade
E que nossas armas são para os maus,
Nós somos a luz
- respire, respire -
A existência é controlada

Libertar-se é sofrer
Amar é doer
Viver é romper

Não mais respiro seu ar pútrido

Não respiro!

Existência (des)controlada


20 anos (egocentrismo)

sinto-me envelhecido agora nesta nova década de minha vida. costumava planejar uma morte aos 27, algo magnífico e glamuroso, uma overdose em meio a um mar de flashes. faltariam 7 anos para o fim. agora mal planejo o amanhã, quem me dera fabricar mortes cinematográficas. é só mais um ano, mas ao comparar as fotos pareço cada vez mais consolidado, fica difícil desviar do que pareço ser. olheiras mais fundas, menos graça, mais cachaça. amizades profundas, pessoas profundas. agora são os vinte e poucos anos, sinto um progresso nisso tudo. envelhecer não é tão chato assim: perder todas as certezas; construir mil castelos com cartas de baralho em meio à ventania; sentir que um abraço é mais forte que a rotação do mundo; lutar, lutar e lutar mais. costumava planejar a morte e os flashes, o glamour e a fama de um mundo vazio e sem ideais. hoje já sei o porquê de lutar, o porquê de existir.

hoje vivo. e por mais que me doa, um dia serei - e seremos - livre(s).

feliz 21 de maio.
- O ATAQUE DOS ZUMBIS PÓS-MODERNOS -

Seis e quinze. Toca o despertador anunciando a rotina. Sim, ocorria uma vez mais a magia de ficar mal-humorado em apenas um segundo. Segunda. Retirou seu corpo nu dos abraços dos cobertores e sentiu o inverno do sul do Brasil. Logo seu rosto possuiría o azedume de sempre, faltava apenas um pequeno detalhe. Água fria. Sim, água fria, remédio aconselhado pelos médicos de Harvard para curar o bom-humor estúpido que assola pequena parte da população segunda-feirista mundial. Agora sim podia olhar para sua imagem no espelho e falar “porra”, ou “que merda”.

------

é uma história que tô escrevendo, espero algum dia terminá-la! lembrou-me muito o que vai ser minha manhã amanhã.. :D
um abraço a todos que me acompanham aqui!

Alegria


Não mais existo
Perdi-me em tantas faces
Não mais insisto
Perdi-me em tantos cárceres.
Não há mais um eu,
Mas um bando de peles
Que o tempo esqueceu
Em suas intempéries.
Escolhi a ausência,
Colhi o podre fruto
Da vida em falência
Sendo só, em estado bruto.
Não sei discernir
O ódio do amor
Nem sequer sentir
Qualquer calor.

fujo de tudo, de todos,
lôbrego, procuro no espelho
o fundo do poço vazio
de meus olhos vazios,
mas não há fim
a quem escolheu impor ao coração
uma vida severina,
pois o fim apenas seria

Alegria.


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Alegria:

no fim apenas seria
uma vida severina
de quem escolheu impor ao coração
que não há fim.
e meus olhos vazios,
o fundo do poço vazio
lôbrego, procuro no espelho,
fujo de tudo, de todos:

De qualquer calor.

Nem sequer sentir
O ódio do amor.
Nada sei discernir
Sendo só, em estado bruto.
Da vida em falência
Colhi o podre fruto
Em suas intempéries
Que o tempo esqueceu.
Em um bando de peles
Não há mais um eu.
Perdi-me em tantos cárceres
Não mais insisto
Perdi-me em tantas faces
Não mais existo.



