Um idoso

– (H)aja tempo, disse-me o velho.

Sentado num banco de pedra: a boca cheia de pó tossia em espiral um tempo-estético estático na juventude-mercadoria. Calei meus gestos, meu fascínio manso num estrábico (desa)ponto: hei de morrer jovem? Aja C(h)ronus. Sê tempo, come teus filhos, tuas criações, e te esconde no efemero. 

O sol se pôs e continuamos a esperar a valoração da História. O velho, eu.

espero sinceramente que um dia eu volte a te reconhecer


mais um gênio louco
e pouco sobra ao vigésimo
primeiro século de christ
ianismo mesmo que exaltem
tecnofóbicos xenófobos 
homos: o humus em
falta às (de)mentes in
férteis, why? Christ
grita o gênio e o
irmão cego e o primo ao
vento cai, decai, vai
ao chão, ao solo in-fértil
sem técnica, sem poema
sem gênio, aos remédios
ao Remédio, à verdade:
a saudade do pó do chão
que a queda (e lucifer)
deu-te –asfalto– e
falta e falto e
assim não-somos
pois nunca houve gênios
além de marx e deus
teu bom tótem, meu amor 
roubado
meu amigo morto
queria te escrever como
eliot, pound, cummings quem sabe
ou ao menos um epitáfio
que te agradasse.

até mais

me-ter

te existir aqui
tão firme em minha pele fosca
obsta toda antítese frouxa
de sou-me (em) ter-te
          Ali
onde
          Alá lia

          (romances)

          havia romãs
          e  a  via

          Todo dia, enquanto Alá lia, perguntava(-)se a veria
          Mas ninguém, nem a via, respondia enquanto Alá lia

          Ali
onde
          Alá ia

          (roma
           ntíssi
           mesm
           ismo)

          havia romãs,
          mas na via: ninguém

          Até que um dia, enquanto Alá lia, A VIU.
          Deixou para trás a rima, a vi(d)a, a lida e

          p
             u
               l
                o
                  u

                       nO RIO .  .   .

Sombra II

   
  "Essa solidão é imensa": penso ao me levantar de mais um ano de vida. Aqui na noite de sábado todos estão embriagados, resto cansado com meus olhos vidrados. "Foi-se meu tempo": penso. E ao escutar mais músicas que me impõem memórias, afogo-me: já não sou mais isto: já sou aquilo que: não queria ser. Procuro-me em vão no espelho - ou vão no espelho. Queria tanto poder dizer a alguém que estou pleno de paixão. Não?

     Sou 80 kg de maquiagem. E o que resta não alimenta nem um filhote de leão. Rastejo nesse soluar amargo, amargo, amargo e frio. Canto a passos ébrios a cicatriz que rompe. Erupção de memórias.

     A lanchonete TAN abriga os já-mortos ninguéns. Filmo carinhosamente cada rosto acabado: putas, bêbados, viciados, miseráveis, escória! Ó ma belle, ma belle vie! Quem diria que esse menino lindo amaria os animais sujos da nonsociety? Ó ma belle, ma mère! Que faltará à realidade: mais lama, mais calamidade? Quê?

     Ginsberg viu nossos pais louvarem a loucura, a nós sobrou o nada. Geração do invisível, insensível, irrisível finismundo. Onde há: menos-que: nada: pois o todo foi posto a prova e aprovou o acordo da ínfima barreira-tela de sucessful life. Vidasonhos que corroem as mentes inocentes dos babys post-allthaticouldsayortellyou, aos -ainda- não-cegos (talvez alguns sem opção, meudeus!) sobra a-mo(r)-te. Eis o ministério da fé.

     Aqui em TAN não há luxo. Aqui em TAN não há beleza. Aqui em TAN não há vida. Há em TAN apenas verdade. Verdade engolida em cada dose suja, cordemijo, porrafresca, verdade estuprada, verdade porrada, verdade alheia e minha e sua-também (canalha!), verdade em TAN! Arte borrada em cada cara, em cada ruga, em cada coxa-sobre-coxa: mercadoria. Ah, TAN! Domingo já vem e a missa(o) dos mortais.

