ao poema que a alice escreveu aqui

'ai deus, como dói'
queixou-se a menina em meus braços
tanto, tanto
era seu amor
que escorria seus olhos

ela pensava em muitas coisas
em clarissas e alices
em bobagens e meninices
e pensava no sertão

sertão incerto
-peito aflito, humano, finito-
sertão incerto

deu-me um colar há tempos
com seus dentes de leite
enroscados nos seus cachos mortos

e também me deu vida
ao crer qu'eu creria
ao crer qu'eu queria

mas nesse
sertão incerto
como dói
deus
como dói

perguntamos de futuros
pensando em passados,
não aguentamos o mistério
e assumimos a culpa

'impossível'
'talvez', lamento
'não lamente'
'eu tento'

e ela volta ao fundo do mar
(que mar? queimar?)
cristalino, áurea sorridente
'menina num mente'

e hoje? hoje é também amanhã
todo o mais é menos,
menos nós

e a lembrança
ah, triste lembrança,

esse sertão incerto,

como dói, deus
como dói o adeus



"If you didnt care what happened to me and I didnt care for you, we would zig zag our way through the boredom and pain, occasionally glancing up through the rain, wondering which of the buggers to blame, and watching for pigs on the wing ... You know that I care what happens to you, and I know that you care for me too. So I dont feel alone or the weight of the stone, now that i've found somewhere safe to bury my bone. And any fool knows, a dog needs a home, a shelter from pigs on the wing."

o Gato e o Plano


Do planalto impunemente cerrado
Brasileiro torpe, famigerada farsa
Avista-se sorrindo Cheshire acuado
Pela verborragia que sua fome traça
Ao centro do verde-amarelado drama
De alpercatas e desempregos periféricos
Encontra-se um encontro-trama
Amaldiçoado de berço pelos lexméritos.
Cheshire gargalha lunarmente em frente
Aos atos e fatos de pretensa esbórnia
Pela pequenência (essência) pequeno-burguesa
Que de sobremesa engole vômito e queima córnea.
Contudo, o gato também se comove
E move-se à luta escondida entre sopros
-E move-se a luta forjada entre sopros!-
Pra uns: alvorada. Aos gorilas: engov.
Da luta se extraem vidas, dos olhos gritos
E mais gritos que constroem armas
E mais armas que constroem nós, aflitos
Nós e gritos, nós e o chão, nós e mais nós enroscados nas palmas
Nós, mas tão sós, consolidam-se flores
Vermelhas dores plantadas no peito
E regadas a injustiça, capital e horrores
Nós somos corpos que recusam o leito
Pútrido e benevolente da ação de aceitação
Corpos que consomem leis em deliberada bulimia
Corpos que atritam, tremem e se dão
Corpos que se enlaçam: nós. Não hierarquia.
Espanta-se Cheshire com o vermelho-sangue
Que banha o centro mórbido do mundo brasileiro
De seu sopor revive sorrindo ao mangue
E encenando o céu como inteiro.
Por entre sotaques, cores e beijos
Sopra a brisa do movimento estudantil
Direito que mata a direita:
Sonho de um novo Brasil.
E ao caos entregues vivemos
Seja lá em terras lexsagradas
Seja nos vários aquis desiguais de mentira
Vivemos. Entregues à luta
Vivemos.
O gato se assombra
E o plano traçado no planalto
Só faz sorrir bamba
E comunista que vence o asfalto.

Contraescola

Empolgado com o livro De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso resolvi voltar com os textos não fictícios no Rotineiro.

Wonderland

Ao fim da leitura do livro de Eduardo Galeano somos obrigados a nos enxergarmos nus, sem qualquer máscara ou fantasia perante as farsas do mundo do vigésimo primeiro século. Assim como Alice, vivemos num mundo de fantasias e maravilhas. Todos os dias somos bombardeados com o progresso, com luzes e cores construídas em laboratórios, com vidas fabricadas em estúdios, com ideias por nós impensadas, mas mesmo assim assimiladas. Vivemos os sonhos de uma humanidade que nós é negada. Vivemos uma contra-vida, um mundo de maravilhas que nunca será alcançado nem por mim, nem por você. Vivemos um nada. E neste nada acreditamos ser tangível a igualdade: cremos na oportunidade.

