natal em vladivostok


é noite e ao menos posso ver as estrelas. sessenta e oito, sessenta e nove, setenta passos: eles não cansam de andar a minha frente. o ritmo é de engrenagem viva, semelhante àquele sofrimento das respostas ausentes. vez ou outra miram-me suas cospe-balas a fim de lembrar a inevitabilidade do destino da lei. sabemos todos que eu não sou pessoa de fugir a compromissos significantes, como o dia da própria execução. erram aqueles que crêem que o momento é de grandes reflexões ou mensurações de desperdícios. apenas andamos calados, longe das águas e dos cercos familiares. escolheram-me há dois meses, revelaram, em um site popular em nosso país. quando fui encontrado num banco de praça bebendo vodka ao amanhecer tiveram a certeza da minha conduta imoral. divergimos politicamente ao som dos transeuntes matutinos, mas o regime russo sempre impôs-se acima do tempo e do osso e eu calei qual formiga sob a ótica da lupa ensolarada. minha transpiração masoquista causou-lhes instiga e aversão, as quais consubstanciavam-se em erotismo profano na medida em que cresciam as torturas. pude finalmente me identificar com meus maiores ídolos, mortos por profanarem a sacralidade das tradições. um misto de gozo pelo papel de vítima e tristeza pela ausência de publicidade confundiam-me diariamente naquele pequeno cômodo frio. afinal eu sucumbia definitivamente ao não-ser contemporâneo e nunca soube exatamente o que seria isso por mais grandiosa que se manifestasse a curiosidade. foram os melhores dias da minha vida, senti como se cada músculo de meu corpo servisse a minha pátria. o bem maior enfim agia em mim e o gozo da sincera hipocrisia me afogava num êxtase pré-colombiano.  eu podia sentir a censura a tal sentimento em cada gesto de meus algozes, mas também nas minhas memórias daqueles que se prostraram historicamente conjunta ou contrariamente ao que eu manifestava ser. eu não me submeti, tampouco me insurgi, por isso tinha a certeza de que meu cadáver não atingiria o patamar comum da culpa universal, milenarmente – e não unicamente - cristã. sentia-me, ao fim, fruto superior aos falsos antagonismos da busca gananciosa do poder. confundi-me dia após dia ao nada, resistindo apenas pela ilusão de provar a alguém a colossal verdade do erro. no último dia pude novamente andar. semelhava a um mártir: lento, doloroso, sábio. eles me escoltavam, pouco me olhavam e temiam a minha obediência plena. eu jamais saberei se atingi o objetivo de alguma organização ou indivíduo naquela noite, independente de crenças ou ciências. apenas posso me resumir ao empirismo narrativo. não lembro do nome a quem abaixávamos cabeças à época, se era um khan, czar, secretário-geral ou presidente. tampouco me recordo se era eu de uma etnia minoritária, negro, artista revolucionário ou não-heterossexual. pouco importa. entendi que aos que detém poder, por mais variável a justificativa e o objetivo, nós somos apenas um retrato nostálgico. agradecem sinceramente por roubarem nossas vozes, usarem nossas bocas, usufruírem do nosso dízimo. cabe-nos apenas a submissão e a ironia. o homem que me matou derramou uma lágrima. não tenho ideia de seu significado e isso me consome.    

crise



1
um 
|          |
aqui o
quadro
|         \
buraco
de rato
|        _
aqui o
quarto 
 /       _
avaria
sólida
 _      _
aqui o
Q
 _   _
 molha
 a nuca
_ _
 encost
aqui
__
agora
some
_
0



n


i.

casca, crosta, cálcio
mostra se frustra se
prostra no chão, no
chão do chão ali e


rua, foi, rua, foi, foi
vi todos, rua, vi que
-olha, passa, vai, ru
a, no chão, duchamp
du

vi todos passarem, ó
vi todos passaram por
mim no chão, sentado,
vi todos passaram e


minhas pernas dançam
longe, não ouço, mal
sinto mas sento ao chão
-crosta fria, gruta albina
oi


ii.

