minúsculo


o fractal que revela o cosmos
a quebra na fala
a língua seca
a arquitetura desolada
os pontos sem riscos
as distorções
as dodecafonias
o silêncio durante o espetáculo
a escrita pelas mãos cegas
o autismo social
as rugas jovens de trabalho
as pernas murchas paralíticas
os ossos moídos na comida rápida
o câncer diário de sobrevivência
o lá partido do violão
o pulso sem sangue
os leilões de escambo
as mostras mudas
a arte pescada no bueiro
o cigarro aceso ao avesso
a cacofonia disléxica
as bocas costuradas de ingenuidades
o sexo virginal dos bêbados
a poça das pombas
o músculo do prato pobre
a carniça das ovelhas no frio
a paixão preguiçosa no coletivo
a rasura no canto do papel
o fogo poluente nos pneus
a criança do labor
o ofício do prazer alheio
a vida microscópica
o reflexo das estrelas frente ao sol
o universo em expansão
o metabolismo mecânico
as teorias não acatadas na academia
a pixação no muro branco da igreja
a lâmpada queimada no barraco
o dilúvio de nóe existente
as manchas da infância na pele campesina
os traços indígenas dos banhos diários
a roupa que se veste feliz
a tortura européia nas periferias
a coceira na orelha suja
a caspa que se mescla à cinza do cigarro
o vento doente das cidades
as folhas secas do verão
o som escatológico do banheiro público
a orgia gay de pais de família
a cicatriz da doença não esquecida
a filha estuprada na esquina de casa
o parente violento dentro do lar
o filme esquecido na video-locadora
o erotismo das escolas
a sedução dos cata-ventos à preamar
o linho nunca tocado
as histórias esquecidas
os mentirosos das praças
os chapéus que foram roídos
as canções que não foram escritas
o fractal que revela o cosmos

um brinde ao infinito alice

um telefone fixo na parede carpiu minhas ideias
quero explodir um minotauro nas ruas de belém
até parece ela disse me rindo tanto que até feliz
eu fui naqueles dias jovens antes da infância da
minha mãe perguntei tantas vezes por onde andar
íamos mas não havia resposta certa era só um cá
já de caetano ou um cósmico blues na trajano ah
que classe mais desmedida nos bueiros da cidade
o que mais você esperava ela me disse rindo e r
indo por aí como folha que secou no vento e nele
tomou forma de calma tá certo eu sabia que sim
por isso mantinha meu pulso em riste caso os
meninos de calça ainda quisessem brindar no as
falto pois convenhamos não há nada mais belo
que o rito da juventude claro ela disse claro que
sim seu besta deixe dessa de franzir a testa a
qualquer notícia de jornal que amarela os lírios
e até mesmo corta os pesares do dia de 1980
não voltaremos a qualquer festival num estopim
de motes e o que mais seja essa época talvez
só voltemos quando realmente já tivermos ido
é óbvio ela me disse mas eu gosto do óbvio
eu gosto de escrever qualquer coisa assim sabe
e lembrar que já tive dedos e mãos e cabeça
antes de instaurarmos o cosmosnismo nesse
planetinha meio xinfrim meio sem fim porque
redondo e rola roda ruma e mesmo com tanto
erre não erramos tanto assim não é mesmo
acho que só queríamos uns versos por aí que
cantassem um pouquinho no nosso ouvidinho
cheio de cera de dia-a-dia mas fazer o que nos
deram apenas pés e pernas e penas para não
voar mas enfiar cabeças em buracos de nada
nada e nada-nada que fome essa avestruz que
vive dentro de nós quando pensamos nas noites
que ficaram logo ali e apenas dormimos sem
estrelas ao não ouvir o que mamães papais
disseram nos diários da infância da terra pode
ser que fosse algo até útil mas preferimos
descansar um pouco do mato de asfalto com
as muitas limitações que todos menos nós
querem fotografar.

