Crítica a John Gray

Olá pessoas! Devido a um trabalho de sociologia fiz uma crítica ao professor John Gray (mais especificamente à obra Falso Amanhecer) que compartilho aqui com vocês. Sintam-se livres para comentar, discutir, etc.


"O fim do laissez-faire"

A insustentabilidade do modelo econômico atual é compreendida por John Gray em sua obra Falso amanhecer, sendo sua devida mudança estrutural necessária. Governos baseados no neo-liberalismo, entendido por Gray como uma frustrada repetição do laissez-faire Europeu anterior às grandes guerras mundiais, submeteram o mundo globalizado à anarquia dos mercados desregulamentados. A falsa crença nos ideais liberais, como o progresso, fez do discurso da tragédia neoliberal o passo adiante do liberalismo. Porém, em vez de aumentar a liberdade do homem, a submissão aos mercados globais desregulados com a total liberdade destes a partir das políticas de Estado mínimo nos transforma uma vez mais em escravos do sistema. A emancipação do homem se daria, segundo o autor, pela maior regulamentação do Mercado, a qual devia ser puxada pela maior potência contemporânea: os EUA. Tanto o liberalismo quanto o socialismo são vistos como modelos universais incapazes de dar conta do mundo plural e multicultural do século XXI. É impossível e improvável para Gray que o mundo se submeta em totalidade à algum modelo econômico de forma ideal: haverá sempre a deformação deste pela cultura e pelas particularidades de cada ponto que se desenvolva.

Entretanto acreditamos que a teoria de Gray é limitada. O fim do laissez-faire com a subsequente implementação de uma reforma capitalista não libertará o homem ou transformará radicalmente o mundo – entendendo por radical o que vai à raíz. Ao mesmo tempo que Gray critica o Fim da História de Francis Fukuyama por tentar impor ao mundo um modelo político-econômico ele não vê a contradição inerente a sua teoria quando conforma o mundo ao capitalismo. A dialética de sua teoria se acaba ao defender que “não há alternativa para o capitalismo, somente suas variações em constante mutação”. Ao mesmo tempo a materialidade do autor é finda ao se defender ideais abstratos – como por o antropocentrismo atual como real culpado dos problemas do mundo e não o sistema econômico em Cachorros de Palha. A incapacidade do autor de se aprofundar em pontos centrais do problema atual da sociedade não o permite refletir sobre uma verdadeira mudança estrutural desta. A crença de que o neoliberalismo desvirtuou o capitalismo não passa de mero obscurecimento do real problema: a existência do capitalismo. Este sistema é baseado na luta de classes, competição, lucro, etc. e não possui razão de existência ou coerência sem isso. A aposta do autor em que uma potência ex-colônia européia, portanto com defeitos ocidentalizantes, irá controlar e democratizar o mundo é uma tentativa mascarada de manutenção do status quo. Acreditar que o período social-democrata foi um avanço na história da humanidade é extremamente eurocentrista, um pensamento tendencioso e cego: os países que estavam fora do primeiro mundo apenas continuaram seu caminho pedregoso de miséria, desigualdade e exclusão. O avanço do mundo em sentido da liberdade não se dará enquanto a lente hegemônica européia burguesa nos for imposta para a compreensão do mundo.

A longa crítica de Gray está devidamente ligada às condições materiais existentes na atualidade. A obviedade da necessidade da mudança é tão clara quanto a miséria que encontramos do lado de fora de nossa faculdade. Entretanto o que não é claro é que teorias como a do Falso Amanhecer não contemplam uma verdadeira mudança, mas apenas reformas do que já existe. O capitalismo não será parte da cultura dos diferentes povos, a adaptação daquele a estas se deu por necessidades políticas e não pela vontade de criar novos tipos de capitalismo. É óbvio que a conformação em modelos uniformizados não é desejada por populações que experimentam a falsa liberdade (salvo os burgueses) do capitalismo, porém o socialismo nunca combateu a individualidade, pelo contrario, só vê esta possível com o fim da luta de classes e da sociedade de opressão. O individualismo propagado pelo capitalismo não leva necessariamente à individualidade, mas sim ao egoísmo generalizado refletido em grande escala pela ambição alucinógena de lucro do Mercado global. Gray está certo ao afirmar que vivemos em um novo modelo de escravidão, mesmo fora de um modelo escravista, porém ele não se dá pela escravização apenas dos homens pelo mercado, mas sim dos homens pela ideologia dominante, bem como pelas condições materiais. Tiradas todas as superficialidades, vemos que a necessidade humana máxima, a sobrevivência, não é satisfeita por toda a população mundial mesmo tendo meios para tal, como, então, haver liberdade e igualdade?

