Sold(ado)

oi pessoas! esse poema foi feito enquanto eu escutava gorillaz, há inclusive partes da música dirty harry nela, então vou inverter a ordem música/poema hoje, deixando-a como uma introdução.


Homem soldado por ferro de gado
A mistério imaculado, cansado
Se deita ao prado, o mato em seu rabo
E a mente em seu cabo - ferro sagrado

I need a gun to keep myself from harm
Repete, recicla e reporta-gun
Na minha cara pobre, karma-pobre,
Aponta-gun na minha vida-harm

Homem soul-gado soldado por aço
Conta teu passo: tu caças a morte!
Mas por sorte, ouro ou pátria/deus
Não morrerás de balaço na fuça: karma-pobre.

Sold(ier) man com arma sem-harm
Caça minha raça, we ain't got a chance
Ou dance, estamos todos devastados
Esperando que teu deus/pátria nos julgue

(I)mundo de chances oferece-te
Arma pra dança, valsa de tiros
Enquanto me atiro ao giro sem chance
Esperando o (i)mundo que me ofereça!

Homem vendido, soldado, varrido
The poor people are burning in the sun
Vendo-te vender-te à irracionalidade
Do gado armado e desa(l)mado

Homem soldado por ferro e aço
Mira minha testa e atesta
Sem pressa teu medo-cabo:
Sou-te morrendo por teu balaço

Homem de aço, soldado de morte
The cost of life/ seems to get cheaper
Out in the desert da sua vida,
Soul-less sold(ier) man.
[ p/ Z]

quinze telegramas monocromáticos em quatro meses de viagem. sua garganta suava saliva, sem sadismo ou solidez: estava só. encarava dormindo dois monitores velhos, sujos, cinzas. era o décimo-sexto, de seu avô para sua avó, há mais de seis décadas: tempos de guerra. estava só. nas páginas errantes os amores cruzavam dias enjoativos de atlântico azulado - a imensidão do mar envergonhava o coração de um dia ter adjetivado o amor d'infinito. ela estava grávida, ele estava só. sua saliva surtava. dois monitores cruzavam décadas em seu quarto imundo. cansou-se, despiu-se, deitou-se.

(teto)

todo seu esforço se resume ao branco do teto. lá há mais que todos os livros lidos e vividos. estava só. e de seu "eu" questionou-se: eu? sou mais, sou "nós". uma coletividade perfeita de células, a suprema coletividade, o indivíduo. e aqui o resumível é findo: para além há toda a batalha fenomenológica/materialista. o teto é o Outro invisível. e é nele que se forma a (de)forma ilógica da crença: havia um crucifixo enorme no teto. não ali ou agora, mas ele sabia muito bem que alguém que há muito habitara seu quarto havia pregado um crucifixo enorme no teto. restou o medo e a crença, ou o(a) medo/crença; e disso se fez o mito do teto: "vejo deus". fechou os olhos pensado em sua avó grávida.

[p/ L]

ele morreu, ela abortou. um grande susto: não eram seus avós. risos com café e cigarros. estava só. exclui o arquivo e olha para a cama. ela ainda dorme, grávida.

(chão)

vai ao trabalho de sapatos velhos, toma café sem açúcar, olha-se ao espelho por mais de um minuto, trabalha. às seis da tarde sai do escritório ainda sem qualquer noção do que faz ou porque faz, pensa em morrer ao lembrar que há uma mulher grávida em sua cama. estava só.

[p/ Z]

Minha Querida,

faz dez anos que navego sem rumo por águas desconhecidas. Espero todos os dias pelo regresso e se ainda não enlouqueci foi por trazer seu pequeno retrato no bolso. Vejo em teus olhos - parados no tempo de nossa juventude - todo o prazer de viver. Encontro em seu rosto o sol em zênite. Sei que não estou só, mesmo com tanto gelo a desafiar minhas últimas resistências, mesmo com a escassez de alimentos e de água potável: teu amor me faz viver.

(quarto)

estava só. sua avó estava grávida na cama, protegida por deus.

[p/ L]

noventa e sete telegramas monocromáticos. ainda espera. sua garganta sua. dois monitores estragados e um teto azul. estava só, esperando. olhava o teto: azul com nuvens. jurava que o barco não mais lhe enjoava. pensava na mulher grávida em sua cama. pensava nela mesma. ou nele mesmo. talvez em ambos e ambos também se pensassem enquanto o Outro pensava em nada. vomitaria antes de trabalhar.

{6datarde}

sai do escritório com o telegrama na mão. ela estava grávida, ele vivo. corre ao barco, ao vento, ao sol, à solidão inexplicável que lhe faz parte tão anteriormente a qualquer explicação racional de outrém sobre o que ele é. ela estava só. encara os dois monitores velhos, a garganta sangra: ele a traíra. todo o mar desfez o amar; tudo que lhe faltava era a compreensão.