natal em vladivostok


é noite e ao menos posso ver as estrelas. sessenta e oito, sessenta e nove, setenta passos: eles não cansam de andar a minha frente. o ritmo é de engrenagem viva, semelhante àquele sofrimento das respostas ausentes. vez ou outra miram-me suas cospe-balas a fim de lembrar a inevitabilidade do destino da lei. sabemos todos que eu não sou pessoa de fugir a compromissos significantes, como o dia da própria execução. erram aqueles que crêem que o momento é de grandes reflexões ou mensurações de desperdícios. apenas andamos calados, longe das águas e dos cercos familiares. escolheram-me há dois meses, revelaram, em um site popular em nosso país. quando fui encontrado num banco de praça bebendo vodka ao amanhecer tiveram a certeza da minha conduta imoral. divergimos politicamente ao som dos transeuntes matutinos, mas o regime russo sempre impôs-se acima do tempo e do osso e eu calei qual formiga sob a ótica da lupa ensolarada. minha transpiração masoquista causou-lhes instiga e aversão, as quais consubstanciavam-se em erotismo profano na medida em que cresciam as torturas. pude finalmente me identificar com meus maiores ídolos, mortos por profanarem a sacralidade das tradições. um misto de gozo pelo papel de vítima e tristeza pela ausência de publicidade confundiam-me diariamente naquele pequeno cômodo frio. afinal eu sucumbia definitivamente ao não-ser contemporâneo e nunca soube exatamente o que seria isso por mais grandiosa que se manifestasse a curiosidade. foram os melhores dias da minha vida, senti como se cada músculo de meu corpo servisse a minha pátria. o bem maior enfim agia em mim e o gozo da sincera hipocrisia me afogava num êxtase pré-colombiano.  eu podia sentir a censura a tal sentimento em cada gesto de meus algozes, mas também nas minhas memórias daqueles que se prostraram historicamente conjunta ou contrariamente ao que eu manifestava ser. eu não me submeti, tampouco me insurgi, por isso tinha a certeza de que meu cadáver não atingiria o patamar comum da culpa universal, milenarmente – e não unicamente - cristã. sentia-me, ao fim, fruto superior aos falsos antagonismos da busca gananciosa do poder. confundi-me dia após dia ao nada, resistindo apenas pela ilusão de provar a alguém a colossal verdade do erro. no último dia pude novamente andar. semelhava a um mártir: lento, doloroso, sábio. eles me escoltavam, pouco me olhavam e temiam a minha obediência plena. eu jamais saberei se atingi o objetivo de alguma organização ou indivíduo naquela noite, independente de crenças ou ciências. apenas posso me resumir ao empirismo narrativo. não lembro do nome a quem abaixávamos cabeças à época, se era um khan, czar, secretário-geral ou presidente. tampouco me recordo se era eu de uma etnia minoritária, negro, artista revolucionário ou não-heterossexual. pouco importa. entendi que aos que detém poder, por mais variável a justificativa e o objetivo, nós somos apenas um retrato nostálgico. agradecem sinceramente por roubarem nossas vozes, usarem nossas bocas, usufruírem do nosso dízimo. cabe-nos apenas a submissão e a ironia. o homem que me matou derramou uma lágrima. não tenho ideia de seu significado e isso me consome.    

crise



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