fatos, fotos, foram-se
todos passaram a rua
o chão, eu sem pernas
adoeço o tempo de
sem

cálcio, casca, canseira
eu mirava o chão dos
dias vindouros, todos
passaram ali, pernas,
todos

a rua as pernas de todos
enquanto eu dançava
meus pés batia minhas
mãos, ouvia e falava
longe

perto não era mais
pois eu apenas chão
(e ninguém notou meu
resto dilacerado rosto
na rua passada
-crosta fria
suplicando

meu deus)



refugo




refém, refugo, refúgio. consumim egora. #gozopoetico

instagram, out13


el sur le
o   ü   o
el sur le
é   ä   é
sur le sur
o ü B arg!
le el le elle
sur le sure
le elle l'il
ill île í é
sur le sur
dô sœl dó
el mel tel
sur quel
el sue U
elle sur le
sur le sur
ó    u    ó

sucré
sur
crê
lel


imensidão artesã


à mari t.


a ética do cansaço
perfura em dentes
cálcio artesanais
mãos de samurai

por quanto tanto
questionas, pedras
inflamarão tuas
costas beira-quedas

o amargo enquanto
ressoa (dia sobre 
dia) o doce afiar da 
lâmina sem pares

decapitarás ares e
sabes: deuses cairão
a tua ideogrâmica   
katana materialista

até lá, constróis na
efêmera juventude
tua armadura de
fome frio falta

o coração preso
à carne contudo
é força sem medo
sem descanso é

sabes que apenas
te vêem armadura
te julgam arma 
dura, te bastam

poucos vivem
o barro moldável
de um coração
revolucionário

sem pranto sorris 
ao piano: um dia
música será meu
ofício e ninguém

sofrerá por fome
de espada ou terá
de sorver lamentos
em presídio-vida!

na firme crença de 
nova universalidade 
te esculpes 
em armadura de jade 




Thy Freedom


i.

Kiselev: “Eu acho que impor multas aos 
gays por propaganda homossexual para 
menores não é suficiente. Eles deveriam 
ser proibidos de doar sangue, esperma.
E seus corações, em caso de acidente de
automóvel, deveriam ser enterrados no
solo ou queimados, como inadequados
para a continuação da vida”


ii.


engulag-me ó pátria

queime meu coração
queime minha rosca

(eis que a luta de classes
russa atinge o gozo anal)

'The Paideuma Zamba' by Francis Fukuyama (int.: Slavoj Žižek)



o Harold, i miss you

tua pós-utópica transcriação qohéletanta
- como falar de ti sem acorrentar o vento?

ignorou o polimidiático facto de que a   re
construção ideogrâmica do império chinês

se faz com ossos
curvadinhos sob

@_+=[?*¨&#$
%"ºª~`>¬³^!§{

(nevertheless Harold, we fist you

diria Kamerad Lênin ''Várias vezes tentei ler
Maiakóvski e nunca pude ler mais que três

versos: sempre durmo.'')


NICHTS ODER ALLES



AH            mundo
      mundo             AH

a caixa torácica do governador dos
estados unidos da américa está exposta
no MoMa, oh my god!, ouço a criança
chorante, mundo mundo ah, é tanto
que queres que eu que eu ah mundo
eu espero eu espero mesmo que ali
na esquina o pobre governador já
saiba que a revolução moeu seus
ossos e farinhou seus dias no pó
que tempestades naquela última festa
à preamar, ah mundo mundo mundo
é muito e mesmo e isso é aquilo que
é espelho e revejo e seja e é é é

mundo
           AH
                  mundo

descobri nesses dias de inverno que
a bolsa escrotal do papa leva baba de
nenê até a contração máxima do estupro
"eu já não quero mais existir" eles
reclamam aos prantos que não há utopia
pós-utópico pois o poema não há que rei
ventar aqui posso quebrar letras palavras
ideias imagens sons tudo que categorizou
pound ou qualquer desimportante pós
pois o mundo já tem tudo tudo tudo