      O sol vem .calmo. banhar meus olhos vermelho-acizentados que inda não acharam descanso além do descaso. Ilumina, frio, nossos corpos jogados à rua, à cama, à lua. Não tive coragem de sair de TAN à noite, por vergonha dos ratos rirem de tão largado andrajo-andante: mendigo hipostasiado. Não! Eis-me em glória ao sol: fedido-fudido: latinoamericano. Minha geração acredita em máquinas.

     Agora: refém do dia, das aparências, das carnes pútrefas da imagem, ouço: "Brazil! Um país de todos!" "Monde! Um mundo de todos!" Ah, matrix, idealismo, céu-inferno-purgatório.. tanta ladainha. O que há é TAN. O que há somos nós, bichos de carne que se comem, bebem, fodem, matam e humilham-se por migalhas, migalhas e mais migalhas. Migalha de ou(t)ro, que não é-são nós-eu-você. Ó ma belle, ma belle! Quisera eu ser real: amar: sonhar: vencer. Mas não há, não hê, não hó. Ó, ma mère, ma belle, meine Scheiße!

        Essa solidão: é imersa.
        
LIN

...........
. ...................TO (be/where)
(a)R(e)
.T(e)A

koobecaf

dor. queria ser mais racional, mas não consigo dissociar o bloco paixão/vida. é muito complicado viver fora da mecanicidade num mundo tão mecânico. amorte ontem, hoje e sempre - que renasce. esperança de vida/paixão: amo(r)te.
-

di
a
pós
di
a
te
spe
rei

(ho
je)

o

és
ma
is
ra
in
ha
ne
m
eu
(t'e
spe
ra)
rei

.

Das posições ou Espelho-imperfeito-do-mundo


le cru / cru el

moi: l'Autre

a única (p)arte que me resta
seuljeito/sujeito:
(des)conhecimento:
δόξα/d'oxi
pulsão-
já morta

criar pour crier
éxige a destruição
do (eu-)mundo

vide I

conservarei meu coração a sal e sol
até que o sumo silêncio que sonda-
te vida, suave seja ao rouco sopro
de minha surrada carniça

conservarei meu coração a lua e fel
até que o mel - lindo lambuso de
louça - lamba-me a boca-oca
da pouca saliva monolíngua

conservarei meu coração a óleo e pão
até que o não que me corrói a mão,
o senão, o tão e o vão, obrigue-
me são, sem somos, sem sou

conservarei meu coração
além da vida, da crina, do chicote
do capote, da ruína, da decaída além
de conservar minha cor ação minha
conservarei-te também
a sol e fel
a óleo e lua
a sal e pão
conservarei-te como filha, como ilha
como nada, como cada
gota de lágrima
jorrada

conservarei meu coração a sim
e assim, sincero, solene, solitário
hei de soar como o poeta-sentido
que mais te amou por teres vivido

Ks k


cascata-toda, (d)és-
compasso, caço, caço
casco e passo, passo
o rastro e perco
esterco. escroque,
um rock, um anjo,
um banjo: cascatodo
tudo muda, passo
surdo, laço-mundo
casca-tudo, costa
e centro, Costa e Bento
cascatoda, desco-um-
pasço: o Paço, o Paço
Mentecapto!
Fátuo, furto!
casca-torto,
casca-tudo.

poema esquecido e desiludido de 2010


Busão lotado
gente fodida, todo mundo
na praia e eu aqui. Lutando
por essa gente imunda. O trago de
ontem e o de hoje e o de amanhã
não me fazem diferença
ou indiferença
Buk me enganou. Não é tão
simples ficar torrado, vomitar
na rua e acordar cagado.
Você esqueceu de me contar
o tanto que dói me matar


I swim, but I wish I never learned, the water's too polluted with germs

Aos astros


Chove forte. Quando eu era pequeno costumava sonhar com a Lua: fui astronauta antes de saber ler. Pelos caminhos-fantasia da infância andava sem qualquer gravidade - sem peso ruía o mundo que não me queria. Os gravetos eram espadas e as caixas naves, desistia de existir por mais um dia, menos uma tarde na realidade, por favor. Antes do hoje, antes do agora, antes da sobrevida, eu vivia e era astronauta. Paco me acompanhava ao explorar o universo infinito da minha subjetividade. Era um bom astronauta o meu cachorro, lembrava-me a comunista Laika, que em 57 foi-se com toda a coragem que faltou ao homem explorar o céu que Deus tinha roubado da Terra. Deitávamos na grama e conversávamos com nossos olhos negros.

