ikhtys , iki - a extinção da espiritualidade


graffiti, stencil, bottom, pixa-acción, lambe, high-kai, zine, diz-torção
oh god, cadê l'art -com l'or-?
fluxo de hemingways
bukowskis, maiakóvskis,
drunkowskis, amadoróviskis,
v-indo et v-indo
et v-indo et
cadê a ligadura do Q?

geração pós-tudo que possa suportar um
pré-
(o resto é lixo ou luxo demais prum resto)
but res to who?

ah, sim.
você lê um leminski, ouve um stravinsky
curte a page facebookiana e ok. ok. ~OK~
elas eles elxs el@s irrefutavelmente
calada-mente frustrada-mente
fakes (s/ finnegans s/ wakes)
esbanjando
- como nesse poemalandro -
cultianismo egocêntrico.

geração umbigo. geração UM-bigo.
(ainda se fosse
um beagle
um-beagle
teria curtidas likes aimés
no face-no-book
hê hê)

que se faça o GRAND parêntesis necessário:
a abordagem tem recorte de classe.
o jovem preto-pobre-terceiro-mundista
continua na pista
: aresta do mundo;
descontexto lírico;
sem conexão poética:
a poesia é a aristocracia da linguagem (via leminski, polaco-negro)
- ñ se ignore o rap, ok?

mas há algo de universal nesse mundo pretensamente
quebrado, descingido, rachado, frag(palavramalditaaqualquermilitanteesquerdista)mentado
~et pourquoi pas mentolado?~ :
alienação
(quase uma ação alien hollywoodiana
própria da implosão humana mesma)
. filho de alienado, alienado é: Alienadson,
novo (sobre)nome: buy it, tá na moda!

e nesses indos e vindos
consumindos,
co-sumidos fomos.
não há mais pássaro que cante selvagerias nas metrópoles,
a natureza é fotografia,
a diversão é fotografia,
o amor é fotografia,
o rubor é fotografia,
o bebê é fotografia,
a trepada... a trepada é filmada mesmo (dá mais likes).

um mundo curtido
(curtindo a vida adoidado: sessão da tarde)
e nossa pira é pouco mais que
fuma bebe cheira engole injeta mete
(e fotografa, claro, flash, flash)
mexe remexe mexe re me x
shhh

(e ninguém para
pra meditar
pra refletir
pra enxergar
ou
sussurrar - quase harmonia s (x3) r (x3) u (x2) a (x1) -
ninguém, exageradamente)

dois mil anos atrás desenhavam um peixe
e viam jesus, o cristo, o amor, a via, a esperança.
há quase um século debate-se academicamente
o iki (kuki shuzo que nunca li, mas haroldo me ensinou)
nipônico iki, tão indecifrável.
e a espiritualidade, a essência,
impregna estes signos (ikhtys - grego peixe simbólico, jesus cristo, e iki - graça agraciante)
do indizível:
et cade Isso na poesia?
na Arte?
Militância?
Amor?
Ciência/descoberta?
Vida?

-

graça (agraciante)
tão oriental quanto o
peixe
(pré-bíblico) cristo:
uma pena, talvez,
que quem venceu na História
(conceito euro(construído)centrico)
foi esse imperceptível
Ocidente.

ou acidente?

nesse um-bigo mundo
o jovem não é comunista
nem artista ou malabarista:
o jovem é um erro
de script
na inter(intra?)net
teragigamega
fassssssssssst

world wide web

W
H
Y

e o velho?
. ah o velho...
pra ele basta um

.

       quantos
                     sousas
                                 somos
      
    sedentos de souza 
cruz                    ou  de 
cruz e                 sousa

 - cruz-crús
                    senzalas -
       
  apenas 
            silmaras
?
            somálias
 a penas
                            ?
  apenas
              soraias
 a penas

?
       quantas
                     sousas
                                 samos    

  soma-se o solto 
suma-te o salto
  solve-se o soldo

       só
       sou
       sa

       sê n
       tê  

       somas
                  samos
                              amos
?
       sousa
                soa
                    
