telhas sobre telhas
gaiolas de vaga-lumes
cômodos vazios

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aporia ausenta

i.

corcunda o mundo
em si o discurso

e disso resta

às palavras medo
do não-ser infindo

ii.

concisão

aporia
menos

iii.

o bicho em mim
é sim dionisíaco

ainda assim ele
chora
é bicho e chora

que dizer então

iv.

afinal  é
constrangedor
o existir
além do banal

v.

uma imagem:

no colo da mãe
uma filha morre

a mãe escorre


um pensamento:

não há ciência
na boca d’arte

boca universal
do grito que
é sem palavra
gente

vi.

aporia é ausência

ausência de mundo

e

vii.

quem sofre-alegra
sabe que mundo
não é não
um ou um
eu ou eu

eu fui só um corpo a quem corpo me quis, um socialista incompetente frente aos sonhos esfarelados nas sopas da rotina cinza, um anarquista sonâmbulo frente à coletividade esmagadora de sinais proibitivos, um aluno distante, um amante frio, um abraço insuficiente, eu quis mais do que pude, acumulei derrotas e esperas infindáveis, prometi que mudaríamos, sobressairíamos e voltaríamos àquele estado mítico de perfeição idealizada, mas nada fomos além, deixamos o passado nas memórias e conduzimos o presente com afinco, mal percebi quando envelheci sentado em um cômodo que me fedia em cada canto, na janela cinzas e a espera, nada irá chegar além de outro dia em que andarei pelas mesmas ruas que você, pensando talvez em vocês todos, mas agora eu sei que nem isso, nem isso é alteridade, é a mera fraqueza de me ver só, de procurar assuntos em celular, inventar mentiras para dizer olá, alô como você está, vamos todos indo eu sei, nessa conjugação incerta de nossas vidas, enquanto cruzam-me outras, cheias de tantos outros vazios, e o que me fará levantar daqui, penso diversas vezes antes de me ausentar novamente da esperança, eu sou um militante falido, deixei meus sonhos em bagagem, viagem cancelada e raiz no pé, não há nada que me faça voltar, por mais que eu queria, tudo está perdido, tudo se foi e eu também, já não existo nem em rimas, já não existo em qualquer lugar, perdi nos versos os melhores olhos, nas bocas as promessas de amor, no ventre de minha mãe a possibilidade, agora sigo o fim da juventude na sombra do que imaginava, na ideia do impossível, remoendo a cada segundo a distância da imagem que me reflete cada tela, por isso, caro amigo, desisti, não por simples egoísmo, eu juro que não, é que precisava ter forças de não pensar no que acabou para sempre, no que se foi para longe, no que deixei para trás

a luz e a alma

para y. utumi

quem nota 
tartaruga 
    em nota

quem sois
somado
    em dois

quem real
expulsa
    em nau

sob o triste
olhar de 
estátua

mar se foi
céu se foi

no casco
a concha

mas dentro
entre valor
     e vento

escondida
por tímida
           luz

nada a
   alma
ex
   tinta:

  a nota
desbota 
  a vida


a alma de uma nota de 2 reais, por y.utumi




na morada de tua ausência


nos dias alimento peixes
e à noite canto-lhes 
poesia

eis-me tu calmaria
nesta casa adoecida

em que peixas-me vida 
e traças onde me lias

és geométrica como cria
que se grita submersa

patética como a dança
que o lindo bandeira versa

pudesse eu gravaria
em cada boca pisciana

esse amor que me ausenta
em cada traço em cada 
cama

hypnos 3


sopa de pedra
por quanto tanto
vida à esquina
por tanto. mira
               
i have a dream. morte da cruz
             sonho. eu sonho e. a aliança
desfez-se nas crises de doismil e 8
                                                   (verte-se o infinito
 O             Mammon

veja meus furos Tomé, veja meus
furos. há que se reconhecer o abjeto
jacto, acto, ab alle ismos

a borda permanente
a borda permanente

,

os verdadeiros poetas
deviam-se-ler e rir
:
preso às pequenas quimeras de minha
classe. preso às pequenas quimeras de
minha classe. preso às pequenas qui
-argh!-
sustento um frágil esqueleto de idéias
materialismo da ideia, contradito ex
leminski, cova trotskysta ab el sinto


por onde
               andarão
                             os bárbaros
com seus
               corações
                             pendulares?