Fins de semana eu continuava a mirar o céu, ofuscado agora pelo concreto da rua XV. Minha mãe me segura pela mão com força, ando com calma naquela mão tão forte. Sento-me ao chão, à direita e à esquerda centenas de crianças colorem: na minha frente uma folha branca. Logo sou só eu, ela, milhares de crianças e a solidão. Passo o tempo ali, tento acertar minha mão e materializar o que pede minha mente: um cão em uma espaço-nave. Ganho uma estrela. Além das crianças, como que em outra dimensão, vejo um velho dormindo no pé duma porta imensa. Contenho-me pouco e logo meus passos tomam um rumo impreciso. 46 passadas, apesar de eu não saber contar.

"Oi." Sou ignorado e ele fede. Tento refletir como tal malogro teria acontecido. Era uma barba branca poderosa amarrada num corpo pútrido, mas ainda assim lembrava Deus e Papai Noel. O mundo ali era bem mais bruto: não havia traços, apenas cores mutuamente se borrando em choque, choque, choque. Ninguém via nada, nem me via. Deixo meu cachorro, sua espaço-nave, meus sonhos e um adeus amarrados naquela barba branca, que talvez merecesse mais, muito mais: tudo aquilo de que fora despojada. Espero a mão forte de minha mãe antes da chuva.

Agora chove forte. Ando pelos mesmos caminhos do passado, sem a mão forte e com os olhos no chão. Hoje miro o chão. Quase esbarro em todos os outros corpos cinzentos que apressados cumprem seu caminho. Não há mais crianças, nem folhas, nem Laika. Anoitece e as pessoas procuram abrigo. Num canto imóvel reconheço uma barba branca: imponente, pujante, improvável. Presa nela vejo garrafas de pinga, cigarros, amores perdidos, canções roubadas e um cachorro numa espaço-nave. Vejo-o explorar aquele branco sem fim, desviando toda a boêmia passada do velho, mergulhando sem medo na incerteza da vida, comendo à força o pão que o diabo/homem amassou. O cão continuou sua viagem, sua coragem, seu sonho: tudo que não mais eu possuía; tudo que me faltava.

Tão triste é meu coração ao obedecer a lei da gravidade. Penso em Paco, em sua nave espacial, em domingos mortos, em mim: quando realmente era-me. Esqueço, então, o chão por um minuto: infinito, belo, (im)possível. Por fim, vejo o medo do agora: Laika nunca voltou do espaço.

Urbano, noturno, solitário

A busca de um sentido sempre me foi pautada num preenchimento impossível do Vazio absoluto. Percebo pelas manchas no céu que amanhã chove. Faz três horas que habito uma tela: minha olheiras cansadas, meus cigarros auto-reprodutores, meu peso infinito no verbo "observar". Em tela vidas que não viverei, conversas que não lembrarei, mentiras que não inventei. Calço pés e vou à porta: irredutível sensação de ciclo circula minha mente confusa. Não espero mais nada. Há um mar de infelicidade nos livros que leio, nos filmes que assisto, nas músicas que ouço. Espero que o espaço se esfarele. Mas nada acontece agora.

Sold(ado)

oi pessoas! esse poema foi feito enquanto eu escutava gorillaz, há inclusive partes da música dirty harry nela, então vou inverter a ordem música/poema hoje, deixando-a como uma introdução.


Homem soldado por ferro de gado
A mistério imaculado, cansado
Se deita ao prado, o mato em seu rabo
E a mente em seu cabo - ferro sagrado

I need a gun to keep myself from harm
Repete, recicla e reporta-gun
Na minha cara pobre, karma-pobre,
Aponta-gun na minha vida-harm

Homem soul-gado soldado por aço
Conta teu passo: tu caças a morte!
Mas por sorte, ouro ou pátria/deus
Não morrerás de balaço na fuça: karma-pobre.