                                 ousa           



desafia

te fia e
afia a 
faca

sorria

o dia
mia e
cala

não para

a tara
engole e
mata

amarra

a corda
na tua
faca

arria

tua linha
fina e 
fraca

acata

verde agonia do grande camarada


adeus, adeus, meus filhos
disse um plusquevelho a-
boinado abanando um pa
no velho tão velho quanto

o velho verdeagonizante a
sokurov taurino: poder te-
traexplêndido; círculo-me
nos ainda os que vivem o já.

vocês não sabem sobre o
mundo sem mim, disse o
velho partido-homem da
verde cadeira invertida:

dia-a-dialético impreinvisível
senda: há que... ou não... 1
bilhão e meio de comunistas
chorarão o fim d'outubro.

e o velho, menos que hum
ano quase-morto correu a
memória elefantina: nesta
cama afundo o leninismo.

e tão fundo foi e tão mudo
o mundo, que o verdeazul
céu pouco nublado mal coube
nos seus olhos descoloridos:

ó marx, velho amigo, aqui
encerro os mistérios da ma-
téria, em breve, junto a ti,
inicio a desexperiência meta

física. vermelho-sangue
apodrece em suas veias.


canto das estrelas-do-mar


batiam asas nos idos tempos
de inglória e tédio humano-
menos: infinita piscada (v)ida
corrida em fluxo mar adentro
espelho confuso com fundo
incerto, calado perpétuo de
timidez exposta. dias, noites.

o céu imitava ondas com nu
vens e vais (e) como mar-dia
o impossível coração-céu pel'
obscuroceano desestrelado: "
amo-te ó mar, gêmeo do azul
incorpóreo, desastro rexistente"

e o jovem oceano, síntese das
lágrimas do mundo, evaporava
encabulado pelos belos dias
primaveris: nuvens nuvais nos
impróprios círculos imperfeitos
do globo: prisão objetiva.

"ó ceu amado, libidinoso sim,
a gravidade é-nos imposta por
ciência transumana. não há o
que possamos fazer contra a
empiria universal: a norma é
a pulsão primordial do não"

mas o céu não desistia de amar
e repetia: ri mar, ri mar, ri mar;
enquanto espelhava anoitecido
no amado o luar minguante(s)
desvanecido e arrancava ondas
de pulsão posêidonia passiva

"ri mar", sussurava o céu em
vento: invento inumano mesmo;
despejava estrelas lágrima-cade
ntes pela intangível distância e
esperava o quente vapor d'água
aproximar-se de sua via (labial)

láctea. o oceano rasgando-se
em correntes marítimas não
perdia o céu - espelho seu -
da vista mais-que-humana do
universo deslíquido e sentia ao
vento o beijo invisível do amado  

e da erupção indomável do
amor impossível - da ejacula
ção precoce do amor juvenil
- o mar trans-formou-se em
fogo (globo-feito) e sujou de
luz infinita o infinito céu de
astros tantos mas apenas um

sol

: intersecção possível. aurora
e crepúsculo, oceano celeste,
céu marítimo, espelho (como
impossível não ser) um do ou
tro: amor é si ti em totalidade
da natureza à matéria, a vida
é apenas pequena      (p)arte.


semana


a cama de dois
              tem um
rola, enrola, vi
ra          e   nada
passa a noite é
triste a solidão
                             pesada

amor


certo dia ganhei um espelho, um belo espelho plano. eu era ainda muito novo para lembrar um quando ou ter a certeza de que ele não esteve lá o tempo todo, desde que abri um olho. de qualquer forma, era um belo espelho plano, que me acompanhava como uma sombra ao fim da tarde. ele mantinha as certezas em meus olhos, satélites atentos de minha geografia, e repetia minha boca megafonica autoesculpida de dentes. o espelho me sorria.

quanto menos criança maior o espelho. assim, passaram-se anos, até a idade em que o mundo sentido pelo meu coração lá cabia. e eu via o mundo no meu espelho de Sempre. e eu via Eu no espelho da vida.