acordei nesse outro dia e até me olhei no es
pelho vai que algo atirou na boca e ali agora
tem olho mas não nada de novo e de novo
tomei café naquele padaria das 4 da manhã
rimos uma bocada e você nem estava ali mas
queria dizer mesmo que rimos muito aquela
noite e era dessas caras sérias que víamos nos
muros das escolas particulares todas se enfilei
rando nas retas de concreto pois olha e eles
nunca nem ouviram falar de concretismo e
então continuamos esse riso quase escrito de
um hoje infinito é cara nada é eu sabia e fiz
que sim com a cabeça que ainda existe nesse
pescoço um pouco torto você me disse que
na russia o crack tinha nome de réptil e a
moçada curtia ouvir um punk-rock até a
manhã do outro dia que nunca chega eu a
cenei de novo quando lembrei de todo o teatro
que corria nas veias das nuvens que cobriam
o céu lá há muito mais que nessa cadeira
eu disse e você concordou interpretando mal
minha logopéia de pano-de-chão até parece
que comprávamos leite mas eu não sabia se
acordaria ou dormiria ou se nada era só isso
mesmo senhor sim obrigado passe no débito
porque meu dinheiro acabou mais cedo e que
ro te mostrar uma mágica e então você riu de
novo e o vento até bateu nos cabelos longos
voamos para mil espaços fechados antes de
pedir a liberdade para aquele grande senhor
que nos observava diariamente nas câmeras
novas da marechal deodoro eu só queria um
pouco de bicicleta nessa carreta e você mais
mandirituba no sertão porque aquela menina
dos poemas idos ainda não tinha olhos para
o senhor que bom que os arrancou antes do
destino de fábula e acredito que também nós
vivemos assim um pouco com olhos nas mãos
e mãos do Senhor pois mestre é qualquer
destino de liberdade confusa você não acha
claro que não e então divergimos pois eu estive
errado nesses anos todos ao seguir a rua certa
e curvar na avenida onde vinte mil pessoas
ainda gritam para os ares da grécia antiga
por mais que saibamos que o olimpo nunca
mais foi visto e ontem tinhamos verdades ainda
e hoje é o que mesmo e não sei mais nada
além disso que tomamos um café e talvez
fosse só eu e você a ler e você ali.

por vezes esperei uma carta de resposta que
me emocionasse com um brinde um liquidifica
dor do faustão ou aquele caminhão que ele pro
metia na tv aos domingos mas não havia nada
na correspondência por isso tratei de escrever a
mim mesmo e aos minotauros das cidades bíblicas
esperei até o dia fechar as portas para beber suco
de limão com pêra um vez que fome é época e
época é isso aqui mesmo quando te encontrei nos
muros e nas ruas e nos prédios e nunca no mato
é que o mato é só meu você disse e não me quis
em paris nunca mais eu sei e fui embora outra vez
os nossos dias tão ficando longe hugo e eu olhei
pra trás e você estava certa não tinha mais muito
o que ficar lembrando dali vamos embora e separa
dos é claro é claro trocamos dois abraços e sabíamos
bem que a gente não ia mais se ver mesmo só aquela
coisa de internet que no fim ia nos confirmar dois
bocós mesmo mas também era algo para além
disso aí e sabíamos a gente vive no infinito amiga
eu disse e ela me ouviu uma vez e outra muitos
anos depois quando a gente entendeu finalmente
que estrela não é igual poste e que esse amor incon
dicional é o que os livros um dia classificarão como
amizade e eu não queria terminar nessa coisa melosa
por isso fui adiante e soprei mais um folha seca mais
uma folha seca ao vento e sabia que ela também sopra
ria pois a gente segue rindo e soprando e no mundo
amanhã teve tem terá muita folha desprendida que
mesmo seca corre o vento como um capacete de
moto.

fala-se em fertilidade nos noticiários


i.

não mais às montanhas
         recorrem povos híbridos
       
ouvi dizer: prenúncios (des
         ditos) nos kremlins ressoam
       
         pois um (mais-dia)quando
         na fome da carne abastada
         é signo de quebra e medo
         do fim presente de ontens

talham: um temporém

de metades e
         meios cosemos rugas e
esperança
         respondemos

ii.

filha da Mulher é a manhã
         da prole desapropriada

vida!
         esgota-me no concreto
         gozo-e-luto do real!

serra-me os ossos
         na manufatura do
porvir, aurora pétrea!