Oportunidade e oportunismo

O mundo da oportunidade se abre nos noticiários todos os dias: são milhares de vagas de emprego. O senso comum, o qual também é construído pela mesma mídia do progresso, assegura-nos que há vagas, o que falta é a iniciativa dos tanto milhares de vagabundos. A farsa parece boba assim contada, mas se nos vermos desde o berço imersos na falácia capitalista tudo faz sentido. Faz sentido gastar a vida em bens, reprimir qualquer diferença, reprimir qualquer inconvergência, viver robóticamente e ignorar qualquer verdade.
Não há oportunidades no mundo capitalista do século XXI, há oportunismo. O sistema continua funcionando por sua ideologia ultrapassada e sinistra, a qual está presente em cada mínimo fragmento do cotidiano. Um exemplo: ao estudar francês leio um texto sobre progresso, sendo que um casal que queria gastar tudo que tinha e financiar o que não tinha em um carro pensava no progresso, enquanto o personagem que preferia manter sua bicicleta e denunciar o consumismo era taxado como anti-progressista. O livro é francês, portanto pode-se perceber que o capitalismo globalizado consegue propagar facilmente e de forma satisfatória sua ideologia por todo o mundo. Todos os jovens burgueses e pequeno-burgueses (ou seja: quem vai manter o sistema, os primeiros ativamente e os outros de forma passiva) assimilam a mensagem do vazio. O medo que o capitalismo tem da juventude conseguiu ser atenuado com a cultura do "fome-vento", a fome do nada, a sede de lixo.
Crescem, assim, novos robôs que acreditam num mundo de oportunidades neoliberal, o qual é maquiado com as pequenas reformas sociais conquistadas com sangue e fome dos pobres. Estas, no entanto, são muito pouco frente à real situação do mundo fora das telas de bilhões de cores artificiais. A garantia em leis é a piada mais dolorosa.

Reprodução da acefalia

No curso de Direito é fácil de notar a desinformação da minha geração, a qual vive engolindo inutilidades e se cegando para a realidade. Acredita-se de coração que as leis tem papel significativo na mudança do mundo. Contudo se visitamos uma comunidade carente ou conversamos com qualquer pessoa que esteja à margem do sistema, percebemos uma visão muito mais clara e menos idealista da dos engomados estudantes de direito: as leis só servem pra manter o sistema. A repressão institucionalizada da pobreza pode ser comprovada empíricamente contabilizando o número de pobres e o número de negros em nossos presídios. Não há um prisioneiro que seja rico. O recorte de classe é óbvio e há ainda os que digam que luta de classes é ficção dum velho barbudo.
A garantia em leis de direitos trabalhistas e direitos humanos nada mais são que palavras, papel. É uma perspectiva pessimista e que pode lembrar Lassale, mas com mero contato com a realidade (e isso pode ser feito se olhares pra fora da janela da tua casa) garanto que o Direito é um sistema falido. O que sobra de útil nele é a coerção, a qual é fundamental -- essencial -- para a existência do capitalismo. Sem a repressão, os países atualmente em crise não manteriam a selvageria do mercado, nem aceitariam a coleira de espinhos do FMI.
Junto à coerção da lei anda a ignorância propagada pela mídia. Como escreve Galeano em seu livro, as crianças que não são ricas o suficiente para serem tratadas como dinheiro, ou pobres demais para serem vistas como lixo, vivem algemadas ao televisor (e agora também ao computador), para que se acostumem desde cedo com seus destinos prisioneiros. Limitar: é tudo que fazem as grandes mídias. Lá já existe um mundo auto-suficiente: existem artistas, sorrisos, crimes, soluções de crimes, vidas reais, vidas fictícias, mortes, músicas, tudo. Nós só precisamos assistir. Só assistir. Se percebemos que isso se remete também quanto ao nosso papel perante à História notamos a mediocridade da ideologia dominante. Somos criados para sermos meros espectadores, gostarmos de sermos espectadores e zombarmos de quem procure qualquer diferenciação do status quo. Cérebros em degeneração, reprodução da acefalia.

Não há fim da história

Lendo Fukuyama me senti tentado a acreditar que a democracia liberal garantiria tudo que a humanidade sempre precisou e que a desigualdade se dá pela "natureza" humana. Após alguns dias de surto voltei à realidade e foi fácil de logo me resensibilizar com o mundo e sua angustiante peleja por mudança. A naturalização do desemprego e da fome já nos soam como normais, assim como os índices estrambóticos de prostituição infantil ou viciados em crack. Somos forçados a acreditar que os bilhões de infelizes existem não pela imposição de uma vida artificial em prol de uma ínfima casta de bilionários, mas pelo corpo mole e falta de sorrisos ou amor no coração. O capitalismo nunca admitirá ser o câncer do mundo, ao mesmo tempo sempre tentará nos fazer de câncer do mundo. Quem destrói o mundo é o homem, não o capitalismo. A grande cultura da hipocrisia e da insensibilidade cresce à base de violência e mentira.