mas eis que chega um dia. um dia que foi Tu: eu te vi no meu espelho, eu te vi ao meu lado, com minha mão e teu olhado, eu te revi e eu senti: eras tu que era Eu. passei, então, a te querer no Ali, no espelho de É(a)go(ra), como uma árvore em juventude lançando pétalas ao infinito. contudo, nunca mais te tive ali.  procurei e me perdi: nunca mais houve o já-ido. e na loucura do desejo, da procura irracional de verdades e de futuros, eu mergulhei em meu espelho.

fez-se mar e o meu nado doloroso de cacos. te procurava em cada novo pequeno espelho de mim: entre meu sangue e o reflexo de algo-mim algo-lá. mergulhei em carne no meu espelho quebrado.

a cada dia mais fundo, procurando nos meus fragmentos o Eu por ti completo. esperando que no mais profundo abismo de mim, encontre por fim a resposta ao Tu, àquele do momento paranóico do endeusamento, do fazer-te pai/mãe/irmã(o), do fazer-te mais que, do fazer-te a mim próprio fora de mim, do fazer-te minha possibilidade. e a cada noite espero uma luz e menos cortes. menos eus desconexos. menos medo de um pedaço maior e mais forte desse espelho penetrar o meu peito até o coração e te matar no além-reflexo.

teu agora distante


criança salina: pedra de seca
uma quase-ilha a sertão pouc
o - sermesmo - o ser nada que
seca o sexo a soco: f ilha-me

sombracolhida vida, o quase
no sempre. o todo em falta o
muito em excesso. aí te olhas
rapidamente como a farsa de.

choras não-culpa perante essa
menos-vida ali frustrada, corre
do espelho que te feias e não
borras: negação maquiôntica

é bela a afirmação da tua és
sência - natureza materialista
do resistencialismo cotidiano
- teu espelho: o olho-próximo

a criança empedra no teu ser
de casulo refugiado. naquele
passado quiseste um mundo
pleno sem infanticídio diário

hoje apagas a ti mesmo e a
nós todos que aqui existimos:
foges chorando máscaras,
foges quebrando espelhos

p ilha


uma lágrima corria - como o rio que sonha - o rosto de silvia.

forçava linhas por entre os dedos, qualquer coisa que a livrasse. o universo permanecia cientificamente infinito. e deus, meta física pura, consistia no inexplicável: apenas o seu próprio vazio condensado em signos. parecia-lhe texto. um sem-textura exposto. deus não pode ser uma víscera, pensa. e assim constrói o esquecimento.

mais palavras num rumo incerto. silvia procura rimas. silvia procura sentidos. silvia tem a plena consciência que a procura não se destina a um achado: a procura é o em-si humano, o propósito da inculpação e da anorexia mental. e então se lembra de algo sem importância. insere irrefletidamente algo ligado à desimportância narrativa, "eis que vivi", responde a si mesma. quisera um trono de ópio. quisera um jardim azul. silvia durante anos acreditou nas palavras escritas. criou um trono de ópio. criou um jardim azul. sonhou uma vida impossível e ressignificou impossível como animalesco ou sem-comunicação. ilhou a cabeça.

adeus, úrsula


não fui eu o primeiro a notar
que ausência sou constância

nem que os nomes deslizam
no horizonte sem lembrança

não fui eu Señor cem anos de
solitários buendías patriarca

nem o primogênito oblongo
da riscada solene balalaica

não fui eu o azar das estrelas
nos decompostos * finisdados

nem o pleno amor passageiro
de ícaros humanamente alados

não fui eu redentor da geração
caída quântica - falida númeno

nem a consequência prévia
das impossibilidades do número

não fui eu o gênio-prêmio
caído idoso sobre putas tristes

nem algo além de um pássaro
breve e infinito que transexiste



eixo difuso


os pés de bruna -
os pequeninos pés
de bruna,
percorrem de chão
calçados noites e
dias descamados

sem cama bruna caminha
rumo ao mesmo chão
que cama -caminha-
dorme: pois bruna
é
criança ruaníssima

preta nem pobre
infância negada
ela caminha
ainda que saiba o
círculo percorrido
da infância que não

pertence à caminha
da rua que bruna anda
ainda anda: vai – e logo
dispersa menina se não
te corro te como te sento
na caminha descabaçada

e ouve criança houve
tempo que cama de gente
caminha quentinha era
posse acredita? podia
dormir comer viver e
caminhar no vento.

