Sombra II

   
  "Essa solidão é imensa": penso ao me levantar de mais um ano de vida. Aqui na noite de sábado todos estão embriagados, resto cansado com meus olhos vidrados. "Foi-se meu tempo": penso. E ao escutar mais músicas que me impõem memórias, afogo-me: já não sou mais isto: já sou aquilo que: não queria ser. Procuro-me em vão no espelho - ou vão no espelho. Queria tanto poder dizer a alguém que estou pleno de paixão. Não?

     Sou 80 kg de maquiagem. E o que resta não alimenta nem um filhote de leão. Rastejo nesse soluar amargo, amargo, amargo e frio. Canto a passos ébrios a cicatriz que rompe. Erupção de memórias.

     A lanchonete TAN abriga os já-mortos ninguéns. Filmo carinhosamente cada rosto acabado: putas, bêbados, viciados, miseráveis, escória! Ó ma belle, ma belle vie! Quem diria que esse menino lindo amaria os animais sujos da nonsociety? Ó ma belle, ma mère! Que faltará à realidade: mais lama, mais calamidade? Quê?

     Ginsberg viu nossos pais louvarem a loucura, a nós sobrou o nada. Geração do invisível, insensível, irrisível finismundo. Onde há: menos-que: nada: pois o todo foi posto a prova e aprovou o acordo da ínfima barreira-tela de sucessful life. Vidasonhos que corroem as mentes inocentes dos babys post-allthaticouldsayortellyou, aos -ainda- não-cegos (talvez alguns sem opção, meudeus!) sobra a-mo(r)-te. Eis o ministério da fé.

     Aqui em TAN não há luxo. Aqui em TAN não há beleza. Aqui em TAN não há vida. Há em TAN apenas verdade. Verdade engolida em cada dose suja, cordemijo, porrafresca, verdade estuprada, verdade porrada, verdade alheia e minha e sua-também (canalha!), verdade em TAN! Arte borrada em cada cara, em cada ruga, em cada coxa-sobre-coxa: mercadoria. Ah, TAN! Domingo já vem e a missa(o) dos mortais.

      O sol vem .calmo. banhar meus olhos vermelho-acizentados que inda não acharam descanso além do descaso. Ilumina, frio, nossos corpos jogados à rua, à cama, à lua. Não tive coragem de sair de TAN à noite, por vergonha dos ratos rirem de tão largado andrajo-andante: mendigo hipostasiado. Não! Eis-me em glória ao sol: fedido-fudido: latinoamericano. Minha geração acredita em máquinas.

     Agora: refém do dia, das aparências, das carnes pútrefas da imagem, ouço: "Brazil! Um país de todos!" "Monde! Um mundo de todos!" Ah, matrix, idealismo, céu-inferno-purgatório.. tanta ladainha. O que há é TAN. O que há somos nós, bichos de carne que se comem, bebem, fodem, matam e humilham-se por migalhas, migalhas e mais migalhas. Migalha de ou(t)ro, que não é-são nós-eu-você. Ó ma belle, ma belle! Quisera eu ser real: amar: sonhar: vencer. Mas não há, não hê, não hó. Ó, ma mère, ma belle, meine Scheiße!

        Essa solidão: é imersa.