patronado


é como se um bicho me devorasse por dentro, ela definiu seus sentimentos à beira do rio que ligava nossas infâncias, diga-me mais, pedi com cautela apreensivo que notasse minhas mãos como espelho em dia frio de quente chuveirada, um peso que sofro por não carregar, ela ainda tentou meu convencimento. sou ateu e meço o mundo de forma europeia, certa vez questionei os caprichos de minha gramática surda e ajoelhei no milho do canto de um ovo. basta de lamúrias, disse eu mais ao vento que a ela (temia que me visse ali escalando qual um verme a parede de sua casa de inverno, não suportaria um julgamento mais que possuísse réus fotogr,afagos de minhas idades tenras, jurei fidelidade à sombra mucosa, jamais pedi penas e contentei-me às asas de borboleta), não obtive resposta em palavras mas o rio que nos lambia as solas trouxe-me seu calor quase materno, soube então que voltávamos a querer-nos bem como duas crianças de filmes que sempre crianças querem ser. imaginávamos roupas listradas coloridas, óculos desenhados com cor de lápis e gorros de nossas mães que nunca cozinharam pois escravizavam com papel suas mulheres inexistentes para minha orfandade. carecia-nos um magno significado, algo como uma aurora digna de aplausos cariocas, mesmo assim olhávamos o rio passar com sua dialética grega e pensávamos no nada hegeliano por mais que ela não me confessasse. limitamos os nãos e agradecemos pelos ouvidos bons e o paladar aguçado de cão, nossas mães gostariam de nadar conosco naquele verão após todas as vitórias das tecnologias. meu pai, pode-se dizer, foi um robô eficiente e me orgulhou pelo peito de cobre chileno e as mãos carnívoras de aço. ensinou-me a atirar em animais pois o sangue semelhava vida humana que era crime tirar, eu até gostei de carne e sacrifícios rezados, mas as folhas sempre me encantaram para além da simplicidade alimentícia (diga-se que aprendi que a areia é muito feia e fria à noite para ser a totalidade do que chamamos natureza). ouvíamos jazz nas encostas enquanto imaginava ela e mamãe comprando tortas para robôs e filhos do patriarcado tardio, o pai fumava-se todo risos e arrancava um coelho da toca só para provocar alices, mal sabia ele que eu lia tanto que suas teses me impressionavam menos que quinze arcas de nóes flutuantes sobre o mais cósmico jardim babilônico de édens. qohélet, ele brincava me chamando e eu não gostava pois apelido, robô, e ele enfurecia e surrava meu traseiro e minhas coxas sem querer e depois se desculpava, sou mecânico sabe, de fato eu sabia. nos improváveis genes ela estava e deu-me a mão no rio enquanto a poesia da flora caída rugia meu peitoral anacrônico, te sinto e minha barriga também é um buraco negro triste e finito, senti-me burro com essas palavras e lembrei do meu grosseiro pai tabernoso de lindes que não lindos, houve que ela sorriu e fez bolhas na boquinha de jabuticaba-olho, vagueei e procurei mais terra na água de intestino sonho, é um bicho forte esse que me serra os ossos, um bicho quase história, ele sofre como eu mas me engole enquanto penso, ele me quebra e rasga toda enquanto procuro palavras de choro e medo.


ei,
cosi algo para ti

guardei em tua gaveta extrema, perto da tua infância arenosa

perguntei-me se faria frio para lembrares da gaveta extrema
e, admito, vacilei por alguns minutos ao te plantar lembranças



saiba que algo como um osso restou entre nós
e não há músculo ou pele que nos esconda o rosto

daqui voltarei ao oceano profundo de sal e mim  
enquanto te vestes de nossas córneas entrelaçadas

leme


a visão embaçava mas o tempo urgia
no pouco restava no ali o esbulho de
si se houvesse sorte se houvesse ora
deus meu que há que foi por que te
choves tanto nessa ninharia nula de
meios e sem resposta encosta o olho
vidro embaçado rua escura piche e
menos dia para esse tanto queria ex
plodir dizia longe e baixo no sussurro
incomum para gente tão tagarela de
vazio decomposto a olhos vestidos de
ondes in questioná vê is pois foram e
adjetiva casa de ninguém como lá
em que vidros embaçam memórias
móveis sujeira densa luminária de
canto suado e com gelo de pele e
distância de gente surpreende ao só
rir da janela da flor da rua da paz
ela me sorriu ou sonhei mas acenei
como um piloto de coração chumbado
prestes a decolar das chamas dos
telhados amigáveis que chamávamos
lar