Palavras

Sempre preso à literatura, à poesia, às artes em geral, para fugir de um mundo que não aceitava como realidade, Aldo sorvia o doce caldo da harmonia em meio ao caos cotidiano. Passou correndo, porém não desatento, pelos anos áureos da academia, engolindo indômito todos os escritos da História. Assistiu a ascensões e quedas, romances e tragédias, amizades e rivalidades, tudo pelo filtro de seus preciosos signos, os quais também passara a produzir e depois a publicar num blog e também nuns livros que ninguém comprou. Na solidão lia, relia, escrevia, rescrevia. Acreditou, assim, que havia encontrado a felicidade.

O que acabou com sua belle époque foi o cotidiano movimento dialético, o que lhe expôs o peso das correntes que as belas artes antes lhe impediam de sentir. O tato, assim como os outros sentidos de Aldo, eram moldados historica e materialmente, mesmo que ele não aceitasse essa verdade durante muito tempo. Ao se dar conta do real e olhar além de si mesmo, degustou lentamente o sabor pútrido da agonia. Viu o mundo, sofreu o mundo, sentiu-se só. A solitude agora lhe era uma farsa, via um futuro taciturno, silencioso e morbo.

Engajou-se em mil lutas sociais a fim de garantir o mínimo de estabilidade psíquica. Engajou-se também num projeto de morte, sendo achado pelos colegas do último ano de faculdade nas ruas imundas da desigualdade. Embriagava-se e acordava em camas de mulheres, de homens e também de seres solitários, aos quais apelidava de "espelhos". Costumava às vezes ingerir qualquer coisa que lhe fizesse acreditar em deuses. Encontrava-os no Olimpo, no Paraíso e nas nuvens insólidas de sua mente cansada. Perdeu toda sua honra. Vil, fez-se invisível na bruma das relações humanas, tão incertas e hipócritas quanto seu antigo sorriso.

Viu Maria casar com José, João com Célia, André com Lurdes. Viu Pablo ganhar seu primeiro milhão, Sueli engravidar de gêmeos, Marcos montar um escritório de advocacia, Carla se mudar para o litoral. Viu toda a previsibilidade, o agir intenso do status quo. Aumentou sua dose diária de descrença e vendeu a alma aos demônios mais mal intencionados para não acabar como um personagem de novela, ou melhor, para logo acabar - tudo acabar. Aldo se tornou um opróbrio e, nos delírios ilógicos de seus ideais, ao mesmo tempo um símbolo. Era a antítese, o mal-exemplo que seus antigos colegas davam aos seus filhos vazios.

Viveu mais 10 incertos anos. Largou os ideais mais nobres para cair noutra espécie de conformismo: a desistência. Impávido desafiava a vida, tencionando seus extremos todos os dias. Sua pequena revolução substituíra os livros, os sonhos e as paixões invernais, enquanto a falta de sentido ficou no lugar do imenso vazio que o preenchia. Perdeu o brilho dos olhos e também o calor do tato. Perdeu o contato com os amigos e com a família e também o emprego e toda sua enorme poupança. O que restava ao fim de 10 anos que havia largado a faculdade era um ser anódino, preso na casamata inventada em seu interior destruído.

Aldo tropeçava em sua sombra e não suportava o espelho. Encontrou Lurdes um dia no semáforo, ela num carro europeu, ele na janela pedindo dinheiro. Apesar da barba e das rugas lapidadas pelas dores da vida, ela o reconheceu de imediato e junto a algumas notas lhe doou um livro e algumas palavras:

-- Você poderia ter se amado um pouco, Aldo.

Foi o bastante para causar-lhe o ódio e o desespero, um soco no capo e algumas lágrimas no caminho para seu canto de mendigo voluntário. Rasgou algumas páginas do livro, fez um baseado e tomou um gole de pinga. Sem querer leu um pedaço do romance, o qual já havia lido muito tempo atrás em seu castelo irreal de nefelibata. Não conseguiu conter novamente a agonia. Encontrou um computador numa sala qualquer, escreveu por três dias seguidos. Não dormia mais, nem comia ou bebia, apenas amava novamente seus signos. O álacre alarido mudo das palavras lhe contagiava e mais uma vez lhe tirava do mundo numa fuga filosófica e social.

Ao fim de uma semana havia terminado um livro que desvendava todos os mistérios do universo interior humano. Leu junto ao tambor incessante de seu coração cada palavra escrita. No entanto, ao invés de explodir de felicidade por sua maior conquista, foi perdendo a cor e acumulando mágoa. Perdeu a conexão com suas palavras, já não sentia que elas lhe pudessem expressar ou mover - ou ainda comover. Releu cada letra que escrevera por toda sua vida. Nada mais lhe fazia mexer um músculo sequer. A extrema tristeza foi lhe possuindo aos poucos e a fome imposta lhe surgiu como desculpa para morrer. Sentou-se, então, num dia qualquer na biblioteca central de sua cidade, leu algumas linhas que não mais lhe completavam, assistiu um pouco mais ao mundo que nunca quisera e deitou a cabeça pesada sob a mesa antiga, deixando que o vazio eterno lhe acalmasse a alma - sem qualquer signo, símbolo ou arrependimento.


Análise I

Fricção
Ficção
Fixação
Ficção
Fix-action
Can i?

Ficção

Et mourir
Et mourir

Can i?

Caixa de entrada

Havia mais de sessenta mensagens. Umas muito velhas, outras de horas atrás, porém todas de um tempo que agonizava. Fixou os olhos e a mente no botão do celular, sabia que era a última lembrança.
- Apagar Tudo?
- Ok.
Salta-lhe aos olhos uma última palavra, que ele sabia ser muito maior do que o seu contexto: 'vazia'.