você inventa um nome
bruna tenta um dia
hoje inventa um algo
meigo tenta um tanto
muito inventa um verbo
e posso um caminho?

diz ela enquanto caminha
com mais onze moleques
fedendo a vida vivida
escola dita bandida
- é
um dia de pé no chão.

pé de bruna e de outra
e outro que nem sei o
nome qual seja pouco
ou muito a importância
diminuta e essencial
da compreensão da

caminha que ela quer
chegar nalgum lugar
pulando ali dentro do
particular invadido
(ocupado!) corrompida
com pés sujos de chão

chão de gente
que também se chama
bruna
e caminha descalça
enquanto cama e vida
não existem fora-tela

de rua de cidade de
nada adianta pro
paganda pagã pro
pobre cristão que em
esperança caminha
sem cama sem nada

no pé fora chão esse
chão de história que
sabe bem que a hora
de chicote no lombo
se esgota e a marca
do pé-escória será

o divisor praqueles que
construirão a hora o
dia a noite e acabarão
com a fome da filha
e a dor da mãe e num
dia pé-no-chão

construirão para bruna
a cama
caminha
da criança
no caminho
daquilo que sim

Lã e Lá


desfio-te em tempo lento
(sento, sinto: vento vem
todo lento: tinto ou tento)
'inda que o frio l'aquém

de tanto tempo - lento, le
n t  o , l   e     n      t     o-

tente apagar o pensamento
(vem vento o ventre volta).

desfio-te. um desafio ameno
e um fio a menos. O, sinto o
frio. o corpo treme. enceno:
enfim teu calor perde-se ao

lvento vlento nvtole v

os milhares de fios - teu corpo qu(s)ente - pousam em f(m)im nos nós qu'enfeitam a nossa tímida in-significância sob
 os milhares de fios - nós que começamos desfiados, desfiandos, desfiárduos, desfiapos, pequenas presas do  l/v/s/t/w

e    nnn 
nn


to (my love)


o banquete


estrangeirx errante perseguidx

festivx viajante-expulsx bacco

diversão amor vinho pulso-ido

o banquete e os corpos: oferenda

-t'a ba cc o pois noite riocorrente

três coletividades copulam a senda

da Verdade que quer afirmar-te

 Dios nosso : Dionísio !


*poema de divulgação do sarau dionisíaco do coletivo maio

O após-tolo

"Mas carregamos esse tesouro em vasos de 
barro, para que uma força muito grande seja
 atribuída a Deus e não a nós". (2Cor. 4 .7)


...num abismo colossal. Tragado impotente, Damião nasce. E como argila, os anos e as mãos lhe transformam em vaso - que carregaria um tesouro, como ensinou o apóstolo Paulo. Cria-se bem, acolhendo sonhos e desejos comuns, aperfeiçoando a sina dos ninguéns. O local é classe média baixa, periférica ascensão latinoamericana. Cumpre matematicamente estudos, crenças e obediência. Torna, torce, retorce, retorna. -Se. 