"ouça uma canção no rádio"

repita repita repita essa é poesia
poesia poesia dada dada dada
e foi foi foi e mundo ah mundo

posso repetir para o Sempre que
amo amo amo a poesia e gozo e gozo
ah como gozo essa porra poesia
porra como você tá gostosa hoje e
eu babo e dada baba daba bada baba
aqui no colo no colo eu papa e você
sobe poesia que acabou acabou tudo
que aquela gente europâncreas impôs
nosso reto acima empalados nas culturas
das favelas e das extintas aldeias e povoados
não não há mais que pensar em totalidade

mundo ah mundo
           AH

     eu só
   eu só
               eu só queria ouvir algo expontâneo assim
 por alguns minutos que fosse mundo por alguns mundos
             minutos eu só mesmo
só isso me bastaria
       ah mundo       ah mundo            AH AH


    eu êxtase
eu quieto sempre
     eu sempre quieto te olho te olho

te olho te encaro você pede fala fala

      eu te olho eu só te olho



      só
                 


ah





mundo
ah      

minúsculo


o fractal que revela o cosmos
a quebra na fala
a língua seca
a arquitetura desolada
os pontos sem riscos
as distorções
as dodecafonias
o silêncio durante o espetáculo
a escrita pelas mãos cegas
o autismo social
as rugas jovens de trabalho
as pernas murchas paralíticas
os ossos moídos na comida rápida
o câncer diário de sobrevivência
o lá partido do violão
o pulso sem sangue
os leilões de escambo
as mostras mudas
a arte pescada no bueiro
o cigarro aceso ao avesso
a cacofonia disléxica
as bocas costuradas de ingenuidades
o sexo virginal dos bêbados
a poça das pombas
o músculo do prato pobre
a carniça das ovelhas no frio
a paixão preguiçosa no coletivo
a rasura no canto do papel
o fogo poluente nos pneus
a criança do labor
o ofício do prazer alheio
a vida microscópica
o reflexo das estrelas frente ao sol
o universo em expansão
o metabolismo mecânico
as teorias não acatadas na academia
a pixação no muro branco da igreja
a lâmpada queimada no barraco
o dilúvio de nóe existente
as manchas da infância na pele campesina
os traços indígenas dos banhos diários
a roupa que se veste feliz
a tortura européia nas periferias
a coceira na orelha suja
a caspa que se mescla à cinza do cigarro
o vento doente das cidades
as folhas secas do verão
o som escatológico do banheiro público
a orgia gay de pais de família
a cicatriz da doença não esquecida
a filha estuprada na esquina de casa
o parente violento dentro do lar
o filme esquecido na video-locadora
o erotismo das escolas
a sedução dos cata-ventos à preamar
o linho nunca tocado
as histórias esquecidas
os mentirosos das praças
os chapéus que foram roídos
as canções que não foram escritas
o fractal que revela o cosmos

