maria, quase cento


nas curvas enxadas do tempo
sem mais duvidosa espera
maria de quase um cento
aos pés abotoa a primavera.

por onde figura o lamento
de uma pobre inchada velha
de braços que não sustentam
a filha e a mãe de amélia?

na cortina voada a vento
ou na cozinha que se remela
maria já não te entendo
como de casa viraste janela?

teu pé qual botão de rosa
teu tendão do braço rompido
sentada esculpes ombrosa
o mato que te haverá carpido.

esquece o pé de mimosa!
esquece o braço marido!
por onde quer que te vás maria
teu andar andará caído.

nas curvas enxadas do tempo
te sabes não haver mais dito.
maria de quase um cento
apita um infantil apito.