Há uma marca no tempo. A pública universidade distorce o retorcido Damião. Consciência, possibilidade, crença, ausência mutante. Engaja-se. Re-conhece o exconhecido entorno. Percebe a interferência do lucro, a persistência da morte. Almeja vida, plenitude, um pleno todo. E nesse plano, perfeitamente mundano, engaja-se. Agacha, limpa o rosto da graxa e ergue a bandeira da vida. Muitos mais aos seus lados, como semelhantes aleijados, gritam, quebram, esmolam-se sonhossendo. Desiguais. A vida grita por desistir à morte, Damião percebe, reconquista e torce e torce. E seus desiguais, nem tão aleijados assim, voltam a suas bolhas surdas, insistem em existir na paranóia. Damião queima a bandeira, pois "pouco importa a bandeira para a classe", grita, regurgita e retorce. E na classe - de aula, de nada, de protoalgo - demora, agora, agora. "Tempo, onde estais, tempo. Em quais anos perdi tua mão, perdi meus bons olhos, meus amigos, minha rua perto da esquina. Tempo, quanto tempo, caídos num poço externo, alvejados por tantos mitos, calejados de pouco manto". Manhã, tarde, noite, algo menos algo mais, ali acolá, a bandeira persegue, engole, rasga Damião, que queria construir o que o Dia chama Vida. O estudo é imposto, de um lado ou de outro, queriam-lhe apenas como pernas e braços, convencidos por um cérebro fatiado. Crítica veio: falada, escrita, normalizada, defecada e exclamada por Damião. Mas o rolo intransigente da companheirada renitente calou a voz desconfiada. Torce, retorce, que um dia te distorcem.

Seus fiéis amigos agora precisam trabalhar. Agora precisam estudar. Agora precisam morar, comer, dormir, adaptar. Seus fiéis amigos perderam a crença, caíram no mundo, caíram na morte. "Estamos todos fadados a vomitar a maçã que comemos. Aproveita que tens um pouco a mais que aqueles que morrem na fome e acerta tua vida. A militância da esquerda é apenas um túmulo ético, Damião." No frio preciso das noites sulistas, soluços e soluções concebidas. O fogo ainda arde, Damião não se retira. Com seu pano pouco, sua madeira molhada, cria a bandeira de novo, cria a bandeira louvada. E nos trajes incertos, nos alimentos baratos, panfleta a verdade, a Verdade indiscutível do Ser. Ignorado pelos desiguais companheiros, que no mármore nasceram e no ouro perecerão, companheiros que no máximo sofrem de um sentimento cristão, Damião gasta sola e no solo finca a bandeira. "Por mais que meus fiéis amigos hoje se sintam desamparados. Por mais que a morte nos persiga, que o capital nos triture. Por mais que a cegueira nos cobice, que o Nada seduza. Por mais que eu possa simplesmente das as costas. Por mais que o mais me ofereça, a Verdade precisa ser dita". E num ato cosmopolita, ato de carne e espírito, Damião se sacrifica. Perde as aulas, os rumos certos, o ensino, o trabalho. Perde os sapatos bonitos do avô e do pai e as roupas amadas da avó e da mãe. Perde o peso monumental do esperado por uma chama de esperança.

Luta incessantemente pela destruição do passado. Não vê mais sentido no resgate do resgatado. Quebra cruelmente as estátuas louvadas pela esquerda e pela direita. Envenena com a verdade todos os partidos. Ataca impiedosamente os falsários do novo. E com suas mãos e outras mãos junta o barro perdido. Torce. O barro que somos. Retorce. O barro que habita. Distorce. E ao barro imundo, mundano, Universal, juntaram-se as mãos roídas pelo tempo. Transtorce. E num ato que se dizia final, Damião criou o Vaso. "E nós, nada além de nós, somos aqui e agora: Deus, Cosmos, Tudo e Nada."

O vaso possível ao tesouro compartilhado: Vida.

Os espelhos, os olhos


Aceite meu coração e minhas dúvidas como prova de minha fé. Ordálias, inquisições e torturas não mais satisfarão meu sadismo infantil. Aceite meu corpo como santuário sujo de um mundo errado. Compremos mais cascas para alimentar nossa insignificância totalitária. Aceite meu copo de plástico como presente sincero. O céu anda menos vivo e as estrelas revelam-se tumbas magníficas. Tumbas de uma ressignificação humana. 