um brinde ao infinito alice

um telefone fixo na parede carpiu minhas ideias
quero explodir um minotauro nas ruas de belém
até parece ela disse me rindo tanto que até feliz
eu fui naqueles dias jovens antes da infância da
minha mãe perguntei tantas vezes por onde andar
íamos mas não havia resposta certa era só um cá
já de caetano ou um cósmico blues na trajano ah
que classe mais desmedida nos bueiros da cidade
o que mais você esperava ela me disse rindo e r
indo por aí como folha que secou no vento e nele
tomou forma de calma tá certo eu sabia que sim
por isso mantinha meu pulso em riste caso os
meninos de calça ainda quisessem brindar no as
falto pois convenhamos não há nada mais belo
que o rito da juventude claro ela disse claro que
sim seu besta deixe dessa de franzir a testa a
qualquer notícia de jornal que amarela os lírios
e até mesmo corta os pesares do dia de 1980
não voltaremos a qualquer festival num estopim
de motes e o que mais seja essa época talvez
só voltemos quando realmente já tivermos ido
é óbvio ela me disse mas eu gosto do óbvio
eu gosto de escrever qualquer coisa assim sabe
e lembrar que já tive dedos e mãos e cabeça
antes de instaurarmos o cosmosnismo nesse
planetinha meio xinfrim meio sem fim porque
redondo e rola roda ruma e mesmo com tanto
erre não erramos tanto assim não é mesmo
acho que só queríamos uns versos por aí que
cantassem um pouquinho no nosso ouvidinho
cheio de cera de dia-a-dia mas fazer o que nos
deram apenas pés e pernas e penas para não
voar mas enfiar cabeças em buracos de nada
nada e nada-nada que fome essa avestruz que
vive dentro de nós quando pensamos nas noites
que ficaram logo ali e apenas dormimos sem
estrelas ao não ouvir o que mamães papais
disseram nos diários da infância da terra pode
ser que fosse algo até útil mas preferimos
descansar um pouco do mato de asfalto com
as muitas limitações que todos menos nós
querem fotografar.

acordei nesse outro dia e até me olhei no es
pelho vai que algo atirou na boca e ali agora
tem olho mas não nada de novo e de novo
tomei café naquele padaria das 4 da manhã
rimos uma bocada e você nem estava ali mas
queria dizer mesmo que rimos muito aquela
noite e era dessas caras sérias que víamos nos
muros das escolas particulares todas se enfilei
rando nas retas de concreto pois olha e eles
nunca nem ouviram falar de concretismo e
então continuamos esse riso quase escrito de
um hoje infinito é cara nada é eu sabia e fiz
que sim com a cabeça que ainda existe nesse
pescoço um pouco torto você me disse que
na russia o crack tinha nome de réptil e a
moçada curtia ouvir um punk-rock até a
manhã do outro dia que nunca chega eu a
cenei de novo quando lembrei de todo o teatro
que corria nas veias das nuvens que cobriam
o céu lá há muito mais que nessa cadeira
eu disse e você concordou interpretando mal
minha logopéia de pano-de-chão até parece
que comprávamos leite mas eu não sabia se
acordaria ou dormiria ou se nada era só isso
mesmo senhor sim obrigado passe no débito
porque meu dinheiro acabou mais cedo e que
ro te mostrar uma mágica e então você riu de
novo e o vento até bateu nos cabelos longos
voamos para mil espaços fechados antes de
pedir a liberdade para aquele grande senhor
que nos observava diariamente nas câmeras
novas da marechal deodoro eu só queria um
pouco de bicicleta nessa carreta e você mais
mandirituba no sertão porque aquela menina
dos poemas idos ainda não tinha olhos para
o senhor que bom que os arrancou antes do
destino de fábula e acredito que também nós
vivemos assim um pouco com olhos nas mãos
e mãos do Senhor pois mestre é qualquer
destino de liberdade confusa você não acha
claro que não e então divergimos pois eu estive
errado nesses anos todos ao seguir a rua certa
e curvar na avenida onde vinte mil pessoas
ainda gritam para os ares da grécia antiga
por mais que saibamos que o olimpo nunca
mais foi visto e ontem tinhamos verdades ainda
e hoje é o que mesmo e não sei mais nada
além disso que tomamos um café e talvez
fosse só eu e você a ler e você ali.

