p ilha


uma lágrima corria - como o rio que sonha - o rosto de silvia.

forçava linhas por entre os dedos, qualquer coisa que a livrasse. o universo permanecia cientificamente infinito. e deus, meta física pura, consistia no inexplicável: apenas o seu próprio vazio condensado em signos. parecia-lhe texto. um sem-textura exposto. deus não pode ser uma víscera, pensa. e assim constrói o esquecimento.

mais palavras num rumo incerto. silvia procura rimas. silvia procura sentidos. silvia tem a plena consciência que a procura não se destina a um achado: a procura é o em-si humano, o propósito da inculpação e da anorexia mental. e então se lembra de algo sem importância. insere irrefletidamente algo ligado à desimportância narrativa, "eis que vivi", responde a si mesma. quisera um trono de ópio. quisera um jardim azul. silvia durante anos acreditou nas palavras escritas. criou um trono de ópio. criou um jardim azul. sonhou uma vida impossível e ressignificou impossível como animalesco ou sem-comunicação. ilhou a cabeça.

adeus, úrsula


não fui eu o primeiro a notar
que ausência sou constância

nem que os nomes deslizam
no horizonte sem lembrança

não fui eu Señor cem anos de
solitários buendías patriarca

nem o primogênito oblongo
da riscada solene balalaica

não fui eu o azar das estrelas
nos decompostos * finisdados

nem o pleno amor passageiro
de ícaros humanamente alados

não fui eu redentor da geração
caída quântica - falida númeno

nem a consequência prévia
das impossibilidades do número

não fui eu o gênio-prêmio
caído idoso sobre putas tristes

nem algo além de um pássaro
breve e infinito que transexiste