Aceite minhas mãos em suas mãos. Minha boca em sua boca. Meu desejo em seu cortejo. Aceite uma lágrima feliz escondida entre um infito oceano de pranto envelhecido. Sou uma pequena alma triste em mais uma cidade estuprada por interesses egoístas. Aceite um abraço antes de dormir, em que a transmissão de calor seja suficiente para eu acreditar que estou vivo.

Aceite meus erros que enraizaram esse meu ser insuportável. A arrogância tomou conta da solidão expansiva. Aceite meus cigarros à varanda, minhas bebidas baratas, é um paliativo necessário da rotina dilacerante. Um dia sonhei que andava com a cabeça leve sob um céu iluminado. Ouvia o vento declamar poesias de tempos que não vivi. Ouvia meu coração destruir sua própria lápide.

Aceite meu coração e minhas palavras. Minha mudez e minha nudez. Minha impossibilidade de não centrar este texto em mim. Aceite meus pés que fogem, minha mente que esvazia, minha memória que alucina. Os dias e as noites viraram apenas dias e noites. Minha pequena contagem de tempo é a fé num nós harmonioso. Aceite meus olhos cansados.

O meu transporte é calmo agora. As ondas, as intempéries, os tufões e os rumos inexatos do sol deixaram em mim marcas: em meu rosto, em minhas mãos, em minha pele. Marcas que não esqueço. Marcas que em ti também vejo. Por isso te aceito. E espero que novamente possamos vestir o agasalho comum de nosso amor e de nossa amizade.

c. O










*

seu céu seu sol
seusóisão so  Ó  
há numero cáos 
um ato um mo- 
re sós seus sóis
nascéu  nosseus
seissóisseus O só
sem céu sem sol
só a(to)more só
como  O  cosmo
O rat o rastro O 
centro  limpos-
sível Oh rivel ri
-ver fluxo rítmi
co sssssssss mo
um átomo é Um
Ser um céu seu
sol sem só sem


um ponto qualquer: um seja! inquestionável irrompe o ovo: big bang, deus ex machina! matéria anti-matéria energia. lutamor construtora, fé cega em implosão. 


seu céu seu sol
ser não ser sim
homem amém
homens amem
só seu só sal to
no (w)here  on
-de pois se sóis
são só o pão da
luz pão da   flor
pão do fruto  O
pão da fhomem
amém    system
sem como sem
cosmo  só  sós 
sem   sóis   nem
sais nem souls
sem céu sem sol
ser  Ó  semente


na terra dos seres, no solo dos tempos, plantada está a possibilidade. o homem se suicida inconscientemente no verdourado Nada. econômades tantos, canibaixos estátuados. o plástico e a lente con-formam a v-ida. os olhos amam o chão e o céu foi dissolvido num mito cristão. welt ex machina.


eu céu eu só O
seu sol eu sou
um   onde   um
quando  e  um
quantum sem
senda o sendo
o átomo total
o parto-me to
all o málltomo
o   quer/tomo
agonia     póst
-uma  ciência
abstrata  uma
arte concreta
una senda pos
sível river hiv
er ex em el eu
co(s)mo tudo



In-verso


símbolos soltos ao vento
máximo estaciornamento
calo ao claro pano celeste

esmiussendo-me tolldo

como couraçado aviltado
(navio                coração)
:
um último pôr do sol.

a sonoridade impera no mundo
vejo-te simples em longe finistudo
diálogo-tato, morro poente

"quero engolir teus olhos gotejantes
e pacientemente regurgitá-los
na boca de nossos fetos ocos

antes que o vermelho volte
antes que o passado in-surja
antes que nosso dia.. noite"

esmiussendo esmeugalhador
cosmabsorto crânio-penso:
meu amor, eis que eu... luz

 círculo óptico


ao camarada aukai leisner




i.

teu pranto me acalma, olhos-viventes
mesmo doente um canto ressoa
anúncio-pessoa: premente ausente



ii.

