poema esquecido e desiludido de 2010


Busão lotado
gente fodida, todo mundo
na praia e eu aqui. Lutando
por essa gente imunda. O trago de
ontem e o de hoje e o de amanhã
não me fazem diferença
ou indiferença
Buk me enganou. Não é tão
simples ficar torrado, vomitar
na rua e acordar cagado.
Você esqueceu de me contar
o tanto que dói me matar


I swim, but I wish I never learned, the water's too polluted with germs

Aos astros


Chove forte. Quando eu era pequeno costumava sonhar com a Lua: fui astronauta antes de saber ler. Pelos caminhos-fantasia da infância andava sem qualquer gravidade - sem peso ruía o mundo que não me queria. Os gravetos eram espadas e as caixas naves, desistia de existir por mais um dia, menos uma tarde na realidade, por favor. Antes do hoje, antes do agora, antes da sobrevida, eu vivia e era astronauta. Paco me acompanhava ao explorar o universo infinito da minha subjetividade. Era um bom astronauta o meu cachorro, lembrava-me a comunista Laika, que em 57 foi-se com toda a coragem que faltou ao homem explorar o céu que Deus tinha roubado da Terra. Deitávamos na grama e conversávamos com nossos olhos negros.

Fins de semana eu continuava a mirar o céu, ofuscado agora pelo concreto da rua XV. Minha mãe me segura pela mão com força, ando com calma naquela mão tão forte. Sento-me ao chão, à direita e à esquerda centenas de crianças colorem: na minha frente uma folha branca. Logo sou só eu, ela, milhares de crianças e a solidão. Passo o tempo ali, tento acertar minha mão e materializar o que pede minha mente: um cão em uma espaço-nave. Ganho uma estrela. Além das crianças, como que em outra dimensão, vejo um velho dormindo no pé duma porta imensa. Contenho-me pouco e logo meus passos tomam um rumo impreciso. 46 passadas, apesar de eu não saber contar.

"Oi." Sou ignorado e ele fede. Tento refletir como tal malogro teria acontecido. Era uma barba branca poderosa amarrada num corpo pútrido, mas ainda assim lembrava Deus e Papai Noel. O mundo ali era bem mais bruto: não havia traços, apenas cores mutuamente se borrando em choque, choque, choque. Ninguém via nada, nem me via. Deixo meu cachorro, sua espaço-nave, meus sonhos e um adeus amarrados naquela barba branca, que talvez merecesse mais, muito mais: tudo aquilo de que fora despojada. Espero a mão forte de minha mãe antes da chuva.

Agora chove forte. Ando pelos mesmos caminhos do passado, sem a mão forte e com os olhos no chão. Hoje miro o chão. Quase esbarro em todos os outros corpos cinzentos que apressados cumprem seu caminho. Não há mais crianças, nem folhas, nem Laika. Anoitece e as pessoas procuram abrigo. Num canto imóvel reconheço uma barba branca: imponente, pujante, improvável. Presa nela vejo garrafas de pinga, cigarros, amores perdidos, canções roubadas e um cachorro numa espaço-nave. Vejo-o explorar aquele branco sem fim, desviando toda a boêmia passada do velho, mergulhando sem medo na incerteza da vida, comendo à força o pão que o diabo/homem amassou. O cão continuou sua viagem, sua coragem, seu sonho: tudo que não mais eu possuía; tudo que me faltava.

Tão triste é meu coração ao obedecer a lei da gravidade. Penso em Paco, em sua nave espacial, em domingos mortos, em mim: quando realmente era-me. Esqueço, então, o chão por um minuto: infinito, belo, (im)possível. Por fim, vejo o medo do agora: Laika nunca voltou do espaço.

Urbano, noturno, solitário

A busca de um sentido sempre me foi pautada num preenchimento impossível do Vazio absoluto. Percebo pelas manchas no céu que amanhã chove. Faz três horas que habito uma tela: minha olheiras cansadas, meus cigarros auto-reprodutores, meu peso infinito no verbo "observar". Em tela vidas que não viverei, conversas que não lembrarei, mentiras que não inventei. Calço pés e vou à porta: irredutível sensação de ciclo circula minha mente confusa. Não espero mais nada. Há um mar de infelicidade nos livros que leio, nos filmes que assisto, nas músicas que ouço. Espero que o espaço se esfarele. Mas nada acontece agora.