A apropriação pelo capitalismo de ideais nobres para seu convertimento em abstrações ou idealismos românticos nos impede de lutar por uma concretização daqueles. Rompimentos e desconstruções são necessárias em reais processos revolucionários, os únicos possíveis de mudanças radicais. O fim da utilidade de necessidades materiais do sistema vigente, como a família (um dos pontos centrais da critica de Gray é o desaparecimento das famílias tradicionais) ou a propriedade, fazem parte da construção efetiva do novo. Entender o mundo de forma materialista histórica-dialética é compreender que nada vem do nada ou de instâncias metafísicas e que nada permanece como está. Através da dialética compreendemos que o capitalismo já traz em si o germe de sua destruição, suas contradições inerentes aflorariam de qualquer forma com o avanço histórico e científico, assim como a sua necessidade de superação. Ele foi importante para o avanço da humanidade, para o desenvolvimento das ciências, bem como para a desmitificação e desmistificação do mundo ou para a exposição da luta de classes (que antes era maquiada em crenças idealistas), porém pensar nele como fim da história é negar a dialética e a história. Supervalorizar culturas é um modo de reconstruir os fatores históricos que tornaram plausíveis o advento dos fascismos no período pós-crise europeu. O que vemos na Europa atual é um conservadorismo e um fechamento extremo pautado em xenofobias construtoras de identidades. O intercambio cultural não deve ser entendido como prejudicial, as tradições, assim como tudo o mais que existe, são passíveis de transformações e possíveis finalizações. Manter o sistema só legitimará a forma de vida imposta a maioria da população mundial. A falta de compreensão da situação periférica do capitalismo, bem como o não comprometimento com a verdadeira igualdade ou a verdadeira liberdade, fazem possível a interpretação de reformas como a proposta por Gray como um avanço, um progresso (que o autor, inclusive, diz ser uma ilusão liberal), sendo que no máximo “mudam o grau” das nossas lentes para enxergar o mundo, as quais foram há muito tempo receitadas pelos nossos médicos burgueses, resolvedores de todas as anomias. Obviamente devemos sempre buscar um mundo melhor. As condições materiais atuais tornam possíveis teorizações como a de Gray, que realmente tornariam mais suportável a vida em nosso mundo (ou no mundo europeu que costumamos assimilar como sendo nosso), porém a real libertação do homem não se dará enquanto não rompermos o marasmo da estagnação histórica adialética e pós-moderna do mundo fragmentado, mas de consenso universal opressor.


DOS BATIMENTOS

encômio abjeto
do canto carente
contristado feto
do rubor latente
incontestável sopro
inexplicável escopo
pra rima quente
indecente-mente
o objeto quieto
o pensamento reto
e o rubor latente
auspicioso augúrio
fim de lamurio
pele incandescente
vórtice prisco
d'estrambótica esbórnia
luxo do risco
queima de córnea
desvelo à memória
jactância eloquente
imoral e indecente
de toda paixão: glória.


Soir


talvez a razão da minha mediocridade
seja a verdade não aceita que vejo no espelho

não há chance
ao comum domado, adestrado,
guri frustrado,
bom advogado

eis que sou um gado
e mato meus sonhos por um copo de cerveja
ou uma mentira bem contada.

inerme me vejo
- o pouco que ensejo -
sem qu'eu ao menos seja

poucas rimas me sobram
na pesada angústia jurisprudencial
poucas rimas me restam

e nem mesmo a prosa
(ou você que me amava)
suporta mais um dia
ao lado desta árvore morta

e o que sobra de mim
é uma noite vazia
uma calçada fria
e um corpo ao chão
(que espero e rogo a deus
que seja o meu e já
esteja morto)
.

O eco da democracia



Democracia … ia

.................… ia …

........................… ia …

...................................… mas não foi.



na falta de sonhos


o tempo engessa minha carne

já faz algum tempo que não ouvi teu adeus
nem vi teu vazio
ou notei a solidão

.............tão
...................vão
fui ficando
...............cansando
..............................calando
memórias que menos que minha sombra
menos que minha ausência
menos que

o que

foi tanto que perdi?
fui eu ?
eu.
eu?
eu...
me perdi?

ou simplesmente a minha carne engessou
constrangida por minha razão
à concepção
da norma lidade

sau-da-de
dum eu
dum teu
dum quem
fui ou serei

.

- j'ai mon cœur à marée basse -

.

vejo tanto, tanto, tanto
porém meu foco ainda são meus passos
firmes no chão
concentro minhas forças em pisar o futuro
passo, passo, passo
e no passado fica tudo que não arrisquei desafiar
todos os passos que não se pisam ao chão,

que ser?
quem ser?
quem sou?
que sou?

despojado de sorrisos
carecido de amigos
,
calejado por abrigos
compensado a castigos:

humano.

o tempo corrói minha carne