cá findamos a complacente finitude
(inda que muito falte ao tanto-além)
teu manto me entende, olhos-videntes


clamo teu mestre e oro ao presente
olho-ausente. pronto aponto, ponto
à ponta Mesmo-vivente: há: sente



iii.

prático sê no ofício profético e
lívido sente o poético evidente:
costura-te a cólera, olhos-viventes


com todo recuo um processo
com toda récua um progresso:
não te traias com olhos-clementes


cumpre sereno teu destino-tudo
vivente presente: nunca-ausente
doa teu corpo ao que não-mais-será



MANIFESTO (projeto)



CAMALESSOMOS   TÍMIDOS   TÍMBRES
CRANIFEITOS        CARNE-SOFRIDOS           FA
CAÍDOS    ÍNTIMOS   DO   TOM   AS                TAL
TRAL.      COSMO-LÍMPIDAS    A-                    VEZ É
VES  RASGA-TUDO  ENTRE(S)C                       S  TAL  I- (N)
ÉU E O   MAESTRAL   TÉDIO                             LHA  VEZ  QUE
ANTES-ALA        ILUSTRE                                   SER(?)  ALGUISTO
DUM INTENSO   MÉDIO                                     –  AUGUSTASSÉDIO  –
RETENSO BERÇO EX                                            VEZ  QUE  TAL   ISTO  (D) AS
PLÊNDIDO  PLENO.                                             SOMBRA(S) UN HOMBRE EXTADO
PRESO        COMO                                                   EXTODO,    OLVIDO(R)    RIORRENTE
CAMA.       PRE-                                                       AUSENTE      SENTIMENTO      CIMENTA-
SOU     LEÕES                                                          DO  TODO  EXC[R[UDO.  AINDA  QUE  IN-
PRE(N)SA E                                                              SURJA  UM  CAMPO,      UM LONGO      ,  UM
CA(U)LE                                                                    LONGE,                SEJA SEMPRE SAÍDA, HA-VER
                                                                                      DESTINO E MISÉRIA E VISGO É A   [COISA-VIDA]




BERÇO
EXPLÊNDIDO




META-POEMA É POUCO E AS HORAS SÃO MUITAS. HÁ ÁREAS INACESSÍVEIS QUE COM-PARTILHAMOS A VONTADE. MEUS AMIGOS POUCOS GOSTARIAM DE EX-PERIME(N)TRO O NÃO-SER. CRIAMOS MUNDOS AO BUSCAR O VÁCUO: O SILÊNCIO IMPERA NA ARTE. A POLÍTICA O BANQUETE-ERRO CÍCLICO. A FÉ A SERPENTE-PENSANTE QUE SE ENGOLE-CAUDA. MEU LENINISMO FOI ENTERRADO POR MINHAS UNHAS EXPOSTAS, JUNTO A MEUS OLHOS DÉSPOTAS. O MEU ÓPIO É O ACASO.

DES
RE
EX
A 

 " PÓS-HUGO "

O que é viver?


"Mas, o que é viver?", pergunta Alain Badiou.

O menino surge das sombras. Há alguns minutos pisa firme no Marechal Deodoro e sua furiosa ideologia nacionalista-patriarcal. Percorre a madrugada a busca de sua essência vulcânica: auto-destruição. Foge deliberadamente das luzes e encontra na escuridão um refúgio emancipador. Dribla mendigos, travestis e os chamados "marginais". Compartilha alguns cigarros no caminho e estipula a si mesmo a redenção por tal caridade. Anuncia sua chegada a São Francisco. Não baixa os olhos molhados um segundo sequer, quer notar a notoriedade nula duma sobra na madrugada. É frio no verão. À sua direita Jokers e conhecidos, despista com um "vou encontrar o pessoal no Largo" e ruma fingissorridente. Acelera o passo por demasiada multidão sábado-noturna. Álcool, conversas, fumo, gente. Pó qu'inda não conheceu sua origem-nada e futuro-mesmo. Ao lado do Alemão poderia reconhecer alguns rostos - ou talvez todos - aquele bando de Mesmo inconfundível afundado no Nada-invida. Sobe mais e encontra-se. É pago com álcool e sorrisos, caminhos, amor e sorrisos. Sente-se Ali. Sente-se. À sua mente sua mãe e um diálogo infindável que lhe corroía imensamente:

– Por que você faz isto com você? Por que gosta de se auto-destruir?