por vezes esperei uma carta de resposta que
me emocionasse com um brinde um liquidifica
dor do faustão ou aquele caminhão que ele pro
metia na tv aos domingos mas não havia nada
na correspondência por isso tratei de escrever a
mim mesmo e aos minotauros das cidades bíblicas
esperei até o dia fechar as portas para beber suco
de limão com pêra um vez que fome é época e
época é isso aqui mesmo quando te encontrei nos
muros e nas ruas e nos prédios e nunca no mato
é que o mato é só meu você disse e não me quis
em paris nunca mais eu sei e fui embora outra vez
os nossos dias tão ficando longe hugo e eu olhei
pra trás e você estava certa não tinha mais muito
o que ficar lembrando dali vamos embora e separa
dos é claro é claro trocamos dois abraços e sabíamos
bem que a gente não ia mais se ver mesmo só aquela
coisa de internet que no fim ia nos confirmar dois
bocós mesmo mas também era algo para além
disso aí e sabíamos a gente vive no infinito amiga
eu disse e ela me ouviu uma vez e outra muitos
anos depois quando a gente entendeu finalmente
que estrela não é igual poste e que esse amor incon
dicional é o que os livros um dia classificarão como
amizade e eu não queria terminar nessa coisa melosa
por isso fui adiante e soprei mais um folha seca mais
uma folha seca ao vento e sabia que ela também sopra
ria pois a gente segue rindo e soprando e no mundo
amanhã teve tem terá muita folha desprendida que
mesmo seca corre o vento como um capacete de
moto.

fala-se em fertilidade nos noticiários


i.

não mais às montanhas
         recorrem povos híbridos
       
ouvi dizer: prenúncios (des
         ditos) nos kremlins ressoam
       
         pois um (mais-dia)quando
         na fome da carne abastada
         é signo de quebra e medo
         do fim presente de ontens

talham: um temporém

de metades e
         meios cosemos rugas e
esperança
         respondemos

ii.

filha da Mulher é a manhã
         da prole desapropriada

vida!
         esgota-me no concreto
         gozo-e-luto do real!

serra-me os ossos
         na manufatura do
porvir, aurora pétrea!

400m, 25 min - nos quantos dos cantos


é ch.
ch pf.
ou s?
sssss, digo.

é sh.
pff ã
pshh
ou.

ninguém imagina
o nicho do lixo
- ninguém, por favor
suspeite disso e
me agarre como se amasse eu não sei dizer nada nada mesmo é só moeda lá cá e digo e digo e digo
mas sh.
pssssssh.
h

o som do h
o som do h
o som do h

muitos OOlhares
que desconhecem
o lixo do nicho

sssshhhh

desvia-me
vai, desvia-me com o medo que te aflora a carne

psh psh PSH


"Ñande Ru Papa tenonde gueterã ombojera pytû ymágui"




!



—?



|
__   
.



(   )




7119473923

chave léxica: adultus (ad + alecere, participio praeteriti) & ausências glo/balizantes ou "nunca mais"



novamente em finismundo


hýbris de um viajante, último odisseulisses, finismundo (finistudo), ousar: ousar o mais: o além-retorno: ítaca ao avesso. haroldo, pai freudiano de um filho só de mãe. ousar -hýbris- ousar o não-mapeado, por mais cotidiano (confinado) o coração. melopeia, fanopeia, logopeia: cortam(serram)-me transmoderno-nada, é tudo. (não)sou um ulisses, escravo de metades.

no círculo a vírgula do amor

acompoeirautomatempiagoupacionadondelamothánatosótant
olhaíscaboutrapacedaméritorgulargosábiodecepadoutrinãoué
rostrouxênciacademoutragorápidigoutreloutrelagorágortoitue
rarespésoumescladentrínsecretantristrasouvelhintegrallembra
ntolstalgamintesperissmesmasimplaosívêsemtudénaindigo(da