Sold(ier) man com arma sem-harm
Caça minha raça, we ain't got a chance
Ou dance, estamos todos devastados
Esperando que teu deus/pátria nos julgue

(I)mundo de chances oferece-te
Arma pra dança, valsa de tiros
Enquanto me atiro ao giro sem chance
Esperando o (i)mundo que me ofereça!

Homem vendido, soldado, varrido
The poor people are burning in the sun
Vendo-te vender-te à irracionalidade
Do gado armado e desa(l)mado

Homem soldado por ferro e aço
Mira minha testa e atesta
Sem pressa teu medo-cabo:
Sou-te morrendo por teu balaço

Homem de aço, soldado de morte
The cost of life/ seems to get cheaper
Out in the desert da sua vida,
Soul-less sold(ier) man.
[ p/ Z]

quinze telegramas monocromáticos em quatro meses de viagem. sua garganta suava saliva, sem sadismo ou solidez: estava só. encarava dormindo dois monitores velhos, sujos, cinzas. era o décimo-sexto, de seu avô para sua avó, há mais de seis décadas: tempos de guerra. estava só. nas páginas errantes os amores cruzavam dias enjoativos de atlântico azulado - a imensidão do mar envergonhava o coração de um dia ter adjetivado o amor d'infinito. ela estava grávida, ele estava só. sua saliva surtava. dois monitores cruzavam décadas em seu quarto imundo. cansou-se, despiu-se, deitou-se.

(teto)

todo seu esforço se resume ao branco do teto. lá há mais que todos os livros lidos e vividos. estava só. e de seu "eu" questionou-se: eu? sou mais, sou "nós". uma coletividade perfeita de células, a suprema coletividade, o indivíduo. e aqui o resumível é findo: para além há toda a batalha fenomenológica/materialista. o teto é o Outro invisível. e é nele que se forma a (de)forma ilógica da crença: havia um crucifixo enorme no teto. não ali ou agora, mas ele sabia muito bem que alguém que há muito habitara seu quarto havia pregado um crucifixo enorme no teto. restou o medo e a crença, ou o(a) medo/crença; e disso se fez o mito do teto: "vejo deus". fechou os olhos pensado em sua avó grávida.

[p/ L]

ele morreu, ela abortou. um grande susto: não eram seus avós. risos com café e cigarros. estava só. exclui o arquivo e olha para a cama. ela ainda dorme, grávida.

(chão)

vai ao trabalho de sapatos velhos, toma café sem açúcar, olha-se ao espelho por mais de um minuto, trabalha. às seis da tarde sai do escritório ainda sem qualquer noção do que faz ou porque faz, pensa em morrer ao lembrar que há uma mulher grávida em sua cama. estava só.

[p/ Z]

Minha Querida,

faz dez anos que navego sem rumo por águas desconhecidas. Espero todos os dias pelo regresso e se ainda não enlouqueci foi por trazer seu pequeno retrato no bolso. Vejo em teus olhos - parados no tempo de nossa juventude - todo o prazer de viver. Encontro em seu rosto o sol em zênite. Sei que não estou só, mesmo com tanto gelo a desafiar minhas últimas resistências, mesmo com a escassez de alimentos e de água potável: teu amor me faz viver.

(quarto)

estava só. sua avó estava grávida na cama, protegida por deus.

[p/ L]

noventa e sete telegramas monocromáticos. ainda espera. sua garganta sua. dois monitores estragados e um teto azul. estava só, esperando. olhava o teto: azul com nuvens. jurava que o barco não mais lhe enjoava. pensava na mulher grávida em sua cama. pensava nela mesma. ou nele mesmo. talvez em ambos e ambos também se pensassem enquanto o Outro pensava em nada. vomitaria antes de trabalhar.

{6datarde}

sai do escritório com o telegrama na mão. ela estava grávida, ele vivo. corre ao barco, ao vento, ao sol, à solidão inexplicável que lhe faz parte tão anteriormente a qualquer explicação racional de outrém sobre o que ele é. ela estava só. encara os dois monitores velhos, a garganta sangra: ele a traíra. todo o mar desfez o amar; tudo que lhe faltava era a compreensão.