Dois idosos

Era um homem simples. Comunicava minhas dores pelos olhos que os seus espelhavam. Larga calmaria, a idade como um lago desistente. Encontrei ao torto final da tarde um colo morno de pai ausente. Resisti enquanto pude à busca por qualquer refinamento auto-ilusório. Calei perante a velhice exalada por axilas septuagenárias. Expus-me com minhas roupas e meu silêncio. "Ouves?", questionei a ele ou a mim, como se o Outro não fosse somente necessário ninho de mim mesmo. Não havia nada para ouvirmos, nada além de um banco de pedra e de histórias de pedra. Ele piscou demorado, como deserto em tempo. Da imersão solitária dos velhos olhos carnifeitos extraí a duras penas minhas lágrimas. Meu coração é uma mina inca. Nele apodrecem corpos desistorizados e o ouro só resplandece com sangue. Retomo a gravitação ao me deparar novamente com os globos acesos, negro-flamejantes. O universo (o único verso) derrotado por dois imponentes buracos negros. O ancião não condena minha jovialidade, tampouco qualquer questionamento pretensamente totalizante, ou mesmo a minha arrogância, a minha certa, indubitável, auto-proclamada arrogância. Recebo apenas o marejar tardio de quem mundo viu, mundo foi. Entre a inspiração e a expiração o ronco olímpico das batalhas vencidas, a presença reconfortante de um carvalho de carne, de um elefante rosado. Minhas mãos sem qualquer calejar esquentam joelhos pagãos enquanto ao meu lado o velho comunga a Verdade envolto em silêncio. Rosno como um cão à sombra do porvir. Chafurdo como um porco nos hinos efêmeros da juventude. Mordo a isca como um peixe de aquário. Choro. Histérico exponho a metafísica, a fenomenologia, o existencialismo, o materialismo dialético, o historicismo diabético: cito quatorze dezenas de autores importados e alguns nacionais: em nada impressiono os olhos que piscam. Transmuto-me em literatura, poesia, plástica arte cênica, em bicho, deus, mitologia, em água, fogo, vento, estrume. Nada, nada impressiona mais que os agonizantes olhos negros do mal-cheiroso camponês no banco de pedra. Desespero, grito em minha mudez solitária, tateio o ar rarefeito de montanha improvisada, procuro o farol da minha sanidade. "Onde?", mar de quandos perdidos em um patético Onde internético. A vida que se consome em telas: telas espelhadas, telas compradas, telas pavonescas, telos afogado em telas. Reconhecia ao meu lado um espécime isento da reprodução em cativeiro. Por meu medo ou minha angústia deixei o pensamento escapar-me: "A vida... a . .  . vida .  .   .  falta". O robusto idoso, o campesino idoso, o petrificado, místico, caipira, rugoso, transparente idoso, então, com voz própria de Zeus e entonação do esquecido interior, responde: "Farta vida".

Noite que te engole só.
Entreolhas entre passos a
noite que te acolhe, só.
No pranto do preâmbulo a estima
e a luxúria. Foges despercebido
no ruir de tua sombra. Afogas em
águas mansas o luminoso olhar da
juventude.
Esfarelas o sol enquanto rogas por vago
algo no espelho de tua morada.
Clamas religiosamente. Despertas
do sono moderno da possibilidade. Buscas,
buscas, devoras.
O ventre,
as tripas,
não esgotarão tua fome.

sh


mudo o mundo 
mud(a
judo  i 
ludo)
o

mudo(uça 
aqui palpita
e)outra vez
contra voz
               não
,direis

: m(I)udez 

escarro


cumpres ritos de baixas-cabeças, piscantes, digitalizados, manuais ou lixados
nos co-a)rredores compressivos de paredes roupas gentes brancas.
relógios invertebrados
te encolhem nos minutos do fétido ofício, posto que
mal te queixas da mísera sobrevida
que te impuseram (impuseste?) junto à justificativa histórica.
"há que lutar", dizem bundas-quadradas
de malhados cérebros e cigarros light
mas pouco sabem sobre a real fragmentação da classe:
o estômago, o coração e o osso.
toda essa gente que pisa o chão - barro, alfalto ou granito,
também tem tradição de lágrimas
com poucas escolhas relevantes:
o pão vale tanto quanto o circo
quando o palhaço é menos espelho que

outro

eu

que outro mundo, questionas
enquanto o álcool, a tarja-preta
ou a world wide web
enfeitiçam teu crânio amolecido.
não transgrides nem assedias tuas próprias nádegas
não cumpres acordos divinos nem gozas publicamente
não rompes tua estética colegial nem teus gostos tragicamente tele-inofensivos

és um tijolo
és uma tábua
és um cordeiro
és qualquer coisa nunca ex
pois nunca foste, nunca fizeste
nunca 
quiseste, dizes, enquanto afirmas querer teu querer

teu?

ti?

preso em tua fortaleza de carne e ossos
forças às pálpebras o breu da desistência
e sabes da tua covardia tanto quanto eu
que te julgo, ser nojento.