patronado


é como se um bicho me devorasse por dentro, ela definiu seus sentimentos à beira do rio que ligava nossas infâncias, diga-me mais, pedi com cautela apreensivo que notasse minhas mãos como espelho em dia frio de quente chuveirada, um peso que sofro por não carregar, ela ainda tentou meu convencimento. sou ateu e meço o mundo de forma europeia, certa vez questionei os caprichos de minha gramática surda e ajoelhei no milho do canto de um ovo. basta de lamúrias, disse eu mais ao vento que a ela (temia que me visse ali escalando qual um verme a parede de sua casa de inverno, não suportaria um julgamento mais que possuísse réus fotogr,afagos de minhas idades tenras, jurei fidelidade à sombra mucosa, jamais pedi penas e contentei-me às asas de borboleta), não obtive resposta em palavras mas o rio que nos lambia as solas trouxe-me seu calor quase materno, soube então que voltávamos a querer-nos bem como duas crianças de filmes que sempre crianças querem ser. imaginávamos roupas listradas coloridas, óculos desenhados com cor de lápis e gorros de nossas mães que nunca cozinharam pois escravizavam com papel suas mulheres inexistentes para minha orfandade. carecia-nos um magno significado, algo como uma aurora digna de aplausos cariocas, mesmo assim olhávamos o rio passar com sua dialética grega e pensávamos no nada hegeliano por mais que ela não me confessasse. limitamos os nãos e agradecemos pelos ouvidos bons e o paladar aguçado de cão, nossas mães gostariam de nadar conosco naquele verão após todas as vitórias das tecnologias. meu pai, pode-se dizer, foi um robô eficiente e me orgulhou pelo peito de cobre chileno e as mãos carnívoras de aço. ensinou-me a atirar em animais pois o sangue semelhava vida humana que era crime tirar, eu até gostei de carne e sacrifícios rezados, mas as folhas sempre me encantaram para além da simplicidade alimentícia (diga-se que aprendi que a areia é muito feia e fria à noite para ser a totalidade do que chamamos natureza). ouvíamos jazz nas encostas enquanto imaginava ela e mamãe comprando tortas para robôs e filhos do patriarcado tardio, o pai fumava-se todo risos e arrancava um coelho da toca só para provocar alices, mal sabia ele que eu lia tanto que suas teses me impressionavam menos que quinze arcas de nóes flutuantes sobre o mais cósmico jardim babilônico de édens. qohélet, ele brincava me chamando e eu não gostava pois apelido, robô, e ele enfurecia e surrava meu traseiro e minhas coxas sem querer e depois se desculpava, sou mecânico sabe, de fato eu sabia. nos improváveis genes ela estava e deu-me a mão no rio enquanto a poesia da flora caída rugia meu peitoral anacrônico, te sinto e minha barriga também é um buraco negro triste e finito, senti-me burro com essas palavras e lembrei do meu grosseiro pai tabernoso de lindes que não lindos, houve que ela sorriu e fez bolhas na boquinha de jabuticaba-olho, vagueei e procurei mais terra na água de intestino sonho, é um bicho forte esse que me serra os ossos, um bicho quase história, ele sofre como eu mas me engole enquanto penso, ele me quebra e rasga toda enquanto procuro palavras de choro e medo.


ei,
cosi algo para ti

guardei em tua gaveta extrema, perto da tua infância arenosa

perguntei-me se faria frio para lembrares da gaveta extrema
e, admito, vacilei por alguns minutos ao te plantar lembranças



saiba que algo como um osso restou entre nós
e não há músculo ou pele que nos esconda o rosto

daqui voltarei ao oceano profundo de sal e mim  
enquanto te vestes de nossas córneas entrelaçadas

leme


a visão embaçava mas o tempo urgia
no pouco restava no ali o esbulho de
si se houvesse sorte se houvesse ora
deus meu que há que foi por que te
choves tanto nessa ninharia nula de
meios e sem resposta encosta o olho
vidro embaçado rua escura piche e
menos dia para esse tanto queria ex
plodir dizia longe e baixo no sussurro
incomum para gente tão tagarela de
vazio decomposto a olhos vestidos de
ondes in questioná vê is pois foram e
adjetiva casa de ninguém como lá
em que vidros embaçam memórias
móveis sujeira densa luminária de
canto suado e com gelo de pele e
distância de gente surpreende ao só
rir da janela da flor da rua da paz
ela me sorriu ou sonhei mas acenei
como um piloto de coração chumbado
prestes a decolar das chamas dos
telhados amigáveis que chamávamos
lar