– Eu sou assim.

– Por quê?

"Mas, o que é viver?", pergunta-se.

Ao caminho regresso, mesmo-sempre, derrete-se frívolo em lágrimas. Espanta o álcool com lamúrias e gente com desgraça. Escolhe os "piores" caminhos e torce. Alguém, alguém haveria de puxar o freio naquela noite, não aguenta mais. Dói-lhe a desnecessidade de resposta, o supremo conhecimento final perante a morte. Sabia demais e sabia que esse saber só lhe significava o fim. Cambaleia em marechais, generais, salvadores, santos e curitibanos ilustres. Homens e mulheromens-aceitas desnudos em ruas saturadas. É num beco solitário que avista sete homens cambaleando também em uníssono desespero. Não mais esquiva.

– Passa a grana!

– Não.

Abre a carteira e mete fogo em suas notas e documentos. Não precisava de nome ou bens, a iluminação é Nada-tudo, aceitava-a. Rasga as roupas e ri mais alto que um porco no matadouro. Estraçalha o celular no chão e provoca com a felicidade final. O último ato de um Ser. Cospem-lhe socos e pontapés, pintam-no de sangue e mascaram-no de osso. Rosto fundo no chão, come poeira e se torce em pó. Correm satisfeitos sete discípulos do Todo sistemático. Na manhã, poucos minutos além, fotografias e a percepção da brancura da pele e do não-estigma morto. Preocupação e manchete.

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A mãe acorda num domingo ensolarado. Beija sua amada filha e ama o filho a distância. Procura o celular para conferir as horas passadas. Uma mensagem resta. Abre-a.

"Porque não há mais nada. Nada é estar vivo. Não me enganarei mais consumindo o Nada", responde-lhe o filho.

pavdor


miséria. loteria áspera: roda te me assola. giro inquieto, peão absorto. a( )fundo o marco de minha estagnação. 

hoje pão.

e aqueles mistérios da vida? calamos frente ao ópio mercadramático. traímo-nos, tralha-traindo. qual sub(in)stância aceita a fome? ingere a (c)alma e cospe!

hoje não.

um homem desce ao cais. são cinco horas de um tempo sólido. sua carne putrefata arrasta a sombra suja cuja vida ainda. uma mulher come pastéis, olhos atentos aos olhos desatentos -nem tanto-  transeuntes que esmolam-se aos gritos atenção, atenção, solidão! . um menino acorda despejado, esfolado, come sua carne em gesto-protesto. um cego discursa a inoperância da escrita, não reconhece o intocável/intangível/isto. uma menina acaricia os seios e procura uma explicação racional para não sentir qualquer prazer. trans(sexual)morr(idade)e. um animal foge instintivamente de meninos belosaudáveis acamp-onde?-ando. não-sabe de nascença os perigos hurmbanos. corre livremente sZeus pés-vivos na Vida. não questiona qualquer existência e vive em constante r?evolução. um casco lamenta o sangue nas ruas. o chicote fera carne. 

não mais.

urbes aceitos. havia um inocente medo. víamos ali um refugio. fósforo e cheiro de côco, alimento pouco e pele extensa: o seu amor é o paliativo da minha existência. o medo é:

que se rei sem?

F.W. [from mr. Joyce] unreading p.?:


(d)existê(ssê)ncia
mIlí(a)da

–whyle  mhe  rain,rain,rain


sê     r     est
allgo
va            go
t ra(s)go-  t
eu?

res  is  tens(i)a
,eminência!


milí(A)daSu(re)AS


que       m
eu/too...
f(r)om 
O......
s..   


?