Pequena síntese do agora


O que me desagrada é sólido. Maldito descalabro construir-me tão idílico: foi tudo imposto. E se sou, assim, tão grande impostor, só há uma resposta: foi tudo imposto. Nasci ao relento, mas em poucas rotações já estava como você: preso: bicho. Homem? Bicho. E em meio a récua da infância obtive desde cedo a verdade: não serás que mais um. De pequeno me criaram crenças para camuflar o sofrimento incomensurável de viver a não-vida; anos e anos de respostas e mais respostas, mesmo que ao menos tenha eu formulado uma - sequer uma - pergunta; não: eu não queria aprender a morrer tão cedo. Desde menino conheci em mim uma morte sem hematomas, a qual reconhecia claramente nos olhos joviais dos meus colegas de escola. Foram me lapidando, lapidando, lapidando, e agora aos vinte anos ao exigir minha lápide exaltam-se: "é um absuuuuurdo" - mas me desculpe: você que está surdo. Sempre esteve. E sempre estaremos enquanto o que mantiver nossa sociedade for o canibalismo de almas (e por favor, leitor, não rebaixe ainda mais meu texto adotando espiritualismos).

Nem tudo é linguagem num mundo de algaravia. É menos teórico tudo que estudo. É mais fome, medo, pobreza, sujeira, ódio, incompreensão. Muito mais incompreensão, e mais quando se fazem próprios meus os significados subjetivos de cada signo: não apenas os da oração anterior, mas de todo o texto - que no todo é nada / e no nada me é todo. Desse modo faz-se fácil a relativização de qualquer esforço, dar as costas e sentar numa mesa de bar: e lá se vão horas, dias, meses, anos: vida: é uma mesa de bar que apelidei "buraco negro". Do fundo da fossa (buraco negro) procurei compreender os porquês, mas em cada bocejo só recebi ''veja-bens''. Meu crânio é eterno, mas meu coração é fungível, de forma poética. Espero a cada novo ano seis novas utopias, dez grandes histórias, treze abraços ao pôr-do-sol, que nunca existem. Há apenas erro. O que, de qualquer forma, não deixa de inflamar meu coração-poético [mais que mísero órgão animal, meu tambor infalível, companheiro, camarada socialista vermelho-sangue]. Lassidão, solidão, contramão? Não é a toa que se fazem rimas ao meu tambor rouge. E seria de tudo isso que tiraria eu a simplória síntese esperada no primeiro parágrafo?

Foi tudo imposto. Hoje desconheço; e a partir disto firmo meus passos no incerto conhecimento futuro: não há garantias, porém dúvidas. Agora, enfim, após a intempérie exaustiva da vida de gado, garanto-me o básico: dúvidas. Nem por isso posso eu estufar meu peito e bradar-me despojado de verdades: também sou humano: nascido, criado, vivido a vida duns outros que me juram (e acredito) apenas me querer o bem. Eis que não existe o bem; do mesmo modo que não existe meu coração-poético, nem qualquer vômito literário desse rotineiro ambulante. Tentarei ser mais simples: exprimo aqui um recorte desorganizado da minha incompreensão do que é infelicidade. É o não-ser que me sinto, ou melhor, o não-me-sinto que sou. É o complexo vórtex dum egocentrismo enraizado na coletividade torturadora, que engole as crianças por dentro e defeca em suas cabeças um significado: adulto. É a grande miserabilidade de viver o aqui e o agora sem encontrar a imediatidade do resultado ao qual possivelmente fui programado; e até mesmo o anti-resultado não é imediato, o que nos faz vítimas do marasmo - mesmo que o marasmo seja guerra.

Conto-lhe um segredo agora: não há o que fazer: além de lutar. E a luta é enfaro aos fracos, estúrdio aos nobres, esbórnia aos preconceituosos. Contudo os que lutam sabem: é vida. É hoje com gosto de amanhã, é amor muito além do romantismo e da utopia, é força de mil braços: é tanto mais que se possa expressar em palavra escrita. E é também o que não me foi imposto. Meu grande projeto de materializar sonhos, de construir sorrisos, de socializar o mundo, de amar simplesmente, de



desculpem-me: pro que é novo ainda faltam palavras.