eu fui só um corpo a quem corpo me quis, um socialista incompetente frente aos sonhos esfarelados nas sopas da rotina cinza, um anarquista sonâmbulo frente à coletividade esmagadora de sinais proibitivos, um aluno distante, um amante frio, um abraço insuficiente, eu quis mais do que pude, acumulei derrotas e esperas infindáveis, prometi que mudaríamos, sobressairíamos e voltaríamos àquele estado mítico de perfeição idealizada, mas nada fomos além, deixamos o passado nas memórias e conduzimos o presente com afinco, mal percebi quando envelheci sentado em um cômodo que me fedia em cada canto, na janela cinzas e a espera, nada irá chegar além de outro dia em que andarei pelas mesmas ruas que você, pensando talvez em vocês todos, mas agora eu sei que nem isso, nem isso é alteridade, é a mera fraqueza de me ver só, de procurar assuntos em celular, inventar mentiras para dizer olá, alô como você está, vamos todos indo eu sei, nessa conjugação incerta de nossas vidas, enquanto cruzam-me outras, cheias de tantos outros vazios, e o que me fará levantar daqui, penso diversas vezes antes de me ausentar novamente da esperança, eu sou um militante falido, deixei meus sonhos em bagagem, viagem cancelada e raiz no pé, não há nada que me faça voltar, por mais que eu queria, tudo está perdido, tudo se foi e eu também, já não existo nem em rimas, já não existo em qualquer lugar, perdi nos versos os melhores olhos, nas bocas as promessas de amor, no ventre de minha mãe a possibilidade, agora sigo o fim da juventude na sombra do que imaginava, na ideia do impossível, remoendo a cada segundo a distância da imagem que me reflete cada tela, por isso, caro amigo, desisti, não por simples egoísmo, eu juro que não, é que precisava ter forças de não pensar no que acabou para sempre, no que se foi para longe, no que deixei para trás

Nenhum comentário:

Postar um comentário