eu fui só um corpo a quem corpo me quis, um socialista incompetente frente aos sonhos esfarelados nas sopas da rotina cinza, um anarquista sonâmbulo frente à coletividade esmagadora de sinais proibitivos, um aluno distante, um amante frio, um abraço insuficiente, eu quis mais do que pude, acumulei derrotas e esperas infindáveis, prometi que mudaríamos, sobressairíamos e voltaríamos àquele estado mítico de perfeição idealizada, mas nada fomos além, deixamos o passado nas memórias e conduzimos o presente com afinco, mal percebi quando envelheci sentado em um cômodo que me fedia em cada canto, na janela cinzas e a espera, nada irá chegar além de outro dia em que andarei pelas mesmas ruas que você, pensando talvez em vocês todos, mas agora eu sei que nem isso, nem isso é alteridade, é a mera fraqueza de me ver só, de procurar assuntos em celular, inventar mentiras para dizer olá, alô como você está, vamos todos indo eu sei, nessa conjugação incerta de nossas vidas, enquanto cruzam-me outras, cheias de tantos outros vazios, e o que me fará levantar daqui, penso diversas vezes antes de me ausentar novamente da esperança, eu sou um militante falido, deixei meus sonhos em bagagem, viagem cancelada e raiz no pé, não há nada que me faça voltar, por mais que eu queria, tudo está perdido, tudo se foi e eu também, já não existo nem em rimas, já não existo em qualquer lugar, perdi nos versos os melhores olhos, nas bocas as promessas de amor, no ventre de minha mãe a possibilidade, agora sigo o fim da juventude na sombra do que imaginava, na ideia do impossível, remoendo a cada segundo a distância da imagem que me reflete cada tela, por isso, caro amigo, desisti, não por simples egoísmo, eu juro que não, é que precisava ter forças de não pensar no que acabou para sempre, no que se foi para longe, no que deixei para trás

a luz e a alma

para y. utumi

quem nota 
tartaruga 
    em nota

quem sois
somado
    em dois

quem real
expulsa
    em nau

sob o triste
olhar de 
estátua

mar se foi
céu se foi

no casco
a concha

mas dentro
entre valor
     e vento

escondida
por tímida
           luz

nada a
   alma
ex
   tinta:

  a nota
desbota 
  a vida


a alma de uma nota de 2 reais, por y.utumi




na morada de tua ausência


nos dias alimento peixes
e à noite canto-lhes 
poesia

eis-me tu calmaria
nesta casa adoecida

em que peixas-me vida 
e traças onde me lias

és geométrica como cria
que se grita submersa

patética como a dança
que o lindo bandeira versa

pudesse eu gravaria
em cada boca pisciana

esse amor que me ausenta
em cada traço em cada 
cama