
Chove forte. Quando eu era pequeno costumava sonhar com a Lua: fui astronauta antes de saber ler. Pelos caminhos-fantasia da infância andava sem qualquer gravidade - sem peso ruía o mundo que não me queria. Os gravetos eram espadas e as caixas naves, desistia de existir por mais um dia, menos uma tarde na realidade, por favor. Antes do hoje, antes do agora, antes da sobrevida, eu vivia e era astronauta. Paco me acompanhava ao explorar o universo infinito da minha subjetividade. Era um bom astronauta o meu cachorro, lembrava-me a comunista Laika, que em 57 foi-se com toda a coragem que faltou ao homem explorar o céu que Deus tinha roubado da Terra. Deitávamos na grama e conversávamos com nossos olhos negros.
Fins de semana eu continuava a mirar o céu, ofuscado agora pelo concreto da rua XV. Minha mãe me segura pela mão com força, ando com calma naquela mão tão forte. Sento-me ao chão, à direita e à esquerda centenas de crianças colorem: na minha frente uma folha branca. Logo sou só eu, ela, milhares de crianças e a solidão. Passo o tempo ali, tento acertar minha mão e materializar o que pede minha mente: um cão em uma espaço-nave. Ganho uma estrela. Além das crianças, como que em outra dimensão, vejo um velho dormindo no pé duma porta imensa. Contenho-me pouco e logo meus passos tomam um rumo impreciso. 46 passadas, apesar de eu não saber contar.
"Oi." Sou ignorado e ele fede. Tento refletir como tal malogro teria acontecido. Era uma barba branca poderosa amarrada num corpo pútrido, mas ainda assim lembrava Deus e Papai Noel. O mundo ali era bem mais bruto: não havia traços, apenas cores mutuamente se borrando em choque, choque, choque. Ninguém via nada, nem me via. Deixo meu cachorro, sua espaço-nave, meus sonhos e um adeus amarrados naquela barba branca, que talvez merecesse mais, muito mais: tudo aquilo de que fora despojada. Espero a mão forte de minha mãe antes da chuva.
Agora chove forte. Ando pelos mesmos caminhos do passado, sem a mão forte e com os olhos no chão. Hoje miro o chão. Quase esbarro em todos os outros corpos cinzentos que apressados cumprem seu caminho. Não há mais crianças, nem folhas, nem Laika. Anoitece e as pessoas procuram abrigo. Num canto imóvel reconheço uma barba branca: imponente, pujante, improvável. Presa nela vejo garrafas de pinga, cigarros, amores perdidos, canções roubadas e um cachorro numa espaço-nave. Vejo-o explorar aquele branco sem fim, desviando toda a boêmia passada do velho, mergulhando sem medo na incerteza da vida, comendo à força o pão que o diabo/homem amassou. O cão continuou sua viagem, sua coragem, seu sonho: tudo que não mais eu possuía; tudo que me faltava.
Tão triste é meu coração ao obedecer a lei da gravidade. Penso em Paco, em sua nave espacial, em domingos mortos, em mim: quando realmente era-me. Esqueço, então, o chão por um minuto: infinito, belo, (im)possível. Por fim, vejo o medo do agora: Laika nunca voltou do espaço.
Muito bom Hugo, vc conseguiu trazer uma imagem muito interessante mesmo
ResponderExcluirLaika foi o primeiro ser vivo a ir pro espaço e doou sua vida pela eterna conquista...
abração
o yuri só diz isso porque ele adora a temática laika/cosmonauta
ResponderExcluirMuito bom, Hugo, mesmo!
ResponderExcluirApesar de gostar das poesias que escreve, serei sempre mais fã dos seus textos em prosa.
Retrato fiel e preciso da infância.
É bem verdade que estamos condicionados - cada vez mais - à lei da gravidade. Mas eu espero (pelo bem da minha, da sua e da nossa saúde mental) que possamos desfrutar - ainda que por um mísero instante - de algum resquício de felicidade (se é que ela existe), seja na militância, na embriaguez ou num momento-rompante de um abraço fraterno.
Meu caro. Fosse realista seu texto, a vida seria tão cinza e porcamente higienizada que você sequer poderia conceber poeticamente visualizar algo próximo a laika na barba branca suja boêmia
ResponderExcluirHugoo
ResponderExcluirhá tempos não lia seu blog!
Sempre é bom pegar um tempo para fazer uma boa reflexão!
Adoro você!saudades
beijão
Hugo..
ResponderExcluirVocê sempre consegue me emocionar,
e, na realidade,
quem levava quem pelas mãos??
bjos
Mãe