a vista do sol


teus pés agora botas
e o canto zumbido
alas distante eco

o emburacado crente
ouve as notícias de mil
novecentos e cinquenta
ainda datilógrafo de si
e questiona por que
não luvas se louvas
papéis cobertores
de crianças ilhadas
nas marquises desbotadas

teus pés agora botas
e os pássaros não sabes
mais que assovios

é necessário um pavio
à explosão e um bico ao
girassol mas ainda assim
pensas que talvez o verbo
possa reduzir algum
descompasso da imagem
anterior à experiência
mesmo que só pressagio
seja a voz florida

teus pés agora solas
na boca uma pasta azeda
o século colhe parafusos

a soma é científica
ainda que desnecessária
a fala é científica
ainda que inenarrável
o pleito é científico
ainda que sádico
a força é científica
demasiadamente científica
ainda que demonstrável

as botas foram pregadas
os pés botados
o chão bussolampulhetado

como podem ser desagradáveis
as vidas que não banham
em rios sagrados
de veias diviniformes
como augustos domésticos
freados remotos
num círculo ralado
parisiense antes de si
pangéico em espelho

teus pés agora botas
lê minha mão que cruza
a tua em afluência

teus filhos perguntarão
às mães aos pais aos irmãos
o que houve conosco afinal
ontem mesmo quando
esteve nas praias uma armadura
e nas selvas a nudez absoluta
o que houve mãe prenha
que as onças se extinguiram
em botas de plástico

mba


o belo é uma imposição natural
a cada semovente sal
bípede ou alado
filho de forme
dorimanado

o belo é uma composição casual
o múltiplo transocial
mito engasgado
de cada osso
dorminado

o belo é uma reação visceral
casa de mãe ancestral
o ão carnembalado
córrego fosso
moacirdo

aos mitos


o ele qualquer
senta no ali e
contempla o tempo

o mito secou
e ele adora 
e o si do si
espelhado  

cresce em crosta e
semelha imóvel pêndulo,
útil à inutilidade

de que adianta um mito?

timorato o anti-ato
perdeu ítaca antes
de tróia

não houve hades
paraíso
pena
ou glória

o ele qualquer
atrofiou os dedos
secou a língua
e impôs aos olhos 
o nunca olhar-se

do tempo fez templo

do teclado intranético
arquétipo

e mítico negou o mito.

mas 
o ele esqueceu
qual infante rebelde
que o mito é mito:

ainda que em ferro
fundam-se deuses.



prolegómenon


nobre colega
- espeto de minha voz -
terei de traçar-te
algumas regras básicas
para o nosso bom convívio

antes de tudo não me queiras
amigo ou companheiro.
esquece que tenho mãos
braços, olhos e um cabelo
até que vasto.
antes, mira-me os pés e
a sombra junto às costas
que alumbram o pó que
me serve, pois este
caro colega
é um espelho que não
te merece.

não me peças conselhos
nem revisões ou pitacos:
não me vendo ao dinheiro
ou a qualquer favor para
contrair meu trato vocal
um milésimo de milímetro
(que seja) além do que
calha nos bons costumes
da generosidade.

sou carrancundo?
sim sou. um velho se quiseres
ou mesmo um grande rinoceronte
de chifre sempre a riste
e não tenho vergonha
- escute bem -
de me querer alheio a contatos
ou tatos - principalmente o tato, argh!

eu, meu nobre senhor,
comungo apenas com o
indivíduo ibseriano e
com as clássicas lições
teogônicas de hesíodo
pois em mim somente
existem dissimulações de musas
anti-hominídeas

e não, eu não te apresso
para que entendas as
alegorias do caos
ou sequer faça-te admirador
particular deste varão
anacrônico,
apenas te peço, ou melhor,
exijo-te poucas regras:

1) distancia-te;
2) compreende-me;
3) esquece-nos.



maria, quase cento


nas curvas enxadas do tempo
sem mais duvidosa espera
maria de quase um cento
aos pés abotoa a primavera.