Luta diária

Ser diferente num mundo de centralizações é um desafio diário. Negros, homossexuais, sem-terras, mulheres e todos e todas os outros e as outras oprimidos (as), sentem na pele toda a discriminação do moralismo e tradicionalismo que conservam uma linha de pensamento repressiva e também essencial ao mundo capitalista. É necessária a monogamia, a família, a continuidade dos bens e do sucesso. Mulher é dona de casa, menina também é. Mulher cozinha no fogão de ferro, menina no fogão de plástico. Negro nasce na favela, negro mora na prisão, o único negro que é bem sucedido é o negro de plástico da televisão. A homossexualidade deve ser tolerada, não aceita como amor. Amar é maior que corpos. Capitalismo é maior que pessoas e ele as aprisiona em todas as suas teias gosmentas invisíveis, prendendo corpos e sugando ideias e sonhos. Sobram humanos vazios, sem um sentido maior para a vida, sem a dignidade de viver, sem a vontade de ser. O sistema capitalista, em seu estado selvagem e final dos nossos tempos, nos priva da felicidade. Tornou-se um vírus mundial que destrói tanto o mundo quando seus viventes. Corrói os cérebros e não se faz visível, esconde-se em todas as frestas possíveis e lança seus projetos maquiados a todos os momentos. Nos vigia a cada segundo e nos persegue a cada passo, vive em tantos corpos azumbizados que a reprodução impensada de seus discursos em tantas bocas assombra qualquer um que reflita o mínimo.

Contraescola

Termino o texto com o começo do livro de Galeano, ainda sem conseguir esquematizar tudo que queria dizer, muito mais levado pela minha angústia de assistir a vida de morte atual do que por qualquer razão positiva.

"Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo ao avesso. Quem não é prisioneiro da cidade é prisioneiro do medo: uns não dormem por causa da ânsia de ter o que não têm, outros não dormem por causa do pânico de perder o que têm. O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, nos reduz à solidão e nos consola com drogas químicas e amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de fome, a morrer de medo ou a morrer de tédio, isso se uma bala perdida não vier abreviar nossa existência.
Será esta liberdade, a liberdade de escolher entre ameaçadores infortúnios, nossa única liberdade possível? O mundo ao avesso nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime, assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco escola que não encontre sua contraescola."

Façamos a contraescola, a contra-hegemonia, a luta. Aos do Direito: lutemos pelo oprimido. Se o advogado não luta pelo oprimido não é advogado, é mera engrenagem do nefasto abatedouro capitalista. Lutemos pela nossa libertação, façamos a História.




'Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus me deu Ai Deus me levou'

poema que eu, alice, escrevo aqui, agora; para o blog do hugo.

e aquela tal moça
que amava deus
tanto tanto
que quando o rei disse a seu pai:


"mas ela tem uns olhos brilhantes, brilhantinhos!"
a moça arrancou o par de ametistas
e disse:
"sou casada só com o meu senhor"


por que arrancastes os olhos, moça?
ainda hoje lutamos
para que não arranquem os olhos
ou ao menos, arranquem menos...


eu penso em muita coisa assim
penso em comer manga no sertão
penso nas grandes questões
penso no mar

que desfaz
aquele deserto de mim.

despois não penso em nada.

é estranho estar calmo

aqui no fundo do mar
a água é mais cristalina
e mais fria
formam-se correntes que vão da costa oeste no paralelo 42
até a bahia da guanabara que jamais conheci.


antigamente eu faria para ti
um colar com meus dentes
enroscados em um cordão feito com meus cabelos

e hoje
e hoje mein kamarad?


vamos fumar mais esse
beber mais essa
ler mais isso
enfiar os dedos naquilo
vamos gozar aquilo
vamos gargalhar a luz de velas
vamos tomar no cú

e vamos rezar agora:


"silêncio
meu deus esta aqui
e ele diz
que nos perdoa"
se não perdoar a todos,
perdoa ao menos o camarada rodolfo
que tem muito coração
nós só temos um futuro

impossível

totalmente improvavel!
um futuro que não virá.
um futuro que se presta ao soluço.
lembrança que se prestará
a nossa tristeza mais profunda
profunda
e linda
e total!


chico: "é verde, é rosa!..soberba, garbosaaa, é um catavento a girar..."

um pouco

mandioca, macumba
peja em dessintonia
peleja
aos nossos uma fúria
espuma de sambas
numa budweiser


surge


Rodolfo: Dessa vez eu garanto que não haverá relacionamento sério...
Hugo: Não garanta nada, Rodolfo.
Alice: É. Não garanta nada.

não garanta nada
uma bela poesia

alforria sóbria do pouco álcool em noite dum quinto andar.

Oh Marieta
finada marieta
donde embriagam-se poemas
se nos cortaram os dedos?

mandioca
macumba
não garanta nada
qu'escape da garganta.