Compromisso


.....Antes que você acorde já estarei vestido e pronto pra partir, mesmo que meu calor ainda não tenha se apagado em sua cama, muito menos em você. O sol mal acordara e já estou cumprindo minha sina de passos solitários em ruas movimentadas. São tantos olhares que passam despercebidos, tantos olhares que nada mais são que olhos foscos e rotineiros -- tantos olhares que não são o seu. Antes que haja um questionamento ou qualquer arrependimento já não estarei mais, apenas serei uma boa ou má lembrança, tanto faz...
.....Meu compromisso é com a solidão. Essa velha senhora que me segura a mão e as vezes se finge de sombra que eu sei. Escuta meus problemas pacientemente e as vezes mente para não me ver cair. A solidão está sempre ao meu lado, é um fio atado à realidade.
.....Logo seu rosto só será mais um rosto em meio a tantos rostos que passam por mim, olhando-me e vendo paisagem. Pode ser que não, e me olhe com saudosismo ou ofensa, coisa que durará somente o tempo de outros olhos lhe encontrarem. Só restará a morbosa lembrança de um pequeno amor. E são tantos pequenos amores, os quais faço questão de matar logo de início - talvez um aborto prematuro e impensado. Porém de todos eles levo batidas do (e no) coração, levo paixão e perfumes angelicais, mesmo que eu não acredite em anjos. Vão me fazendo, assim de mansinho, viver, angustiada e apaixonadamente, vários desamores e amores negados totalmente voluntários.
.....Mesmo assim finjo que não sou o ator principal, muito menos o autor de minha obra.
.....Culpo a todas elas por me deixarem! Como elas não descobriram meu número? Como elas não adivinharam que eu as bloquearia na vida internética ou que usaria caminhos diferentes para não topar com seus corpos? Elas tinham que ter corrido atrás de mim, não concorda? Por isso a solidão sempre me seduz. Ela está ali me esperando, mesmo sabendo que a traio todas as semanas com alguém diferente, mesmo sabendo que a ignoro e finjo que nunca a conheci quando encontro outra bela mulher. Nunca conto para nenhuma delas que amei a solidão, que passei noites abraçado a ela, que lhe escrevi poesias, que chorei ao seu lado, que lhe confidenciei meus maiores segredos, que procurei por ela ou que continuo a procurá-la a cada despedida...
.....Sou um cafajeste. Não permito alegria ao meu coração e prefiro me abrigar em casamatas esperando uma guerra impossível a ter que precisar de alguém ao meu lado.. E eu já tenho esse alguém, não é mesmo?
.....Sim, isso é um termo de compromisso. Je te veux près de moi tous les jours, ma chérie. Minha solidão.
.....Casa comigo?

- - -

ps. já que este post está tão cheio - ou vazio - de amor:

Fila


eu era empurrado
............empurrado
.............empurrado
..............empurrado
...............empurrado
............empurrado
.............................................mas um dia dei um passo ..............pro lado




e nunca mais voltei

-

ando meio triste



All i want is your understanding
as in the small act of affection.
'Why is this my life?'
is almost everybodies question.
Well I've tried
everything but suicide
but it's crossed my mind.
I prefer peace
wouldn't have to have one wordly possesion,
but essentially I'm an animal,
so just what do I do with all the agression?
Well I've tried everything but suicide,
but it's crossed my mind.
Life is a one way street, ain't it?
If you could paint it, I'd draw myself going in the right direction
so I go all the way like I really really know
but the truth is I'm only guessing.
And I've tried everything but suicide,
but yes it's crossed my mind, just a thought.
It's even dark in the daytime
it's not just good, it's a great depression.
when I was lost I even found myself
looking in the gun's direction
and so I've tried
everything but suicide
but yes, it's crossed my mind
but I'm fine.

( Just a Thought - Gnarls Barkley )
Meu amor

infinitamente maior
que este versículo
ridículo
abrace

abra-se a mim, querida
não suas pernas
mas sua ferida

profissão

parecia um verme
recém cagado, indigesto
porém usava terno
e bradava "Protesto!"

Abstinência

Decidi quebrar minha cabeça e fazê-la em pedaços
Na tentativa de repor meus pensamentos
Ou melhor, de dissipá-los, desmanchá-los, lançá-los ao léu, para além dos sete mares
A verdade é que a toxina me sobe veia acima
E me enévoa a mente

Decidi repudiar os desejos
A carne, a maçã, a serpente
Tornar-me Buda ao pé da montanha
Ou bérbere no deserto
Sem interferências ou sentimentos alheios
Pois a muito me perdi
Na frustração pela inércia de outros

Decidi pelo grito entalado na garganta
Dane-se a dependência
A expectativa e a subserviência
Andar em corda bamba, e campo minado
Falar com medidas e agir a contento

Decidi que quero o nada,
Por que o tudo já não me faz bem.