tic


pés tu que me acolhes no canso do dia que dia
no dia do dia que canso do dia que dia mais dia
o dia a dia o dia o dei o dia e canso e dia e ah

acordo na cor do céu e corto o seu tac e o seu

atento


cose grifos adonde passes, conselha
o mentor anônimo de minhas preces

hoje fui socorrido na igreja por senhoras bem educadas
mal pude recompensar-lhes
mal pude compreendê-las
curaram me disseram e sorriram para meus novos traços
eu ainda podia sentir as dúvidas dos adultos da minha infância
e agora era homem

me contive abstrato

mantive um futuro firme pelas mulheres da igreja
pois mal pude recompensá-las quando o lenço
absorveu as lágrimas e meus sapatos perderam o nó
mal pude agradecer-lhes por enxergarem meu homem
e pagarem dízimos ao meu senhor
e escovarem nossas bocas de hálito e perdão

trago trimestralmente um dos nossos para o domingo
lemos os testemunhos do espírito e sacrificamos
ó pai eu digo e sinto falta desse homem
ó pai eu digo decanto as mulheres na igreja

nunca fui religioso mas hoje fui socorrido
por aquelas que me amam como um cão
faminto por aqueles que me amam
como um casulo vazio
pois sabem que prometi a verdade
e sabem que a verdade é o perdão
que não pude agradecer no dia que viram-me
homem eu confessei 

cose grifos adonde passes, disse-me 
pois eu era tímido em minha garganta 
afogada de segredos


ah, verniz


nublado o município é um dom divino


besouros extinguem-se na busca por distopia


há um catálogo de coisas mortas nos livros das crianças da escola


o mijo na caatinga de concreto ecoa o oceano


caiporas urbanas permanecem a reciclar


a paisagem


redito


      ali
  se ali
    cê  

mas

    só 
   se ali 
     cêflor

intrané


do holofote do músculo,
da samambaia, do espelho,

(it: isto(o) entre mim e vós)

espero o fausto poente:
um log-off-eternamente.

e no não-tempo mais sempre,
direi: fui-me melhor me indo

lá onde há luz, flor e gente.


    conciso
consigo
     sorriso?

Dois idosos

Era um homem simples. Comunicava minhas dores pelos olhos que os seus espelhavam. Larga calmaria, a idade como um lago desistente. Encontrei ao torto final da tarde um colo morno de pai ausente. Resisti enquanto pude à busca por qualquer refinamento auto-ilusório. Calei perante a velhice exalada por axilas septuagenárias. Expus-me com minhas roupas e meu silêncio. "Ouves?", questionei a ele ou a mim, como se o Outro não fosse somente necessário ninho de mim mesmo. Não havia nada para ouvirmos, nada além de um banco de pedra e de histórias de pedra. Ele piscou demorado, como deserto em tempo. Da imersão solitária dos velhos olhos carnifeitos extraí a duras penas minhas lágrimas. Meu coração é uma mina inca. Nele apodrecem corpos desistorizados e o ouro só resplandece com sangue. Retomo a gravitação ao me deparar novamente com os globos acesos, negro-flamejantes. O universo (o único verso) derrotado por dois imponentes buracos negros. O ancião não condena minha jovialidade, tampouco qualquer questionamento pretensamente totalizante, ou mesmo a minha arrogância, a minha certa, indubitável, auto-proclamada arrogância. Recebo apenas o marejar tardio de quem mundo viu, mundo foi. Entre a inspiração e a expiração o ronco olímpico das batalhas vencidas, a presença reconfortante de um carvalho de carne, de um elefante rosado. Minhas mãos sem qualquer calejar esquentam joelhos pagãos enquanto ao meu lado o velho comunga a Verdade envolto em silêncio. Rosno como um cão à sombra do porvir. Chafurdo como um porco nos hinos efêmeros da juventude. Mordo a isca como um peixe de aquário. Choro. Histérico exponho a metafísica, a fenomenologia, o existencialismo, o materialismo dialético, o historicismo diabético: cito quatorze dezenas de autores importados e alguns nacionais: em nada impressiono os olhos que piscam. Transmuto-me em literatura, poesia, plástica arte cênica, em bicho, deus, mitologia, em água, fogo, vento, estrume. Nada, nada impressiona mais que os agonizantes olhos negros do mal-cheiroso camponês no banco de pedra. Desespero, grito em minha mudez solitária, tateio o ar rarefeito de montanha improvisada, procuro o farol da minha sanidade. "Onde?", mar de quandos perdidos em um patético Onde internético. A vida que se consome em telas: telas espelhadas, telas compradas, telas pavonescas, telos afogado em telas. Reconhecia ao meu lado um espécime isento da reprodução em cativeiro. Por meu medo ou minha angústia deixei o pensamento escapar-me: "A vida... a . .  . vida .  .   .  falta". O robusto idoso, o campesino idoso, o petrificado, místico, caipira, rugoso, transparente idoso, então, com voz própria de Zeus e entonação do esquecido interior, responde: "Farta vida".