por onde figura o lamento
de uma pobre inchada velha
de braços que não sustentam
a filha e a mãe de amélia?

na cortina voada a vento
ou na cozinha que se remela
maria já não te entendo
como de casa viraste janela?

teu pé qual botão de rosa
teu tendão do braço rompido
sentada esculpes ombrosa
o mato que te haverá carpido.

esquece o pé de mimosa!
esquece o braço marido!
por onde quer que te vás maria
teu andar andará caído.

nas curvas enxadas do tempo
te sabes não haver mais dito.
maria de quase um cento
apita um infantil apito.




lá se foi ele e eu chorava.

no meu sonho havia
árvores e folhas
e eu nada mais enxergava.
não havia caminhos
sons ou mapa,
mas eu caminhava
por entre as árvores e
as folhas. talvez estivéssemos
a brincar de esconder
como na infância interiorana,
caçando-nos quais bichinhos
irracionais no meio da mata.
onde estaria você?
ameixeira mangueira cipó
na roseira ou no gira-sol?
no meu sonho havia
árvores e árvores. e também
folhas, muitas folhas.
e não havia ninguém.
escondeu-se nas árvores?
caminhou pelas flores?
onde estão as flores do meu sonho?
talvez você tenha ido embora mesmo
e o que restou de mim foi
esse lugar óbvio.




límpida


o meu peito dilata a água que
me filtra. há apenas pedras
e areia em meu aquário
amadeirado. talvez você
se pergunte em que canto
foram parar os peixinhos
as algas e os crustáceos.
eu não sei. em mim há
apenas um aquário
amadeirado que me filtra
a todo o tempo e
borbulha certa ausência
em minhas pálpebras.

torção e frenesi


castra-te se te impinges pena
a mira erótica de nossas pernas

          mas faças a faca e forro
           qual coração pingente
          qual coração gomorro

castra-te se te impinges pena
o amor alheio de face serena

          mas castra também
           tua casta  que ladra
          enquanto te afastas

castra-te se te impinges pena
a vida ausente que não te acena

          mas olha-te mutilado 
           e rústico  e reconheças 
          nosso próprio

         acústico
                              osso
    torcido
                                partido
       pescoço
                            findo

frenesi em teu olho de corvo
                                             
                                 : meu corpo


Enquanto me

Mói tua carne em mim. Desajustado o regime virandeano, cacei vagalumes na urbe intacta. Iniciei a cabalística com congelados e cancerígenos pluritristonhos, escolhas vagas da máquina que me agia. O céu era preto e dele nada se extraia, podia mirar qualquer borda do infinito que não saberia uma pergunta suficiente. Resgatei os pensamentos milionários em cada mordida vertida em centavos de convulsão intestinal. Não havia muitas opções no limbo do ter o suficiente para escapar ao não-ter. Confesso minha cretinice suprema: sonhava-me um marxista de ouro maciço. Tanta futilidade se abriria a minha frente, pensava, que seria suficiente para apagar a inquietação do esgoto que exalava nossas narinas sehr close ao chão. A fim de me penalizar pelo hedonismo moralista consumi meus pensamentos em vórtice slowmotion. Janelas pisado tanto, cruzei rodeios empilhados no pós. O vazio do meio, talvez seja isso: o vazio do meio. Não o glamour da transição, mas a falta do que não é o bastante para engordar um elefante imaginário. 

Àquela noite rendi-me à montaria dos devaneios anti-História. Penei mas ruas, calçado tanto ali por lá subtraído. Tratei apenas de subtrair a subobjetividade da pretensão. Zanzei cães qual pastoril gênesis pagã, domesticado às avessas. Eros malthusiano, estirpe híbrida de espelhos, caí-me. Numa sensorial onomatepopéia restringi os convites à aliciação. Disse-te e tudo fosco, calejado diálogo em vívidos olhos. Sombrios os fantasmas encapuzados na ronda do quarteirão. Cisquei borracha tijolando-me noutro stop. Balbuciar um trop seul em meio a pouco, missão regenerada do minuto consequente. Das cascas retorcidas os penseiros pescolhidos. Em quinze velocidades curupirou ao meio da noite pinhal. Deitei a mão no invisível.