Vazio ficou, sentado, numa mesa solitária, numa tarde solitária, numa decisão solitária, compartilhando com seu silêncio uma dúvida eterna e a certeza da saudade.

SANGRE

Me pego em meio a esta fotossíntese
Gritante, enraizada, póstumamente desgastada
Lobriga da fome d'um mundo sem tese
Mas síntese da foice-martelada
Raça medíocre do desmundo desnudo
Rosa e(n)rosado canteiro agudo
Sem lógica do canibalismo financeiro
Asno ingrato negador parteiro
Do inerme vivo-morto alpercatandante
Cancioneiro poetético invivido furo
Da razão cirúrgica d'implante
Nebuloso d'ótica errante d'um furo
Deontológica sem lógica ou beira
Pro suicídio planejado nefastonrado
Pela horda da horta plenamente rasteira
Da grande queda do ínfimo achado
Ouro de toda rogada rouca modernidade
De fios extensos e tensos da desigualdade
Planejada em acordes sem sinceridade
E acordos de saco-coçada hombridade
Por poucos, muito poucos, tortos
Nada loucos, granabsortos
Idealistas endeusados mancos
Tortos andarilhos de meu enfrentamento
Sem freios ou fugas em flancos
Imberbes discursos do curso de intento
Errante, falante, castrador de nuvens
Que desmancham no ar pesado
- vermelho, forte, armado -
Qualquer sólido,
Até a vitória.

(re)compor

de tanto juntar meus cacos
já decorei a sutileza do adeus
que inerme se forma em meus lábios ocos
e em meus passos sem os teus
- os quais devo apagar.
por tanto fingir poesias
vejo o lustre estrelar
com o rutilar de suas hematitas
que não mais estão
deixando-me hematomas
e a incerteza de um sertão.
perco minhas rimas em lembranças
e minhas lembranças na mimese
rotineira angústia da comum imundice
de quem insiste em viver a tese
de que a agonia há de ter fim.

Microcosmos

Alguns meses. Três, quatro ou seis
não importa, sendo o racional menos que existente
e o mundo fora de mim ainda mais distante
fronte galante: o assombro vive à frente

O amor sempre fora fungível
e sempre será uma farsa,
o que nos movia era a crença no incrível
caídos em estado de Graça

Mas agora me vejo como o resto comum
feita a fantasia um velho novo lixo
em meu aterro entupido até a boca
de fábulas queimadas por fumo e rum

Lá éramos uno, mas muito maior é minha cratera
exposta aos poucos estudiosos das geografias humanas,
acabei sobejo sem refúgio
desmascarado pelos trejeitos que abuso

Como sempre, encontrei o finito
e o adeus dos infinitos olhos
que miraram os meus com tanto mistério
obrigando-me a recriar meu ser - em outro parecer

Reconhecimento

"Há de ser bom um dia!"
dizem-me de pronto
alimentando o pranto
do dia que não vai chegar

lassidão que engole
o jantar da solidão

(vejo-me nu ao espelho:
nem os dentes se safarão)

"Tenham piedade de nós"
ó todos vós, deuses do mundo
mas mais ainda vós, burgueses
perdoai nossa pobreza, feiura e tristeza
perdoai nossa baixeza, imundice e falta de comida na mesa
"ora, as vacas andam magras"
e mais magras desfilam as vacas do absurdo,
anoréxicas das passarelas capital-estetisuicídas
que instigam minha bulimia diária

Tão fundas eram as covas dos nazistas
- tão fundas são nossas olheiras -
que "Esqueceram de enterrar os comunistas!"
- Mas que pena senhores...
vivem os ideais
e também os pobres nefelibatas
vis estupradores de anjos
(os tais homofóbicos de traseiros alargados)

"Todos hipócritas!"
mas todos (in)felizes
compradores de margarina

"Ne me quittes pas..."
- agora é tarde
sempre foi tarde
tarde demais
para nos deter

Maré vermelha de micro-algas pirrófitas
MATA! MATA! MATA!
pois sem morte não há Hollywood
nem motivo pra pranto
nem enterro pro whisky
nem aquela viúva safada pra me dar

Fico na espera
mesmo sem esperança
e se meu idílio plangente
recomeçar do avesso
ou do começo
- ou do cu da sua mãe -
conforte-me com seu apreço:
"Há de ser. um dia"

Mente pertubada de um humanista moderno



*

Abrigo vazio

Alma vagando desencontrada
Como pode o desespero ser mais palpável que a felicidade?
Por que acreditamos mais na dor que na esperança?
Porque nos ligamos mais à matéria, aprisionando a mente

A vida humana é clichê
Vivemos e cometemos os mesmos erros
Mesmos pecados, mesma desilusões
“à passos de formiga e sem vontade” como sentencia a canção

Na desenfreada busca dos desejos
O homo sapiens sapiens na cegueira da modernidade
Conhece o que é certo, mas persevera no erro
Na desculpa de que tudo é passageiro
Mas o erro não é
Este permanece manchando nossa alma
Denotando nosso atraso


Iludidos seguimos, angustiados, stressados, ansiosos,
Cansados, depressivos, em busca de algo que não sabemos
Talvez do pote de ouro no fim do arco-íris?
Da felicidade nos números da mega-sena?

Rumamos desengonçados ao infinito do vazio
Vazio este que nos conforta ao dormir
No fundo não queriamos casa, carro, ou um milhão...mas o sentimento de pertencimento a algo que faça sentido
Mais sentido que a força que nos obriga a deixar para trás o abrigo,
vazio.

*