Noite que te engole só.
Entreolhas entre passos a
noite que te acolhe, só.
No pranto do preâmbulo a estima
e a luxúria. Foges despercebido
no ruir de tua sombra. Afogas em
águas mansas o luminoso olhar da
juventude.
Esfarelas o sol enquanto rogas por vago
algo no espelho de tua morada.
Clamas religiosamente. Despertas
do sono moderno da possibilidade. Buscas,
buscas, devoras.
O ventre,
as tripas,
não esgotarão tua fome.

sh


mudo o mundo 
mud(a
judo  i 
ludo)
o

mudo(uça 
aqui palpita
e)outra vez
contra voz
               não
,direis

: m(I)udez 

escarro


cumpres ritos de baixas-cabeças, piscantes, digitalizados, manuais ou lixados
nos co-a)rredores compressivos de paredes roupas gentes brancas.
relógios invertebrados
te encolhem nos minutos do fétido ofício, posto que
mal te queixas da mísera sobrevida
que te impuseram (impuseste?) junto à justificativa histórica.
"há que lutar", dizem bundas-quadradas
de malhados cérebros e cigarros light
mas pouco sabem sobre a real fragmentação da classe:
o estômago, o coração e o osso.
toda essa gente que pisa o chão - barro, alfalto ou granito,
também tem tradição de lágrimas
com poucas escolhas relevantes:
o pão vale tanto quanto o circo
quando o palhaço é menos espelho que

outro

eu

que outro mundo, questionas
enquanto o álcool, a tarja-preta
ou a world wide web
enfeitiçam teu crânio amolecido.
não transgrides nem assedias tuas próprias nádegas
não cumpres acordos divinos nem gozas publicamente
não rompes tua estética colegial nem teus gostos tragicamente tele-inofensivos

és um tijolo
és uma tábua
és um cordeiro
és qualquer coisa nunca ex
pois nunca foste, nunca fizeste
nunca 
quiseste, dizes, enquanto afirmas querer teu querer

teu?

ti?

preso em tua fortaleza de carne e ossos
forças às pálpebras o breu da desistência
e sabes da tua covardia tanto quanto eu
que te julgo, ser nojento.

liberta


não me hospede
         em teu abismo
                                   solitário

suplicou O men/in O

                 [quase pornográfico
                  ungido a gemido  a]  

         eu

         chorei
         eu          
                                              e pouco
                                              quase  e
                eu
         chorei
                eu
                                              pouco e
                                              e  muito

gênesis

catarse
                        :   O   :
                                              gênero
                                              amar-se

não me hospede

         em teu confuso
                                    armário

                                    [o cão ladra e goza

                                     nas minhas coxas]