canto das estrelas-do-mar


batiam asas nos idos tempos
de inglória e tédio humano-
menos: infinita piscada (v)ida
corrida em fluxo mar adentro
espelho confuso com fundo
incerto, calado perpétuo de
timidez exposta. dias, noites.

o céu imitava ondas com nu
vens e vais (e) como mar-dia
o impossível coração-céu pel'
obscuroceano desestrelado: "
amo-te ó mar, gêmeo do azul
incorpóreo, desastro rexistente"

e o jovem oceano, síntese das
lágrimas do mundo, evaporava
encabulado pelos belos dias
primaveris: nuvens nuvais nos
impróprios círculos imperfeitos
do globo: prisão objetiva.

"ó ceu amado, libidinoso sim,
a gravidade é-nos imposta por
ciência transumana. não há o
que possamos fazer contra a
empiria universal: a norma é
a pulsão primordial do não"

mas o céu não desistia de amar
e repetia: ri mar, ri mar, ri mar;
enquanto espelhava anoitecido
no amado o luar minguante(s)
desvanecido e arrancava ondas
de pulsão posêidonia passiva

"ri mar", sussurava o céu em
vento: invento inumano mesmo;
despejava estrelas lágrima-cade
ntes pela intangível distância e
esperava o quente vapor d'água
aproximar-se de sua via (labial)

láctea. o oceano rasgando-se
em correntes marítimas não
perdia o céu - espelho seu -
da vista mais-que-humana do
universo deslíquido e sentia ao
vento o beijo invisível do amado  

e da erupção indomável do
amor impossível - da ejacula
ção precoce do amor juvenil
- o mar trans-formou-se em
fogo (globo-feito) e sujou de
luz infinita o infinito céu de
astros tantos mas apenas um

sol

: intersecção possível. aurora
e crepúsculo, oceano celeste,
céu marítimo, espelho (como
impossível não ser) um do ou
tro: amor é si ti em totalidade
da natureza à matéria, a vida
é apenas pequena      (p)arte.


semana


a cama de dois
              tem um
rola, enrola, vi
ra          e   nada
passa a noite é
triste a solidão
                             pesada

amor


certo dia ganhei um espelho, um belo espelho plano. eu era ainda muito novo para lembrar um quando ou ter a certeza de que ele não esteve lá o tempo todo, desde que abri um olho. de qualquer forma, era um belo espelho plano, que me acompanhava como uma sombra ao fim da tarde. ele mantinha as certezas em meus olhos, satélites atentos de minha geografia, e repetia minha boca megafonica autoesculpida de dentes. o espelho me sorria.

quanto menos criança maior o espelho. assim, passaram-se anos, até a idade em que o mundo sentido pelo meu coração lá cabia. e eu via o mundo no meu espelho de Sempre. e eu via Eu no espelho da vida.

mas eis que chega um dia. um dia que foi Tu: eu te vi no meu espelho, eu te vi ao meu lado, com minha mão e teu olhado, eu te revi e eu senti: eras tu que era Eu. passei, então, a te querer no Ali, no espelho de É(a)go(ra), como uma árvore em juventude lançando pétalas ao infinito. contudo, nunca mais te tive ali.  procurei e me perdi: nunca mais houve o já-ido. e na loucura do desejo, da procura irracional de verdades e de futuros, eu mergulhei em meu espelho.

fez-se mar e o meu nado doloroso de cacos. te procurava em cada novo pequeno espelho de mim: entre meu sangue e o reflexo de algo-mim algo-lá. mergulhei em carne no meu espelho quebrado.

a cada dia mais fundo, procurando nos meus fragmentos o Eu por ti completo. esperando que no mais profundo abismo de mim, encontre por fim a resposta ao Tu, àquele do momento paranóico do endeusamento, do fazer-te pai/mãe/irmã(o), do fazer-te mais que, do fazer-te a mim próprio fora de mim, do fazer-te minha possibilidade. e a cada noite espero uma luz e menos cortes. menos eus desconexos. menos medo de um pedaço maior e mais forte desse espelho penetrar o meu peito até o coração e te matar no além-reflexo.