a vista do sol


teus pés agora botas
e o canto zumbido
alas distante eco

o emburacado crente
ouve as notícias de mil
novecentos e cinquenta
ainda datilógrafo de si
e questiona por que
não luvas se louvas
papéis cobertores
de crianças ilhadas
nas marquises desbotadas

teus pés agora botas
e os pássaros não sabes
mais que assovios

é necessário um pavio
à explosão e um bico ao
girassol mas ainda assim
pensas que talvez o verbo
possa reduzir algum
descompasso da imagem
anterior à experiência
mesmo que só pressagio
seja a voz florida

teus pés agora solas
na boca uma pasta azeda
o século colhe parafusos

a soma é científica
ainda que desnecessária
a fala é científica
ainda que inenarrável
o pleito é científico
ainda que sádico
a força é científica
demasiadamente científica
ainda que demonstrável

as botas foram pregadas
os pés botados
o chão bussolampulhetado

como podem ser desagradáveis
as vidas que não banham
em rios sagrados
de veias diviniformes
como augustos domésticos
freados remotos
num círculo ralado
parisiense antes de si
pangéico em espelho

teus pés agora botas
lê minha mão que cruza
a tua em afluência

teus filhos perguntarão
às mães aos pais aos irmãos
o que houve conosco afinal
ontem mesmo quando
esteve nas praias uma armadura
e nas selvas a nudez absoluta
o que houve mãe prenha
que as onças se extinguiram
em botas de plástico

mba


o belo é uma imposição natural
a cada semovente sal
bípede ou alado
filho de forme
dorimanado

o belo é uma composição casual
o múltiplo transocial
mito engasgado
de cada osso
dorminado

o belo é uma reação visceral
casa de mãe ancestral
o ão carnembalado
córrego fosso
moacirdo

aos mitos


o ele qualquer
senta no ali e
contempla o tempo

o mito secou
e ele adora 
e o si do si
espelhado  

cresce em crosta e
semelha imóvel pêndulo,
útil à inutilidade

de que adianta um mito?

timorato o anti-ato
perdeu ítaca antes
de tróia

não houve hades
paraíso
pena
ou glória

o ele qualquer
atrofiou os dedos
secou a língua
e impôs aos olhos 
o nunca olhar-se

do tempo fez templo

do teclado intranético
arquétipo

e mítico negou o mito.

mas 
o ele esqueceu
qual infante rebelde
que o mito é mito:

ainda que em ferro
fundam-se deuses.



prolegómenon


nobre colega
- espeto de minha voz -
terei de traçar-te
algumas regras básicas
para o nosso bom convívio

antes de tudo não me queiras
amigo ou companheiro.
esquece que tenho mãos
braços, olhos e um cabelo
até que vasto.
antes, mira-me os pés e
a sombra junto às costas
que alumbram o pó que
me serve, pois este
caro colega
é um espelho que não
te merece.

não me peças conselhos
nem revisões ou pitacos:
não me vendo ao dinheiro
ou a qualquer favor para
contrair meu trato vocal
um milésimo de milímetro
(que seja) além do que
calha nos bons costumes
da generosidade.

sou carrancundo?
sim sou. um velho se quiseres
ou mesmo um grande rinoceronte
de chifre sempre a riste
e não tenho vergonha
- escute bem -
de me querer alheio a contatos
ou tatos - principalmente o tato, argh!

eu, meu nobre senhor,
comungo apenas com o
indivíduo ibseriano e
com as clássicas lições
teogônicas de hesíodo
pois em mim somente
existem dissimulações de musas
anti-hominídeas

e não, eu não te apresso
para que entendas as
alegorias do caos
ou sequer faça-te admirador
particular deste varão
anacrônico,
apenas te peço, ou melhor,
exijo-te poucas regras:

1) distancia-te;
2) compreende-me;
3) esquece-nos.